Estranhos familiares: identidade, família e existência no romance de Isadora Urbano

Crítica: Outros, Estranhos, de Isadora Urbano*

Tudo se passa em Belo Horizonte, entre três personagens principais, além de seus filhos, pais, e parceiros. Quem conhece a cidade vai reconhecer os nomes das ruas e bairros onde Larissa, Íris e Elis moram, trabalham e se movem. O novo livro de Isadora Urbano, Outros, Estranhos, segue um momento nas vidas dessas mulheres — alguns dias? — em que elas se cruzam em suas trajetórias distintas. Larissa e Íris passam pelo escritório da psicóloga Elis. Larissa é vizinha da família de Íris, que mudou para o centro mas passa alguns destes dias na casa dos pais. E cada uma confronta também seu passado, infância, trauma e origem, numa procura que vai bem além das situações que se desenvolvem, motivando a história.

Estas mulheres, então, se conhecem: nesse sentido não são estranhas. O título reflete uma outra estranheza, mais intransponível: essa assombrosa distância que separa o ser próprio de um outro ser independente. Ao centro do livro estão a psique e as memórias de cada personagem, mostrando um pouco do inacessível e único que fazem dos outros estranhos. A psicóloga procura atravessar essa distância com cada uma de suas pacientes, e com a própria filha: todas estranhas. Mas me parece mesmo que os outros são estranhos para a própria autora: que passa pelas personagens observando o que as move, sem nunca bem atingir uma identificação subjetiva com elas.

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O livro abre na primeira pessoa, que depois da segunda página já é abandonada por uma proximidade psicológica, mas terceira. Larissa, no consultório da psicóloga, reflete em expressões literárias a estranheza e a impotência dos quarenta minutos de consulta. Ela se complica com um novo relacionamento romântico enquanto cria um filho de cinco anos e ainda lida com o seu pai, coronel aposentado, cujo conservadorismo atual é portal para memórias da infância da mulher. Íris Leva é uma jovem estudante de Belas Artes, pintora, belorizontina de pais gregos que busca a um só tempo pertencimento, e um querido e velho cachorro que desapareceu da casa dos pais. Elis enfrenta o desafio de se comunicar com a filha de nove anos, fechada, pré-adolescente e melancólica — um desafio por trás do qual ainda dói uma tragédia recente. Três mulheres de idades, profissões, personalidades diferentes. Não há diversidade de classe — estão todas na classe média-alta de Beagá. Para todas, os desafios concretos cotidianos se tornam substitutos, ou materializações, para angústias de identidade e auto-afirmação. Na genial e humorada descrição da casa onde Larissa cresceu se lê toda o sufoco emocional de sua juventude:

“A casa era inteira montada aos moldes paternos. Fotos de cerimônias do Exército se mesclavam às de viagens. (…) Além do mais, um acervo sem fim de facas de todo ornamento decorava as paredes, vaquinhas mil espreitavam os panos de prato e ímãs da cozinha e na sala de estar prateleiras com exemplares da Enciclopédia sofriam próximas à lareira tão imprópria ao clima tropical”.

Se a busca de Íris pelo cão começa a parecer longa demais, ocupando em desmedida o coração da moça, é aí também que — dentro do contexto do livro — essa busca aparece como algo mais. Num intenso sonho que Íris relata à psicóloga, a busca se transforma em uma busca por não-se-sabe-o-quê, que nem os pais, nem um cão com o nariz pingando sangue podem lhe entregar.

eBook Outros, Estranhos

Outros, Estranhos se lê fácil, pulando entre uma história e outra, assistindo quando elas se encontram no tempo, e depois vendo-as se afastarem para distintos momentos cronológicos. A temporalidade não chega a confundir, como uma história de William Faulkner; ao contrário, Urbano sabe escrever com tom de conversa e frases contidas. Mas a autora soube criar suspense e interligar as histórias das personagens sem artificialidade. Essa estrutura aproveita bem cada parte da história, pois a leitura alternada leva o leitor a criar associações entre a psique destas mulheres bastante diferentes. Vez ou outra, apenas, a troca de tempos escorrega. O encontro do cão, quando Larissa chega com o filho Guilherme à porta do hospital, é engolido pela busca de Íris que continua, pois todos as suas próximas vinhetas estão no passado daquele encontro no hospital. Quando o leitor acompanha a busca de um personagem, sabendo a que fim chega, o suspense está quebrado e diminui a disposição para sentir sua angústia.

Dentre esses belorizontinos mais ou menos comuns, em sua terceira pessoa quase isenta, descritiva, a voz narradora encontra raros ensaísmos: “Porque sim, sendo humano, os desafios são incontáveis. A vida entra vez após vez em espirais de melancolia – que nem sempre, ou raras vezes, se anunciam – e leva a cabo o projeto divino, universal, de fazer dessa instância da existência um tremor à flor da pele, com momentos de muita beleza”. Mas à diferença de muitos dos grandes nomes do ensaísmo literário, aqui o caráter de ensaio é reservado, ora a certos pensamento dos personagens, ora à rara expansão da voz narrativa. Para mérito de Isadora Urbano, os personagens não se tornam veículos da filosofia da autora e por isso mesmo são mais reais em sua banalidade. Quem sabe o próximo livro leve ainda mais dessas reflexões, ou o contrário — e incorpore sua profundeza toda dentro dos personagens.

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 A narrativa inclui, sem dificuldades, menções a Sartre, Beckett, Giacometti e Miró, o Manifesto Antropofágico, além de — preciosamente — grandes letras da música popular brasileira. O texto não fica em nenhum momento obscuro, e as referências dão-lhe apenas um intelectualismo brando. Por outro lado, é pontuado de expressões coloquiais, algumas um tanto mineiras. Estas são um deleite de valorização linguística e sutil humor: “O jeito é pular do pé de couve”. Junto à elevação intelectual das referências tem-se um belo contraste. Qualidade que tinham Jorge Amado ou Guimarães Rosa, de suas diferentes formas, de adentrar a discussão social e filosófica e ao mesmo tempo habitar as ruas e campos, viver a vida da gente. Há portanto em Outros, Estranhos um germe importante para a escrita contemporânea. Com sorte virá a jovem autora a oferecer-nos as flores.

Isadora Urbano toca em questões grandes, tanto humanas quanto históricas e determinadas. Uma personagem está magoada com a indecisão do novo romance, que não consegue escolher entre a esposa e a amante. A fraqueza dele é um certo conformismo por sobre um nocivo privilégio machista. Quando a situação se inverte e o homem se encontra em estado grave, ela reage com certa crueldade que põe o leitor num impasse. Fica claro que os dois disseram o que não deviam. Mas ninguém age sempre da maneira com uma outra pessoa enxergaria como justa e moral: nessa situação, fica impossível escolher heróis. Me parece que assim seria também na “vida real”, se nos fosse dada a oportunidade de acompanhar impassíveis como aos anjos berlinenses de Asas do Desejo.

Mafalda

O dilema moral, essa universal da literatura desde os mais antigos escritos, é interligado sem sinal de esforço com problemas muito contemporâneos. Outros, Estranhos é um livro do século XXI, e tem grande mérito nisso. Fala de smartphones, crianças e adultos pregados no celular, mas nada do clichê da “era tecnológica” e sim para mostrar sua integração numa estrutura psicológica que os antecede. O celular vira máscara, vira divergência, jeito de evitar a conversa com a mãe no carro e, provavelmente, também a própria inquietude que vira tristeza e raiva de tudo. E o livro consegue falar do seu tempo: do Brasil de agora, da corrida presidencial, como tempo histórico ligado a problemas históricos, crônicos do país. O personagem coronel, que sempre desculpou a ditadura, agora é seu apologista e eleitor de Jair Bolsonaro. E aqui emerge uma tese histórica dessa narrativa tão concreta: a atual apologia à ditadura é um problema de memória histórica, que falta no país. Assim pensa Larissa, e assim sugere também o livro, acrescido de problemas de classe que também fazem parte da mudança de conjuntura no país. O caminho do país emerge como parte de um fenômeno global, um grande passo a direita no mundo ocidental. Isso tudo na moldura da conversa frustrada com a família, das distâncias ideológicas e generacionais, que são dados de nosso tempo que atravessam a cultura ocidental contemporânea, e que o leitor vai reconhecer.

DRUMMOND

Dos universais mais sensíveis discutidos pela autora é aquela dor de compaixão pura, aquela coisa das crianças. A melancolia que está como um véu suspenso mesmo sobre elas. Essa tristeza drummondiana, como a define a voz narrativa. De todas as referências literárias feitas pelo livro, esta é talvez a mais cara e mais insubstituível, por apontar algo inefável e inconfundível ao leitor do poeta mineiro. A delicadeza do pequeno Guilherme, apiedado dos animais, está ameaçada pelo crescimento e pelas normais sociais. Mas a jovem Íris mostra um afeto e uma angústia tão grandes pelos cães mal-fadados que sugerem a possibilidade do contrário: que um pouco daquele afeto desencapado, aquela vulnerabilidade do coração ao outro possam continuar como um fio por dentro da alma muscular — ao menos até essa idade dos vinte e poucos… Esta é umas das intuições mais agudas do livro:

“Coisa normal de criança, mas era de partir o coração. (…) Doçura de fazer medo na mãe, no avô e em quem o visse chorando pelo au au dodói na calçada. Talvez alguém pergunte: ‘medo? não seria ?’ Não, não seria. Quem o via daquele jeito, por mais que se condoesse do seu sofrimento, sofria mais que tudo um imediato medo de também sentir aquela dor.

Era melhor fechar os olhos, e dizer que o mundo é complexo, não cruel.”

E se a tristeza séria de Lana confunde e aborrece a mãe, que sabe que é em parte “uma fase”, há nela algo da tristeza irremediável que a existência merece, e sabemos. Tal verdade evitamos talvez como modo mesmo de continuar vivendo.

O livro de Isadora Urbano é uma história curta de histórias curtas, mas pontuada de tais profundezas. A escrita da autora é amável, fácil de chegar perto, mas guarda ali um conhecimento quase cínico dos cenários que descreve. Os estranhos. No centro do enredo está a auto-procura psicológica, onde vemos as tramas de passados familiares, arcabouços de ilusões e sentimentos herdados. De dentro, a narrativa ensaia argumentos e analisa a história e o presente da classe média-alta brasileira. Entre as ruas e apartamentos de BH ondeia essa tristeza drummondiana que é da vida.

Por Marina Resende Santos

*2018, publicação independente >>> https://amzn.to/2NKDjRr

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