Infância, de Graciliano Ramos: memória e transculturação narrativa

Recuperar o passado vivido por meio da memória é uma atitude humana e está, de diversas maneiras, presente na literatura e nas diversas artes. Tendo em vista a capacidade de recordar as experiências passadas, a obra Infância, de Graciliano Ramos, adentra nesse universo memorialístico, sendo construída a partir de um narrador-adulto, o próprio Graciliano, que tenta atualizar, no presente da enunciação, por meio de suas lembranças, os fatos ocorridos na sua vida infantil, dando vida ao menino-personagem. Estruturada em 39 capítulos, a obra, cuja publicação data de 1945, em um tom autobiográfico, registra a infância do escritor, vivida no sertão nordestino, na passagem do século XIX para o século XX, até o início de sua puberdade, aos 11 anos de idade, quando conhece Laura, motivando o surgimento de sentimentos amorosos ou sexuais que caracterizariam o fim da infância.

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O texto de Infância, apesar de ser considerado autobiográfico, tem um tom marcadamente ficcional, dados os recursos estéticos e literários utilizados para sua composição.  Ademais, salienta-se que trabalhar com a memória é reconhecer a dificuldade em atualizar de modo fidedigno os fatos passados, uma vez que tais já não existem no presente da enunciação ou já foram esquecidos. É condição da memória o esquecimento, e é condição de ser plenamente humano assumir esse esquecimento, o que, de acordo com o filósofo Nietzsche, torna-nos “homens ativos” (Cf. NIETZSCHE, 1983). Sendo assim, torna-se fundamental assumir as lacunas das lembranças, o que nem sempre será fácil para aquele que deseja construir um relato meramente documental, pautado no referencial vivido. Tal relato persegue, de modo realista, os acontecimentos, dando-os caráter histórico e verídico. No entanto, Graciliano Ramos, no livro em questão, distancia-se de um escrito que se atenha apenas ao referencial, ao fato meramente documental e biográfico. O que se percebe, ao ler a obra, é uma atitude que busca entender o passado, recuperando-o à luz e à sombra das lembranças, que são lacunares, fragmentadas, vagas, repletas do esquecimento, tendo o escritor que recorrer à ficção para preencher os vazios do ato de lembrar. Recordar-se do vivido, em posição de distanciamento temporal e espacial, requer, para Graciliano narrador-adulto, a criação literária, capaz de reunir os pedaços fragmentados da memória e articulá-los, mesmo que de modo incongruente. Tal afirmação se comprova pela leitura deste trecho:

Acordei, reuni pedaços de pessoas e de coisas, pedaços de mim mesmo que boiavam no passado confuso, articulei tudo, criei o meu pequeno mundo incongruente. (RAMOS, 1993, p.17).

Percebe-se, portanto, a dificuldade suscitada pelo ato de se lembrar do passado e dar-lhe algum sentido. As memórias são confusas, são como neblinas, acinzentadas, e dissipam-se, esvaem-se, causam dor por vezes, deformam e alteram os fatos, que podem se tornar irreconhecíveis, como, novamente, afirma o narrador de Infância:

Os objetos se tornavam irreconhecíveis, e a humanidade, feita de indivíduos que me atormentavam e indivíduos que não me atormentavam, perdia os característicos. (RAMOS, 1993, p. 17).

É, assim, um ato marcadamente difícil e que se alia à ficção para dar sentido aos fatos, vistos como “impressões de realidade” ao serem reunidos de maneira verossímil na escrita literária.  Dessa forma, como bem afirma o professor e pesquisador Gustavo Silveira Ribeiro:

Ao contrário do que se costuma pensar, rememorar não é repetir com exatidão, num outro tempo, experiências anteriormente vividas. Conforme mostraram Freud, Bergson e diversos outros estudiosos da questão, a memória não resgata integralmente os fatos do passado; ela os reelabora e os deforma através de mecanismos inconscientes, terminando por selecioná-los, recombiná-los com outras experiências de tempos diversos e, principalmente, dar a eles significado diverso do que tiveram no momento em que foram percebidos. A inescapável mediação da linguagem e a distância temporal que se impõem entre aquele que lembra e os eventos lembrados confere a estes últimos, inevitavelmente, estatuto de invenção: mais do que recuperar o que foi lembrar é recriar o passado, elaborar dele uma imagem- atualizá-lo num presente como ficção.  (RIBEIRO, 2012, p.28)

 É nesse sentido, portanto, que Antonio Candido, ao analisar Infância, assume uma visão de mescla entre o autobiográfico referencial e o ficcional literário, entre a confissão de um passado vivido e a ficção, cunhando o termo “conficção”, resultado da união de elementos característicos do documental memorialístico e de elementos literários. Assim, ao discutir o caráter ficcional da obra, afirma Candido:

Talvez seja errado dizer que Vidas Secas é o último livro de ficção de Graciliano Ramos. Infância pode ser lido como tal, pois a sua fatura convém tanto à exposição da verdade quanto da vida imaginária; nele as pessoas parecem personagens e o escritor se aproxima delas por meio da interpretação literária, situando-as como criações. (CANDIDO, 2006, p.70)

Dessa maneira, Infância transita entre o mundo do passado referencial da vida do autor e a sua recuperação problemática por meio da memória, que se utiliza da imaginação para tentar reunir os fragmentos e as ruínas dos fatos vividos e experimentados, dando tonalidade ficcional às lembranças e à vida, de modo que, nas palavras de Antonio Candido, “A ficção, neste caso, explica a vida do autor, ao contrário do que se dá geralmente. ” (CANDIDO, 2006, p.71).

 A transculturação narrativa em Infância

A partir dessas considerações, entende-se como Graciliano Ramos, um escritor transculturador e “entre duas águas”, conceitos de Ángel Rama, ao usar determinados recursos literários e estéticos modernos e vanguardistas, soube construir sua ficção e transitar do regional ao universal, em um processo de “síntese inesperada” (conceito elaborado por Antonio Candido e por Ángel Rama). Há, em Infância, assim como nas demais obras de Graciliano, um destaque para a região nordestina, cenário onde se passa a maioria dos enredos. Trata-se, assim, de um local cujas raízes arcaicas denotam a força de uma cultura fechada em si mesma, endogâmica e sertaneja, que, segundo Ángel Rama, “tendo desenvolvido práticas autônomas e endogâmicas, tais regiões ficaram significativamente isoladas do processo de modernização ocidental” (RAMA, 1989, p. 95-96). No entanto, o escritor transculturador, vindo de uma cultura arcaica, sabe, a partir das técnicas vanguardistas, mesclar a essa cultura valores, saberes, costumes e pensamentos de uma cultura universal, criando, em um movimento de tensão, algo totalmente novo. Esses escritores transculturadores, como Graciliano Ramos, são, para Rama, “depositários de um legado cultural, um e outro teriam a tarefa de instituir a inter-relação da tradição regional (arcaica) com a cultura nacional ou transnacional (modernizada) ” (RAMA, 1989, p. 99-100), e, para Candido, “transformaram a cultura latino-americana numa fecunda mediação entre a dimensão nacional e a dimensão universal, em lugar da posição retórica e sentimental do passado. ” (CANDIDO, 1993, p. 144).

INFÂNCIADiante dessa perspectiva, cabe ressaltar que, ao escrever Infância, Graciliano Ramos utiliza de modo considerável da estética expressionista, dialogando dessa maneira com tal vanguarda europeia. Ao tentar captar o olhar do menino-personagem diante do mundo à sua volta, o narrador deixa entrever a dificuldade que a criança tem em reconhecer e em assimilar as imagens a seu redor, formando figuras distorcidas, movediças e incongruentes. Nota-se, assim, a presença de técnicas ficcionais expressionistas de deformação da realidade, abandonando a objetividade referencial, e de uma entrada do universo onírico. Nesse sentido, de acordo com João Luiz Lafetá, “no livro (Infância) há impressionante ampliação do pormenor(…); já se falou, a propósito, de ‘expressionismo’, muito visível nas páginas de Angústia” (LAFETÁ, 2004, p.285). Ademais, segundo R. S. Furness, autor do livro Expressionismo, são características dessa estética literária “ a crescente independência da imagem, a metáfora absoluta, a intensa subjetividade do escritor e a investigação de estados psicológicos extremos” (FURNESS, 1990, p.12). Destaca-se, em Infância, os “estados psicológicos extremos”, revelando a infância dolorosa, negativa, traumática e perturbada do menino-personagem. A título de exemplo, destaca-se a cena do capítulo “Um cinturão”, em que a criança, inconsciente do que acontecia, leva uma surra do pai, e, em um estado terrível, confunde castigos físicos a imaginários: “Aperto na garganta, a casa a girar, o meu corpo a cair lento, voando, abelhas de todos os cortiços enchendo-me os ouvidos- e, nesse zunzum, a pergunta medonha” (RAMOS, 2003, p.36). Dessa forma, delineiam-se a perda de noção da realidade, a ampliação da sensação, potencializando a dor e a deformação expressionista.

Ademais, na tentativa de recuperar o passado, o narrador-adulto mistura-se ao menino- personagem, ocasionando uma indeterminação das vozes narrativas, apelando para o uso do discurso indireto livre e para o jogo de pontos de vista – recursos modernos em literatura, o que comprova, mais uma vez, o caráter transculturador de Graciliano Ramos. Todos esses aspectos contribuem para a complexidade narrativa da obra, cuja maior expressão se dá no imbricamento de tempos e de olhares.

Nesse sentido, o narrador-adulto faz uso de recursos para se aproximar do menino-personagem e para tentar traduzir as impressões do olhar da criança sobre o mundo, tentando recriar esse olhar, que é irrecuperável na sua integridade. Assim, ele precisa inventar esse olhar a partir das técnicas de ficção e, de acordo com Eliane Zagury, por meio de uma “treinadíssima plasticidade ficcional em assumir a pele de suas personagens” (ZAGURY, 1982, p.123). Dessa forma, uma das técnicas é se utilizar da lógica discursiva metonímica, uma vez que a incompreensibilidade do mundo perante os olhos do menino faz com que a realidade seja captada de modo fragmentado, em pedaços, assim como a memória, de um modo a realçar a força das metonímias. No trecho seguinte, destacado da obra, percebe-se como o olhar infantil é demasiadamente metonímico:

As sombras me envolveram, quase impenetráveis, cortadas por vagos clarões: os brincos e a cara morena de sinhá Leopoldina, o gibão de Amaro vaqueiro, os dentes alvos de José Baia, um vulto de menina bonita, minha irmã natural. (RAMOS, 2003, p.14)

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Além desse olhar metonímico, encontra-se também como um recurso literário moderno é o de “singularização do olhar”, termo desenvolvido pelo teórico do formalismo russo Victor Chklovski a partir da obra de Liev Tolstói – um escritor muito admirado por Graciliano, que o considerava “não apenas o maior dos russos: o maior da humanidade” (RAMOS, 1992, p.115). A “singularização do olhar” é, de acordo com Chklovski, é o modo de “descrever o objeto como se o visse pela primeira vez” (CHKLOVSKI, 1973, p.46), dando a esse objeto um aspecto novo, original e único. Em Infância, pode-se exemplificar tal recurso quando o menino-personagem, diante de um enorme açude, assim se refere: “aquele enorme vaso metido no chão” (RAMOS, 2003, p.15), emprestando ao açude a característica de um vaso, porém muito grande.

Conclusão

Por fim, a partir do levantamento dos recursos modernos e vanguardistas utilizados por Graciliano Ramos na elaboração literária de sua obra, percebe-se a força da transculturação narrativa, postulada por Ángel Rama, promovedora do contato e da tensão entre elementos de uma cultura arcaica, representada pelo sertão nordestino, e elementos de uma cultura transnacional, de caráter universalizante e moderno. Tais elementos, em “síntese inesperada”, se dialogam, criando um espaço intercultural rico, diverso e novo, um locus de enunciação fundado na “mirada estrábica” e situado “entre duas águas” de uma “terceira margem”. Ademais, observou-se o trabalho com a recuperação da memória, que transcende o referencial documental e autobiográfico, assumindo as lacunas, as ruínas e os fragmentos do lembrado, a partir da ficção e da imaginação, formas salutares de articular os pedaços desorganizados da rememoração e de preencher os vazios das recordações.

Referências:

CANDIDO, Antonio. “O olhar crítico de Ángel Rama”. Recortes. São Paulo: Cia das Letras, 1993.
CANDIDO, Antonio. Ficção e confissão: ensaios sobre Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2006.
CHKLOVSKI, Victor. A arte como procedimento. Trad. Regina Zilberman. In: Teoria da Literatura: formalistas russos. Porto Alegre: Ed. Globo. 1976, p. 39-56.
FURNESS, R. S. Expressionismo. Trad. Geraldo Gerson de Souza. São Paulo: Perspectiva, 1990.
LAFETÁ, João Luiz. Três teorias do romance: alcance, limitação e complementaridade. In: A dimensão da noite. São Paulo: Ed. 34, 2004, p. 284-296.
NIETZSCHE, Friedrich. Obras incompletas. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Abril Cultural, 1983 (col. Os pensadores)
RAMA, Ángel. Transculturación narrativa en América Latina. Montevideo: Arca Editorial, 1989.
RAMOS, Graciliano. Infância. São Paulo: Record, 2003.
RIBEIRO, Gustavo Silveira. Abertura entre as nuvens: uma interpretação de Infância, de Graciliano Ramos. São Paulo: Annablume, 2012.
ZAGURY, Eliane. A escrita do eu. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.

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