O entre-lugar do refugiado em Bazar Paraná, romance de Luis Sérgio Krausz

bazarBazar Paraná, de Luis S. Krausz, narra as impressões do autor ao visitar a colônia agrícola de Rolândia, no norte do Paraná, lar de judeus refugiados da Alemanha nazista. A visita ocorre na década de 70, ainda sob o governo militar, o qual também é alvo das reflexões de Krausz, as quais, em muitos casos, são ilustradas por meio de metáforas e comparações que quebram com o ritmo da escrita e trazem uma experiência mais imagética ao leitor. Tais comparações são, portanto, um recurso utilizado com o propósito de ilustrar as temáticas abordadas no livro, mesmo que estas não sejam agradáveis, uma vez que tratam de sentimentos reservados a seres humanos que vivenciaram os horrores do nazismo. O autor entende que as palavras e seus significados são, de certa forma, superficiais e insuficientes para exprimir as mágoas dos refugiados, uma vez que são, de acordo com Agamben, da ordem do indizível. Dessa forma, metáforas e comparações não somente ornamentam a escrita como demonstram uma tentativa de aproximar o leitor dos acontecimentos narrados.

O dia a dia dos refugiados que passam a viver no Brasil, juntamente à situação política do país àquela época e a reconstrução da própria memória do autor permitem a Krausz um campo fértil de possibilidades na escrita, tanto em relação às temáticas quanto ao processo. Há, então, envolto às várias questões, o ponto nevrálgico da obra – o limbo existencial no qual se encontra o refugiado, uma vez que fora expulso de uma nação que parece ser, para eles, o único lugar em que a felicidade completa é possível, ao passo em que esta mesma nação talvez nunca tenha de fato existido aos moldes retratados por estes expatriados. O grande trauma do livro está, então, na insistência em acreditar na Alemanha como um país modelo, “sinônimo de todas as maravilhas do mundo moderno, de todas as benesses da cultura e do progresso:  a terra que representava a realização dos sonhos acalentados por gerações”, uma vez que tal representação colide com os horrores da segunda guerra, praticados contra estes, que ainda insistem em acreditar nesta nação utópica, construída pela colagem – infiel e enviesada – de ruínas de memórias, alteradas pelo ardor da saudade, aliado ao sentimento de não pertencimento em relação a um país que os acolheu.

O sentimento de limbo em que o judeu é inserido não ocorre, de fato, somente após o refúgio. O próprio isolamento – físico, econômico e social – sofrido pelos praticantes da fé semita, por meio da criação dos bairros judaicos que vieram a se tornar guetos, fez com que esse povo se visse em situação de exílio no próprio país de origem. É certo que ao discutirmos as perseguições anti-semitas e as razões por trás desta ideologia, entramos no campo da geopolítica, em que os significados de nação, país, pátria e religião nos ajudam a entender o constante trânsito deste povo. Porém, não nos cabe, por enquanto, compreender e explicar tais conflitos, nos atemos, portanto, ao sentimento representado na obra – como o judeu, mesmo nascido  na Alemanha, encontra-se nu de direitos e passa a viver em situação de isolamento, de entre-lugar, o que é apenas o início das provações ocasionadas “primeiro pela guerra, depois pela exclusão e, finalmente, pelo exílio”. Este constante entre-lugar do refugiado é retratado, no livro, de diferentes maneiras, especialmente por meio de metáforas. Tem-se, por exemplo, a utilização da literatura como lugar de refúgio para aquele que já se encontra refugiado. O personagem Dr. Marx Hermann Maier é, além de morador de Rolândia e judeu expatriado, escritor de um livro premiado, no qual relata suas memórias à época da perseguição nazista. A sua obra é, portanto, o único lugar em que se torna possível aliar os traumas passados à situação presente sem que haja um abismo entre as duas – as palavras, frases, capítulos, preenchem este vazio, na tentativa de diminuir a distância entre as possibilidades passadas e as impossibilidades presentes. Dentre tantas possibilidades negadas, até mesmo o simples papel3, no qual as memórias são escritas, se transforma em revolta. O não acesso a papéis de qualidade germânica leva o autor a uma profusão de pensamentos a respeito de como vida do refugiado judeu seria diferente caso não tivesse ocorrido a perseguição e o refúgio. Assim, as pequenas impossibilidades diárias – não ter acesso a produtos de qualidade europeia –  transformam-se em loopings que retroalimentam o trauma, ainda não vencido, de ter sido rebaixado à escória da humanidade, de tudo o que poderia ter sido e não foi, mesmo tendo seguido os ideais germânicos de estudo, trabalho e parcimônia que deveriam tê-lo levado a um futuro de glórias e realizações.

aschwitzA escrita de Dr. Marx Herman Maier é equiparada à filatelia do Dr. Fritz Hinrichsen, visto que ambas práticas são responsáveis por criar um abrigo, onde o não-lugar e o não-pertencimento são substituídos por hábitos e objetos. Assim, por meio desta transferência, Dr. Frtiz Hinrichsen cria, a partir da sua coleção de selos, uma pátria metafísica, a qual compõe-se de “pedaços mínimos de mundos desaparecidos e aqueles escombros de lugares que não existiam mais”. Tais pedaços, mesmo que arruinados, compõem a última tentativa de se apegar aos escombros do próprio passado, ao qual é impossível retornar. Ademais, o retorno, em muitos casos, geraria maior desconforto ao traumatizado, uma vez que as memórias da sua terra natal podem não coincidir com a atualidade devido à passagem do tempo e, no caso do judeus, à ruína da guerra.

As memórias são, portanto, peça fundamental da obra de Krausz, não somente porque compõem o grande trauma do livro, mas posto que a obra pode ser vista, de alguma maneira, como a compilação das memórias do autor. As recordações de Krausz, apesar de narrarem uma viagem feita por ele, acompanhado da avó e da irmã, são compostas, de certa forma, do que ele não vivenciou, ou seja, são reminiscências absorvidas através do convívio com os refugiados – seus familiares. A obra assimila, então, o conceito de pós-memória familiar desenvolvido por Marianne Hirsch. A pós-memória permite, portanto, que aquele que não vivenciou os acontecimentos narrados por familiares, pela mídia, por livros ou pela sociedade em geral,  absorva tais relatos. Considerando a existência de duas assimilações da chamada postmemory – familiar e afiliativa -, aquela, na maioria dos casos, produz maior impacto, visto que assimila os sentimentos referentes ao círculo familiar, e, principalmente, traz o sentido de pertencimento. Essa geração, mesmo que não tenha passado pelos traumas, absorve as memórias do círculo doméstico e se encontram, conjuntamente, em um entre-lugar, mesmo que não tenham sido expatriados de sua terra natal.

Esse limbo é herdado por gerações posteriores  uma vez que valores são transmitidos por meio do convívio familiar. Assim, a situação dos expatriados envolve a melancolia  de não estarem inseridos na nação de origem, e, como consequência, o saudosismo em relação à terra que os expulsara, fazendo com que seus filhos e netos absorvam a idealização da superioridade germânica, “e nos levava a acreditar que a felicidade verdadeira estaria, necessariamente, além das fronteiras que se fechavam cada vez mais”. Considerando que Krausz escreve em primeira pessoa, a utilização do termo “nos” é uma prova de que tal sentimento não era exclusivo dos refugiados, mas também assimilado por seus familiares, visto que o autor não fora vítima direta dos horrores do nazismo na Alemanha.

O último ponto importante a ser analisado acerca do não-lugar do refugiado relaciona-se ao uso demasiado  de expressões em alemão na obra. Sabe-se que a língua é, em muitas situações, infiel, ou até mesmo, insuficiente para expressar certas angústias, assim como já discutido anteriormente. Entretanto, diferentes línguas trazem diferentes formas de expressar conceitos – a título de exemplo, tem-se a palavra saudade, da língua portuguesa, cujo significado  “sentimento melancólico devido ao afastamento de uma pessoa”, não se aplica à língua inglesa, uma vez que expressamos este sentimento por meio do verbo miss, cuja tradução mais apropriada seria “sentir falta”. Ou seja, houve perda de sentido ao transferir um termo de uma determinada língua à outra, o que também pode ocorrer no caso do alemão para o português. Dessa maneira, o autor se atém ao uso da língua dos avós ao elencar certos temas que são mais pertinentes na cultura alemã. A escolha pelo uso do alemão é, portanto, uma maneira de manter viva a memória da família de forma inalterada.

Considerando todos os pontos analisados, conclui-se que a utilização de diferentes abordagens acerca da temática existencial do refugiado faz com que entendamos, de forma clara, as dificuldades enfrentadas pelos expatriados, não somente pela dor de deixar a terra natal, mas também pela necessidade de adaptação, a qual, em muitos casos, não ocorre. A obra de krausz, apesar de tratar dos refugiados judeus da metade do século 20, traz temáticas relevantes, especialmente, se relacionarmos à atual crise dos refugiado de países em guerra. É interessante, portanto, salientar o quão importante é o papel da literatura nestes processos, visto que ela é um dos meios pelos quais tomamos conhecimento da dor daqueles que são arrancados de seus lares.

 

 

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