Brás Cubas, historiador

Publicado em 1881, Memórias Póstumas de Brás Cubas é considerado o livro que inaugura o Realismo no Brasil. A obra se constitui a partir dos relatos do narrador, Brás Cubas, que se define não como um autor defunto, mas como um defunto autor – ou seja, alguém que escreve depois de morto. Portanto, acerca do Realismo machadiano, pode-se dizer:

“A singularidade de Machado de Assis, por conseguinte, justifica-se muito menos por sua mimesis do que por sua redução em linguagem de aspectos sociais que denunciam quem são os brasileiros e o que eles têm de diferente em relação aos europeus.” (COUTO, 2016)

Resumidamente, o que o defunto autor nos conta são as principais memórias desde a infância até a fase adulta, em meio às suas desventuras amorosas e sociais. O livro, que não segue um enredo linear, se classifica como um romance psicológico, que apresenta elementos do modernismo e, absolutamente, seu próprio “realismo mágico” (MARCÍLIO).

Entretanto, o fato de que a narrativa não se organiza como um relato óbvio e denotativo da realidade (mimesis) não significa que a obra não possua valor enquanto relato histórico oitocentista. Pelo contrário, o livro expõe, em incontáveis ocasiões, a maneira como a sociedade brasileira e europeia se relacionavam, bem como as próprias relações entre os brasileiros do século XIX, as teorias pseudocientíficas que tentavam justificar os abusos e injustiças da época e o pensamento corrente da elite colonial:

“Em síntese, haveria, em Memórias póstumas de Brás Cubas, uma estrutura narrativa correspondente a uma estrutura social, isto é, uma coincidência entre narração autoritária (perceptível na diagramação dos capítulos, na condução das reminiscências etc.) e autoritarismo de classe.” (COUTO, 2016)

Segundo Marcílio, a chegada de Brás Cubas à idade adulta poderia simbolizar uma maturidade social brasileira, pela simultaneidade – supostamente intencional – entre o período da sua juventude e a Independência do Brasil, em 1822. Haveria, de certa forma, um paralelismo entre a história do país e os relatos de Brás Cubas, representante da elite aristocrata e do pensamento escravista:

“Brás Cubas é o protótipo do proprietário de terras e escravos aos moldes do século XIX; é, em outras palavras, o típico sujeito da elite, infiltrado no estamento burocrático e agindo como quem de sua estirpe agiria: imitando tudo o que se fazia na Europa, só que de maneira abrasileirada.” (COUTO, 2016)

Por essa razão, o testemunho de Brás Cubas pode ser examinado através da perspectiva do relato histórico, com valor não apenas literário e artístico, enquanto obra de ficção, mas também como exemplo de personagem-tipo que caracteriza o aristocrata oitocentista de uma realidade não tão distante:

“As memórias de Brás tornam-se, por conseguinte, um testemunho histórico importante sobre as transformações nas ideologias de sustentação do poder no período de crise da sociedade escravista.” (CHALHOUB, 2003)

É importante destacar, em meio a tanto, a relevância da época em que o autor-defunto escreve. Na década de 1870 houve numerosas mudanças que moldariam as relações econômicas e sociais então presentes. A ebulição política fazia dessa época uma caldeira prestes a transbordar, em conflitos cujos interesses eram de naturezas completamente opostas. De um lado, o interesse dos senhores de escravos em manter suas “posses”; de outro, a pressão social e econômica vinda da Europa em abolir a escravidão e mover o mercado consumidor em um rumo liberal.

“Entre a morte do “defunto autor”, em 1869, e o aparecimento do texto, em 1880, houve os acontecimentos políticos e sociais decisivos da década de 1870, os quais conformam, de fato, o conteúdo e o tom do relato de Brás. (…). Havia vários temas palpitantes nos anos 1870 — emancipação dos escravos, mudanças em políticas públicas, emergência de novas idéias políticas e filosóficas, e assim por diante.” (CHALHOUB, 2003)

Nesse sentido, os relatos post mortem de Brás Cubas não são fortuitos. Eles se encontram imersos em uma ideologia de dominação senhorial de cunho conservador, isto é, estão inseridos em um momento histórico do qual ele já não mais participa enquanto vivente, mas como um observador parcial:

“Afinal, Brás Cubas é defunto vivíssimo. Apesar de se descrever como um ‘punhado de pó’ espalhado ‘na eternidade do nada’, ele continua a ter a experiência da história” (CHALHOUB, 2003)

Esse ponto é de especial importância quando consideramos o leitor da época, acostumado aos romances românticos que possuíam um caráter e um objetivo completamente diferentes dos romances realistas – sem, aqui, entrar em méritos de valor. Por esse contexto, é intuitivo compreender a facilidade com que o público acatou (vez e outra vez, repetidamente) o ponto de vista do narrador; assim foi feito com Brás Cubas, bem como com Bentinho e outros mais.

“O leitor brasileiro facilmente adere ao ponto de vista dos narradores machadianos, dos ioiôs elegantes, acabando por ver com naturalidade a relação entre proprietários e agregados.” (COUTO, 2016)

Como se reconhece, Machado de Assis só pôde ser compreendido quando o leitor conseguiu se livrar dessa lógica, dessa ingênua e cega confiança no narrador. Obviamente, o que Machado escreveu em Memórias Póstumas de Brás Cubas não poderia ser jamais tido como uma apologia ao sistema escravista – essa visão demonstraria apenas uma leitura equívoca da obra machadiana, que é fortemente marcada pela ironia. Afinal, no século XIX, quando se passa a história, mas também quando Machado, homem negro, escreve, o próprio sucesso do autor se configurava como uma brilhante ironia:

“A própria condição de Machado como artista consagrado era maculada aos olhos da elite brasileira por ele ser um mulato de origem humilde. A ascensão econômica ou em termos culturais não significava adaptação completa à estrutura hierárquica do Império, mas de uma condição paradoxal. (…). Machado de Assis, um mulato bem sucedido, constituía um paradoxo vivo na sociedade brasileira.” (MISKOLCI, 2006)

Memórias Póstumas de Brás CubasEm pleno século XIX, prestes à abolição da escravidão – coisa que, oficialmente, ocorreu em 1888, com a assinatura da Lei Áurea, apenas sete anos após a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas – havia ainda uma visão deturpada que confundia Sociologia e Biologia, gerando entendimentos distorcidos do Darwinismo, que foram, da mesma forma, usados para justificar a escravidão e os massacres nazistas. Por isso, o sucesso social, embora incômodo para as oligarquias, não era considerado uma superação das origens de uma pessoa “baixa”. A hierarquia se justificava em uma suposta superioridade de uns sobre outros a partir, simplesmente, da sua ascendência:

“Percebe-se que a sociologia nascente se confundia com a Biologia em uma forma de compreensão da sociedade, que resultava tão liberal quanto autoritária. (…). Machado escreveu sobre a sociedade brasileira do Segundo Reinado, a qual era marcada pela hierarquia. A origem de um indivíduo era essencial para seu prestígio.” (MISKOLCI, 2006)

Evidentemente, Machado percebia as distorções feitas para acobertar as injustiças, o que denunciou em tom irônico, por exemplo, na teoria do Humanitismo – a teoria de que toda ação humana é válida, porque tem em sua finalidade a sobrevivência da espécie. Em Memórias Póstumas, nem mesmo Brás Cubas se convence por inteiro dessa teoria, que mais uma vez brinca com a ideia do Darwinismo social, escancarando a podridão com que os homens se apropriam da ciência para fins corruptos:

“A dissidência de Machado com relação ao liberalismo autoritário de traços darwinista-sociais indica que sua visão do papel do intelectual na sociedade era a daquele que se mantém fiel aos vencidos na luta pela existência.” (MISKOLCI, 2006)

Por essa razão, Miskolci descreve Machado de Assis como um outsider (literalmente: um estranho, forasteiro, intruso – em tradução livre). Negro, logo, para a época, inferior, e ao mesmo tempo um célebre autor, reconhecido, que ironiza a sociedade aristocrática e debocha das suas pretensões.

“Ainda que, na ficção, Machado brinque com a parcialidade de visão e, sobretudo, com o ideal de objetividade dos escritores de seus dias, não há como ignorar sua valorização da perspectiva do outsider, daquele que já não participa do jogo social nem crê mais em suas regras.” (MISKOLCI, 2006)

 

Essa desilusão com que escreve, bem como seu sarcasmo cáustico, renderam ao autor o rótulo simplista e resumidor de cético, que, embora não deixe de ser parcialmente adequado, não explica e não compreende Machado por completo – coisa que não poderia fazer alcunha alguma. Da sua posição – outsider social, autor reconhecido e paradoxo vivo – a ironia é uma excelente resposta, e o ceticismo uma perspectiva compreensível:

“De certo modo, supera-se o ceticismo quando se aceita, embora com amargura ou contido protesto, o “resto” que nos lega a vida. Talvez resida aí, bem distinto do humour inglês, a ironia machadiana, na qual talvez se oculte a capacidade brasileira de dar-se um jeito, quand-même, aos tropeços da existência.” (REALE, 1982)

A bem da verdade, para o público a quem Machado escrevia, a elite oitocentista, o raciocínio que se dava era tão-só o que se passava com o defunto que escreveu suas Memórias:

“(…) em 1880, seria difícil que Brás adotasse defesa ideológica da instituição da escravidão, mas haveria vontade de sobra, nele e em seus pares, para defender a propriedade escrava existente contra as incursões dos abolicionistas.” (CHALHOUB, 2003)

Mesmo com essa percepção, Machado de Assis foi capaz de manter uma visão sarcástica e amarga, mas que não se afundou em tragédia. Ainda que carregue um inconformismo com a inexorabilidade do destino, para o autor, a vida ainda vale a pena ser vivida:

“O mundo de Machado ‘não conhece a tragédia’, ou melhor, que ‘nele, o trágico dissolve-se no absurdo e o ridículo tem gosto amargo’.” (HOLANDA apud REALE, 1982)

Com sua capacidade ímpar de expor e desmoralizar o conservadorismo social e a calhordagem da aristocracia brasileira, Machado ainda conseguiu fazer que permanecesse acesa a vontade pela vida, sem ilusões ou utopias, mas como um imenso parque de diversões:

“Vale a pena viver o drama da existência quando se sabe ser, ao mesmo tempo, coche, cavalo e cocheiro, protagonista e espectador da fria indiferença do destino; quando, em suma, a despeito de saber que a vida não conduz a nada de certo ou positivo, ela vale como drama ou espetáculo.” (REALE, 1982)

Conduzindo a uma conclusão, Memórias Póstumas de Brás Cubas se mostra uma obra de alto valor histórico, em que Machado foi capaz da artimanha de construir uma narrativa em que os valores e as vilezas da sociedade colonial fossem expostos e ridicularizados, sem jamais perder a sua ironia e a sua postura de outsider, provando ser não só um enorme mestre da literatura brasileira, mas um homem que se coloca ao lado da justiça, mesmo que para isso precisasse rejeitar as conveniências sociais de que poderia usufruir. Sua visão, cética, não demonstra uma derrota pela sociedade, mas um desapego pelas imposturas e recalques da vida mundana. Com o justo comentário de Miguel Reale, esse ensaio se conclui:

“De certa forma, Machado de Assis foi um ‘heideggeriano’ avant la lettre, sobretudo pelo desconsolado sentimento de que a cada ser humano toca viver uma vida que ele não escolheu, e cujo começo e fim lhe escapam.” (REALE, 1982)

Referências bibliográficas

ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. 1ª Ed. São Paulo: MEDIAfashion, 2016.
CHALHOUB, Sidney. Machado de Assis Historiador. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
COUTO, Elvis. Roberto Schwarz e a crítica social na literatura de Machado de Assis. Revista Florestan Fernandes, UFSCar, Ano 3, N. 5, 2016, p. 151-163. Disponível em <http://www.revistaflorestan.ufscar.br/index.php/Florestan/issue/view/8> (Acesso em 21/01/2017)
MARCÍLIO, Fernando. Memórias Póstumas de Brás Cubas <http://educacao.globo.com/literatura/assunto/resumos-de-livros/memorias-postumas-de-bras-cubas.html&gt; (Acesso em 21/01/2017)
MISKOLCI, Richard. Machado de Assis, o outsider estabelecido. Sociologias, Porto Alegre, ano 8, nº 15, jan/jun 2006, p. 352-377. Disponível em:< http://www.scielo.br/pdf/soc/n15/a13v8n15.pdf>. (Acesso em 21/01/2017)
REALE, Miguel. A filosofia na obra de Machado de Assis: Antologia Filosófica de Machado de Assis. São Paulo: Pioneira, 1982.

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