O fio seco da teia que norteia: uma leitura de Ramos, Cabral e Salles

Os caminhos da seca

Botoso (2013) cria uma bela imagem da obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos. O pesquisador afirma que “a história de Fabiano pode ser comparada a uma teia de aranha, na qual ele e sua família estão sempre no centro, enredados, sem saída, presos como vítimas de uma aranha implacável” (p.50) que se reveste de diferentes figuras para impingir autoridade, tais como o soldado amarelo e o patrão. Todavia, ao analisarmos mais profundamente, a verdadeira autoridade da obra aparenta ser a Seca, que domina não apenas o cenário, mas, sobretudo, a vida das personagens, não se restringindo ao núcleo familiar principal – Fabiano, Sinhá Vitória e seus dois filhos – mas também das próprias figuras autoritárias, como as citadas acima e mesmo seu Tomás da Bolandeira, personagem que é constantemente mencionado como uma espécie de figura modelo para Fabiano. 

Conquanto Botoso crie a imagem da teia para o romance de Graciliano, no presente trabalho, estenderemos tal metáfora para mais duas obras brasileiras: Morte e vida severina (2010), de João Cabral de Melo Neto e Abril despedaçado (2001), de Walter Salles. É possível observar o mesmo entrelaçamento das personagens de João Cabral e Salles no íntimo da teia de aranha. Não obstante, cada obra apresente sua própria urdidura, desejamos aqui unir estas três tramas, em um ninho de aracnídeos nas quais cada qual possui um núcleo, mas se mostram unidas por temas, percursos e personagens. Sem embargo, no topo deste ninho, a governar esse emaranhado de fios e de vidas, a Aranha Rainha: a Seca, observando seus fiéis súditos, controlando o destino de cada um, e guiando para uma vida de restrições, aprisionamento e tensão constantes. 

Graciliano Ramos - Vidas Secas

O fio seco que guia as vidas secas

Encetaremos a comparação com a obra de Graciliano Ramos, Vidas Secas, a qual tomaremos como ponto de partida para a análise e da qual puxaremos os fios que ligam as três teias que levam não somente à Seca, mas também à similitude de personagens e até mesmo de temáticas; buscaremos, com tal recorte, observar a forma como nossa Aranha afeta a vida e percurso das personagens do trio de obras.  

É importante levarmos em consideração alguns aspectos da obra de Ramos no que diz respeito ao seu contexto de produção. A literatura brasileira da década de 30 caminha em direção a um realismo que se mostra diferente do Realismo no qual se insere Machado de Assis. Enquanto este buscava expor a realidade e exibi-la em todas as suas cores, Graciliano, com Vidas Secas, buscou exibir o vermelho da terra, do Sol, a rude realidade díspar que compõe a sociedade brasileira. A oração que abre a obra já apresenta a protagonista central: “Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes”. (RAMOS, p. 2). Esta parca descrição demonstra a extensão da paisagem governada pelo brilho de um sol inclemente, que não se mostra dourado, mas sim laranja, abrasador, que torna a paisagem tórrida, inóspita e (como a Seca) ímpia. O casamento perfeito entre Sol e Terra que dá à luz a manifestação mais brutal da natureza que seca não apenas a vida da própria Natureza, mas a vida humana que tenta tirar sustento do estéril. A própria linguagem adotada pelo autor demonstra a aridez da paisagem que retrata. Sabe-se que a literatura da década de 30 se volta à linguagem oral que já havia sido empregada no Modernismo. Sabe-se também que Ramos “só dizia o essencial e, quanto ao resto, preferia o silêncio” (CANDIDO, p. 144). O silêncio caro ao autor, nesta simples sentença de abertura, mostra toda a sua força. Existiriam milhões de formas de se descrever a paisagem assolada pelo sol. Milhares de vocábulos passíveis de serem adotados para descrever a planície alaranjada. Entretanto, a não escolha do autor, o “enxugamento” de expressões permite ao leitor a sensação do próprio calor que emana desse solo estorricado e do céu sem fim, no qual apenas dois juazeiros  não um pequeno aglomerado, ou alguns esparsos verdes, mas sim dois juazeiros – são a única cor além do vermelho que domina a paisagem.  

Tal proêmio não apenas dá o tom do romance, mas também, como afirma Lúcia Miguel Pereira, cria o conceito de “quadros” presentes na obra. Assim, o romance de Ramos opõe-se às obras produzidas neste período negando o caráter fotográfico e documentário do Realismo de 30 (CANDIDO, ANO, p.145). Não obstante, ainda sim “é um exemplo claro da obra de ficção de 30, pois mostra personagens que vivem num ambiente degradado, marginalizadas, famintas e sofredoras, e sendo exploradas, impiedosamente, por aqueles que detêm o poder econômico” (BOTOSO, 2013, p.51) 

Embora, como visto acima, a obra apresente a realidade do Nordeste brasileiro e o núcleo de suas personagens se mostre relegado às margens da sociedade, é importante perceber a influência do clima na obra como um todo. Segundo Pereira (apud CANDIDO, p.147), “Vidas secas não deve ser julgado como ‘romance Nordestino’ ou ‘romance proletário’, expressões que não têm sentido, mas como um romance onde palpita a vida – a vida que é a mesma em todas as classes e todos os climas” (grifo próprio). Apesar de tal citação aparentar um deslocamento – pois aparenta oposição em relação à citação anterior -, o que desejamos chamar a atenção em tal passagem é a ideia em destaque. Com tal grifo é possível perceber que a severidade da seca não ataca apenas Fabiano e sua família, mas desenha um percurso que ataca a sociedade como um todo. (Deste modo, poderíamos dizer que a obra de Graciliano é um romance de 30 que se prolonga, não se restringindo a este período literário). 

O primeiro núcleo de personagens que desejamos analisar pela lupa da Seca é, claramente, o núcleo principal: Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais velho e o menino mais novo. O primeiro capítulo traz no próprio título, “Mudança”, a interferência do clima na vida da família. É ele quem propele a mudança. É a necessidade de sobreviver de buscar qualquer espécie de sustento de alguma parte da terra ressequida o que os leva a seguir adiante. O sonho-desperto que Fabiano tem de Sinhá Vitória demonstra claramente o desejo que mora no íntimo da personagem: “Eram todos felizes. Sinhá Vitória vestiria uma saia larga de ramagens. A cara murcha de Sinhá Vitória remoçaria, as nádegas bambas de Sinhá Vitória engrossariam, a roupa encarnada de Sinhá Vitória provocaria a inveja das outras caboclas” (RAMOS, p. 6). Com esta escassa passagem que apresenta linguagem talvez mais escassa ainda, o leitor se depara com o quadro oposto. Enxerga Fabiano e sua família descarnados, arrastando os ossos por um sertão infinito, com a pele da mesma cor da paisagem, misturando-se ao ocre que parece dominar o mundo todo. Ao mesmo tempo, tal fantasia indica o motivo da mudança, como demonstrado anteriormente.  

Não são apenas os retirantes que são compelidos à nova vida, contudo. Como pretendemos demonstrar, a Aranha Rainha aprisiona a todos em sua rede implacável, até mesmo, aqueles que não são marginalizados pela sociedade. Seu Tomás da Bolandeira, personagem que é apenas mencionado por Fabiano, mas que, podemos dizer, possui importante papel na obra, também foge do clima que cai sobre sua propriedade. O leitor em momento algum se depara com esta personagem, mas através dos relatos de Fabiano desenha seu perfil. Entrevê-se pelas menções a ele feitas que era proprietário de terra e que tem a vida arruinada pela Seca:  

Lembrou-se de seu Tomás da bolandeira. Dos homens do sertão o mais arrasado era seu Tomás da bolandeira. Por quê? Só porque lia demais. Ele, Fabiano, muitas vezes dissera: – ‘seu Tomás, vossemecê não regula. Para que tanto papel? Quando a desgraça chegar, seu Tomás se estrepa, igualzinho aos outros’. Pois viera a seca, o pobre do velho, tão bom e tão lido, perdera tudo, andava por aí mole. Talvez já tivesse dado couro às varas, que pessoa como ele não podia aguentar verão puxado (RAMOS, p.9) 

É possível perceber na passagem acima também o conceito de dureza na própria constituição de Fabiano. O clima não resseca apenas o chão, a água que brota e a carne do gado, mas também a própria vida da personagem que aprende, desde muito cedo – parece – a conviver com o rigor e dureza da estação. Seu Tomás não consegue lidar com o “verão puxado”, ele fica mole e, até mesmo, desesperado com a situação. Fabiano, por outro lado, continua seguindo, sempre em frente, sempre na busca da realização da fantasia de felicidade simples, descomplicada: saber que sua família está alimentada, o que contempla através do corpo rechonchudo, preenchido, saudável. 

Outra personagem atingida diretamente pela secura do verão é o patrão. Outra personagem que aparece para confirmar a afirmação de Pereira vista acima: a seca atinge a todos, é um fator universal (“a vida é a mesma em todas as classes”). No mesmo capítulo I “Mudança”, o leitor aprende que Fabiano e sua família chegaram a uma fazenda que se encontrava abandonada: “Estavam no pátio de uma fazenda sem vida. O curral deserto, o chiqueiro das cabras arruinado e também deserto, a casa do vaqueiro fechada, tudo anunciava abandono. Certamente o gado se finara e os moradores tinham fugido” (RAMOS, p.4, grifo próprio). As palavras em destaque sugerem a mesma situação de seu Tomás da bolandeira. Os proprietários da fazenda são, também, forçados a abandoná-la, pois esta já não gerava lucro, seja este financeiro ou mesmo o lucro da “comida na mesa”.  

À vista do que foi apresentado, percebemos que a opressão sofrida por Fabiano é, ela mesma, uma teia de aranha. Botoso (2013), afirma que as injustiças contra Fabiano são diversas. Apresentam-se como: o dono da fazenda que pretende expulsar Fabiano e sua família da terra em que haviam se instalado. Contudo, como boa alma, permite que permaneçam com a condição de que os explore até a última gota de suor; o Soldado Amarelo é outra personagem que ataca Fabiano ao prendê-lo injustamente, apenas para mostrar sua condição de superioridade. Estes são, contudo, poucos; a personagem também é roubada por vendedores e pelo próprio patrão e constantemente ludibriado. Com a leitura da obra é possível perceber que Fabiano não se permite ludibriar apenas por uma questão de ignorância, mas sim, e talvez principalmente, por se acreditar inferior, por enxergar sua condição de marginalizado, como se entrevê pela seguinte passagem na qual as “operações de Sinhá Vitória (…) diferiam das do patrão”. Ao reclamar, recebe a resposta de que a diferença nos valores se deve aos juros. Não se conformando, Fabiano acaba por discutir, o final da discussão demonstra a subserviência da personagem à sua condição subalterna: 

Não se conformou: devia haver um engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel branco. Não se descobriu um erro no papel branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria! 

O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda. 

Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não. Se havia dito palavra à-toa, pedia desculpa. Era bruto, não fora ensinado. Atrevimento não tinha, conhecia o seu lugar. Um cabra. Ia lá puxar questão com gente rica? Bruto, sim, mas sabia respeitar os homens (p.43, grifo próprio)

Vê-se, pelo grifo, que a personagem tem consciência da injustiça que sofre. Contudo, ao confrontar seu “superior” abaixa a cabeça, pois se vê diminuído, “bruto”, ignorante, sem poder perante aqueles que retêm o capital. Como Fabiano mesmo afirma: “ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar as coisas dos outros” (RAMOS, p. 7). Ser homem parece se referir àquele que provém, que tem debaixo dos pés terras que lhe pertencem e não apenas que cuida, que vigia. 

Deste modo, Botoso (2013) está correto na opressão de Fabiano por aqueles que o cercam. Todavia, estes mesmos opressores se tornam oprimidos ao se somar a Seca à equação: 

Seca = { [Seu Tomás da Bolandeira + Patrão = (Fabiano)] }  

Tal conceito demonstra que enquanto as figuras autoritárias se mostram acometidas pela Seca, Fabiano é acometido duplamente: pela Seca + figuras de poder. 

Concluiremos aqui a análise da obra de Graciliano Ramos para passarmos agora à – a partir dela – a desfazer o novelo da teia até à segunda obra: Morte e vida severina, de João Cabral. 

Graciliano Ramos - Vidas Secas

A companheira de viagem de Severino

A obra cabralina, assim como a de Ramos, é regional, como afirma Benedito Nunes (p.83). Severino, personagem central da obra, assim como Fabiano, encontra-se enlaçado à teia de aranha que controla de forma absoluta o destino de sua vida. A Seca, figura implacável, faz com que sua vida permaneça instável; ela também marca muitas das fases de sua viagem até à metrópole.  

Logo ao início, com a primeira “cena”, como poderíamos chamá-la, nos deparamos com a apresentação de quem é a personagem que nos fala: “O meu nome é Severino (…)” (CABRAL, 2010, p. 74). Apesar de haver uma personagem que fala na primeira pessoa, Nunes (p.82), afirma que “o personagem do Auto (…), e que vem do Sertão, para desaguar nos mangues de Recife, abrange todos os outros incontáveis severinos”. Destarte, o particular torna-se universal. Ao se nomear Severino e falar sobre sua realidade, a personagem, na verdade, está pintando o quadro do grupo no qual está inserido. Tal afirmação pode ser entrevista com a seguinte passagem da obra cabralina: 

Somos muitos Severinos/ iguais em tudo na vida(…)./ E se somos Severinos/ iguais em tudo na vida,/ morremos de morte igual,/ mesma morte severina:/ que é a morte de que se morre/ de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte,/ de fome um pouco por dia/ (de fraqueza e de doença/ é que a morte severina/ ataca em qualquer idade,/(…)./ Somos muitos Severinos/ iguais em tudo e na sina:/ a de abrandar estas pedras/ suando-se muito em cima,/ a de tentar despertar/ terra sempre mais extinta,/ a de querer arrancar/ algum roçado da cinza (CABRAL, 2010, p. 74-75) 

À vista disto, podemos compreender Nunes, quando este afirma que “pode-se, consequentemente, voltar ao nome em sua substantividade, mas já como gênero abstrato – a severinidade de uma situação humana de carência, que designa igualmente todo aquele que dela participa. Um e muitos (…)” (NUNES, p.82) 

Nesta mesma “cena”, a personagem nos explica que está se retirando da serra magra e ossuda em que vivia. Com tal descrição do local em que vive, já entrevemos a demarcação da Seca, a qual descarna não apenas a serra, mas o povo que nela vive. Assim, a terra é espelho da gente que a habita (ou vice-versa). Gente esta que, assim como afirma Severino, busca abrandar as pedras, tenta despertar uma terra que se extingue a cada dia. Com isso, a personagem parte à procura de terras mais macias que amaciem também as carnes que nela vivem. Tal desejo também move Fabiano e sua família, no capítulo final, “Fuga”, no qual a família parte em direção a uma terra onde possam se instalar de modo a se abrigarem da Seca e levar uma vida diferente:  

Chegariam a uma terra distante, esqueceriam a catinga onde havia montes baixos, cascalhos, rios secos, espinho, urubus, bichos morrendo, gente morrendo. Não voltariam nunca mais, resistiriam à saudade que ataca os sertanejos na mata. Então, eles eram bois para morrer tristes por falta de espinhos? Fixar-se iam muito longe, adotariam costumes diferentes. (RAMOS, p. 54) 

Desejamos – com a comparação de ambas as obras – propor uma leitura paralela de Ramos e Cabral, no qual uma se mostra a continuação da outra. Em Vidas secas, o leitor se depara com a dura realidade daqueles que vivem na Caatinga e a transformação de vaqueiro de Fabiano, em retirante no final do romance. Com a obra cabralina, diferentemente, o leitor se depara com a personagem se retirando e o percurso desta até a cidade. Destarte, Morte e vida severina poderia ser o percurso de Fabiano e sua família, assim como de todos os severinos representados por aquele Severino que nos fala. 

Isto posto, podemos dizer que a esperança que Fabiano alimenta é similar, se não a mesma da personagem de João Cabral. Fabiano passa a ter algum otimismo com os sonhos dos quais Sinhá Vitória discorre no capítulo final, apesar deste otimismo fraquejar com a fome e com o cansaço. Assim, podemos dizer que em ambas as obras, a partida para a cidade é alicerçada em esperança. Entretanto, conquanto Severino parta repleto de perspectivas, a cada passo que dá, cada outra alma que encontra, lhe aponta realidade como a sua.  

O primeiro encontro que tem é com os “irmãos das almas” que estão em uma jornada, assim como ele. Todavia, a jornada destes se difere da de Severino, pois eles não fogem da morte, mas sim a carregam: “- A quem estais carregando,/  irmãos das almas,/ embrulhado nessa rede? (…)/ um defunto de nada,/ irmão das almas,/ que há muitas horas viaja/ à sua morada” (CABRAL, 2010, p.75). Com tal primeiro encontro, Severino já se depara com um dos elementos que busca deixar para trás: a morte. Esta, por sua vez, está diretamente associada à vida dura e seca governada pela Aranha Rainha. O defunto é morto em emboscada, atingido por uma “ave-bala”. Severino indaga qual havia sido o motivo da emboscada. Os irmãos das almas lhe explicam que o único crime que havia o defunto cometido era ter alguns hectares de terra: “Ter uns hectares de terra,/ irmão das almas,/ de pedra e areia lavada/ que cultivava” (CABRAL, 2010, p.76). Todavia, o leitor deve saber que tais terras eram terras inférteis, que gera briga de terras inférteis, com morte de vida que tenta sustentar a vida com terra infértil.  

Tal disputa por hectares se liga diretamente à temática do coronelismo. Temática esta já entrevista em Vidas Secas. Fabiano não é homem por cuidar de terra alheia. O patrão é quem detém o poder. Tal poder é, em Morte e vida severina, observada claramente nesta passagem, pois é quem possui mais hectares que possui mais poder, e, com isso, pode buscar possuir o que é do outro, mesmo que sejam “magros lábios de areia” onde dez quadras de palha são plantadas e nada mais.  

O desejo de mais possuir é exatamente este: o de simplesmente mais possuir, dominando região rude, inóspita onde quem manda é o Sol, como se vê com a seguinte citação: “Queria mais espalhar-se,/ irmão das almas,/ queria voar mais livre/ essa ave-bala./ — E agora o que passará,/ irmãos das almas,/ o que é que acontecerá/ contra a espingarda?/ — Mais campo tem para soltar,/ irmão das almas,/ tem mais onde fazer voar/ as filhas-bala.” (CABRAL, 2010, p. 77). Neste trecho, podemos interpretar a espingarda como o próprio patrão, que derruba seus oponentes com a mesma facilidade que as balas que carrega. Este primeiro encontro com a morte no caminho é seguindo por outros, até a chegada à capital pernambucana.  

Uma morte metafórica na qual se divisa muito bem a figura da Seca é o encontro com o Rio Capibaribe. Severino acreditou “que seguindo o rio/(…) jamais [s]e perderia:/ ele é o caminho mais certo,/ de todos o melhor guia” (CABRAL, 2010, p.79). Contudo, este, como o mais à sua volta, definha com a Seca. A morte metafórica do rio cruza com a morte real do homem que não consegue sobreviver sem as águas que costumavam correr em tempos agora idos. Ao se deparar com o rio seco, Severino ouve cantoria. Esperando ser de festa, já que durante todo o percurso leva a esperança no bolso da camisa, acima do coração, esbarra, todavia, com funeral. 

Severino, então, dá-se conta de que sua companheira de viagem é a morte, que lhe acompanha a todo momento, caminhando ao seu lado, levando a cada passo algo que encontra-se próximo, mas nunca a personagem: “Desde que estou retirando/ só a morte vejo ativa,/ só a morte deparei/ e às vezes até festiva;/ só morte tem encontrado/ quem pensava encontrar vida,/ e o pouco que não foi morte/ foi de vida severina/ (aquela vida que é menos/ vivida que defendida,/ e é ainda mais severina/ para o homem que retira). (CABRAL, 2010, p. 80). 

A morte é sua companheira por ser amiga daquela que governa a Caatinga. Quanto Severino encontra a Benzedeira, esta lhe afirma: 

Só os roçados da morte/ compensam aqui cultivar,/ e cultivá-los é fácil:/ simples questão de plantar;/ não se precisa de limpa,/ de adubar nem de regar;/ as estiagens e as pragas/ fazem-nos mais prosperar;/ e dão lucro imediato;/ nem é preciso esperar/ pela colheita: recebe-se/ na hora mesma de semear. (CABRAL, 2010, p. 84) 

Podemos depreender que, apesar de o homem não conseguir tirar vida da terra torrada, a Seca faz plantação em latifúndio da morte, plantação esta que domina todos os hectares de terra, desde a de Severino, passando pela dos irmãos das almas, até o limite da metrópole. Deste modo, Severino segue em frente, fugindo daquelas que governam a herdade da qual provém. 

Ao adentrar a região mais próxima a Recife, a terra dura vai se abrandando, tornando-se feminina até. A maciez já denota uma ideia de umidade, isto é, a personagem está desvencilhando-se da terra governada pela Aranha Rainha. Conquanto a deixa para trás, a amiga desta ainda se faz presente: a morte. Nesta mesma terra macia, Severino depara-se com novo funeral. Este novo encontro – novamente – parece lembrá-lo de sua situação: o quão fortemente emaranhado se encontra na teia da “aranha implacável”. A aranha era a seca, agora é sua futura condição de marginalizado em uma sociedade na qual viverá nas bordas, nunca adentrando de fato. Ao partir, parte com esperança de uma vida melhor. Contudo, parte também sabendo que o trabalho será o mesmo. O único que deseja é não ser morto por aquela que lhe governa:  

— Nunca esperei muita coisa,/ é preciso que eu repita./ Sabia que no rosário/ de cidades e de vilas,/ e mesmo aqui no Recife/ ao acabar minha descida,/ não seria diferente/ a vida de cada dia:/ que sempre pás e enxadas/ foices de corte e capina,/ ferros de cova, estrovengas/ o meu braço esperariam./ Mas que se este não mudasse/ seu uso de toda vida,/ esperei, devo dizer,/ que ao menos aumentaria/ na quartinha, a água pouca,/ dentro da cuia, a farinha,/ o algodãozinho da camisa,/ ou meu aluguel com a vida. (NETO, 2010, p.94, grifo próprio

Como se percebe, sua condição de vida no Recife será pautada por sua condição de retirante, marginalizado. Conquanto a busca por melhores condições, longe da vilã Seca, outro vilão passa a dominar sua vida: a marginalização. Como se percebe pelos trechos destacados, a própria personagem possui consciência da condição imutável, pois sempre estará com as mãos ocupadas por pás e enxadas a arar a terra seca ou afofada pela umidade. Em ambos os cenários, Severino estará à margem, sendo governado por alguma figura que lhe seja superior. O mesmo, poderíamos pensar, poderá ter ocorrido com Fabiano, caso tenha se desprendido do caminho cíclico da obra em que habita, a qual se inicia com fuga para terminar em nova fuga. 

Malgrado as dificuldades encontradas ao longo da jornada; malgrado as provações sofridas e os encontros constantes com a morte e com a Seca, Severino continua a ter esperança na Vida, mesmo que esta seja severina. Deste modo, quando chega “às margens” de Recife, e tem notícia de um nascimento, começa a ter consciência da força da vida que o impeliu a fazer a travessia da Serra da Costela até à capital; e que continua a impeli-lo para frente, em busca não simplesmente de uma vida melhor, mas sim, e talvez principalmente da vida mesma, do viver mesmo, mesmo que este seja sever(in)o. Mesmo querendo saltar da ponte, a personagem salta para a vida, no mesmo instante que o recém-nascido pula para o mundo. Então, a conclusão do carpinal, pode também ser a conclusão do próprio Severino que se dá conta de que a jornada não foi para a cidade, mas sim, como foi expresso anteriormente, para seguir vivendo: 

o espetáculo da vida:/ vê-la desfiar seu fio,/ que também se chama vida,/ ver a fábrica que ela mesma,/ teimosamente, se fabrica,/ vê-la brotar como há pouco/ em nova vida explodida;/ mesmo quando é assim pequena/ a explosão, como a ocorrida;/ mesmo quando é uma explosão/ como a de há pouco, franzina;/ mesmo quando é a explosão/ de uma vida severina (CABRAL, 2010, p. 103) 

Findaremos a análise-comparação de Morte e vida severina com este belo e também triste final, para desenrolarmos, agora, o novelo até a terceira e última obra: Abril despedaçado (2001), de Walter Salles. Diferentemente das duas obras trabalhadas até aqui – que se materializam a partir da palavra, já que a primeira se revela um romance, e a segunda um poema-teatro – a obra de Salles se apresenta como um longa-metragem. 

Abril Despedaçado

A cor da terra

Como afirma Gonçalves (p.87), Abril despedaçado é o quinto trabalho cinematográfico do diretor “e é o primeiro a tratar de um universo fabular que tem o sertão brasileiro como palco da eterna luta entre tradição e o desejo de liberdade” (GONÇALVES, p.87). O filme apresenta a eterna briga entre duas famílias – Breves e Ferreira – por terras (e com elas: poder). Tal briga gera, então, uma “guerra de sangue”, adotando a expressão de Gonçalves. Tal situação já remete à obra de Cabral e o encontro de Severino com os irmãos das almas examinado anteriormente. O desejo que move a luta por terras é embasado em um desejo de mais possuir, de mais poder e até mesmo mais produção. As terras de Tonho, personagem de Rodrigo Santoro, produzem cana de açúcar que alimenta a produção de rapadura. Pode-se então pensar na ideia de Coronelismo.  

A família de Tonho possui uma pequena propriedade que se opõe a certo luxo apresentado pela câmera quando mostra a fazenda do Velho cego. Este, que se mostra rico e poderoso, parece deter o poder da região (cria-se então a figura do Coronel). Apesar de afigurar-se “senhor”, deseja mais posses: a plantação de cana do pai de Tonho. Deste modo, observa-se que, diferentemente da plantação de palha do defunto cabralino, o solo da personagem de Rodrigo Santoro é útil, não exatamente fértil, já que a Seca também domina o filme. Podemos, contudo, pensar também que o fato de a terra produzir não é necessariamente o motivo do desejo de posse do Velho Cego, pois este parece simplesmente querer ampliar sua fazenda, seja com terras produtivas ou não. 

O matiz do filme, por outro lado, pode ser comparado à obra de Ramos. Assim como o proêmio de Vidas secas, a fotografia trabalhada pelas lentes de Salles é ocre. As personagens, o figurino, a plantação, até mesmo os animais e, é claro, a vegetação parecem se misturar, possuir o mesmo tom de calor abrasador que emana do Sol e se reflete no solo. Menino, irmão de Tonho e personagem que narra a estória afirma que a vivenda da família se encontra “em cima da terra e debaixo do sol”. Tal afirmação somada à imagem projetada pelo filme, apresenta ao espectador o calor e o vermelho que encontramos no romance de Graciliano. Uma única diferença talvez seja que em algumas cenas há também a demarcação do azul do céu, que pode ser comparado aos dois juazeiros que alargam a mancha verde de Vidas secas

O filme tem início com morte do filho mais velho da Família Breves: Inácio, morto pela família rival. Sendo assim, Tonho deve cobrar o sangue de seu irmão. Tal cobrança já denota a ideia da teia da tradição que Gonçalves menciona e que foi exposta acima. Tonho, além de estar emaranhado na brutalidade do clima, como Fabiano e Severino, também está emaranhado na tradição da “guerra de sangue”, sem perspectiva de mudança.  

De fato, a Seca, a Aranha que desejamos analisar neste estudo comparativo, demarca, principalmente, o cenário do filme, da mesma forma que demarca a vida de Fabiano e sua família e a jornada de Severino. Todavia, não podemos dizer que seja o tema central da obra. É apenas presença, locus do filme. Podemos comparar sua influência na constituição das personagens, assim como fizéramos com a figura de Fabiano. Como vimos, Fabiano – diferentemente de Seu Tomás da Bolandeira – torna-se duro com o clima. A personagem de Graciliano é forçada a fugir do clima inclemente, de modo que não se deixe abater por ele, mas sim combatê-lo. Semelhante realidade é observada em Abril despedaçado. As personagens, e não apenas os Breves, mas também os Ferreira (mesmo se apresentando como senhores, similares à figura de Seu Tomás) são “resistentes”, “duros” e “brutos”. Brutos, não no sentido intelectual que Fabiano se refere, e sim no sentido de brutalidade, pois demonstram sangue frio na cobrança do sangue alheio. O clima brutal, que ceifa a vida da mesma forma que o homem ceifa o trigo, reflete-se na briga exposta no filme, pois ambas as famílias ceifam os frutos uma da outra: os filhos.  

À vista disso, podemos então comparar a vida que levam com a vida severina que mata de emboscada antes dos vinte, pois é assim que será a vida de Tonho. Quando cobra o sangue de seu irmão, matando o neto do Velho Cego este lhe diz: “a tua vida agora tá dividida em dois. Os vinte anos que tu já viveu e o pouco tempo que te resta pra viver” (GONÇALVES, p.90). A emboscada do defunto das almas (quem sabe o próprio defunto das almas) é a do/o próprio protagonista de Santoro. Outro excerto do filme que se relaciona com o poema de Cabral é: “Cada vez que o relógio marca mais um, mais um, mais um, na verdade ele está dizendo menos um, menos um, menos um.” (GONÇALVES, p.87).  Tal passagem proferida pelo mesmo protagonista da anterior, relaciona-se também com a obra de Cabral: com a morte severina que mata um pouco por dia. Cada minuto vivido é menos um minuto que pode até mesmo ser o último. Severino tem como companheira a Morte que pode se virar e tomá-lo pela mão a qualquer momento. O mesmo ocorre com as personagens de Salles que são assoladas por diversos inimigos: a fome, a Seca, a sede, a emboscada (inimigos também de Fabiano e Severino) 

A obra, então, pode ser vista como cíclica, assim como Vidas secas. Esta começa em “Mudança” que podemos pensar ser uma fuga do “verão puxado” para terminar em “Fuga”, nova mudança que busca deixar para trás novo “verão puxado”. Abril despedaçado, de outro modo, apresenta o ciclo como a tradição da família. Tonho deve cobrar o sangue, de modo que realmente cobra, tornando-se, assim, assassino. A personagem de Wagner Moura deve cobrar o sangue de Tonho. E Menino deveria, em sequência, cobrar o sangue de Matheus (Wagner Moura). Tal ciclo infinito, que podemos dizer aparenta o Ouroboros, a serpente que engole a própria cauda, é lindamente metaforizado pela cena dos bois no filme. O Menino diz: “a gente é que nem os boi: roda, roda e nunca sai do lugar” (GONÇALVES, p.92). Mesmo sem as amarras, que atam os bois à bolandeira, o par de bovinos continua rodando, assim como a família que permanece décadas no mesmo curso. 

 Entretanto, o circo chega à cidade. A novidade, o diferente e aquilo que desperta sensações novas começa a fazer a roda da tradição girar de modo diferente. Tonho leva o menino ao circo uma noite e com tal ato, pela primeira vez, vai contra a figura de autoridade do longa-metragem: o pai.  É também o circo que leva o protagonista de Santoro a começar uma jornada.  “Para Contardo Calligaris (2000, apud GONÇALVES p. 92), o riso, o fantástico das pernas-de-pau e das labaredas de fogo cuspido são os ‘cantos da sereia que convidam a esquecer as obrigações mortíferas e a pegar a estrada’” (CALLIGARIS, 2000, p. 7, apud GONÇALVES p. 92). Há uma semelhança entre o circo e a cidade. Como visto acima, é o circo que leva Tonho a embarcar em jornada e é a fantasia da vida melhor na cidade que leva Fabiano e Severino a jornadear. Deste modo, ambas prometem melhora, mas, como vemos com as obras, a miséria (no sentido de privação e de desventura) se faz presente. Em Ramos e Cabral a condição de retirante faz com que a sereia-cidade seduza, mas os mantêm em situação de marginalizados. Em Abril despedaçado, o rompimento do ciclo é alicerçado no sangue de Menino que se sacrifica para que a (fantasia de) vida melhor se concretize para seu irmão. Destarte todos os protagonistas das três obras aqui trabalhadas são levados à ação de começar a jornada para uma vida melhor a partir do desejo de algo melhor do que a morte que lhes aguarda.  

Existem ainda diversas comparações e relações possíveis de serem traçadas entre as três obra: a figura do Menino mais velho de Vidas secas e sua semelhança com Menino, de Abril despedaçado; o avanço dos engenhos que empurram as empresas familiares para às margens; a semelhança entre Fabiano e a personagem de José Dumont no filme de Salles, para citar algumas possíveis associações. Entretanto, a proposta – mesmo que tenha havido algumas perambulações pelo caminho – era analisar o locus da Seca e como esta influência as obras: a temática, os personagens e suas jornadas. Apesar das deambulações, esperamos ter conseguido propor uma leitura a partir da teia da Seca. Percebemos também, com o caminho percorrido que a Aranha Rainha, que governa do auto possui consorte: A morte. Esta, ao lado da Aranha-Seca, cuida das personagens, acompanhando-as em suas jornadas quase tanto – se não mais – que a primeira. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 

BOTOSO, Altamir. Opressores e oprimidos: uma leitura do romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Revista de Letras da Universidade Católica de Brasília. Volume 6. Números 1/2. Ano VI, dez/2013. p.49-66 

CANDIDO, Antonio. Cinquenta anos de Vidas secas. In: Ficção e Confissão.  p.143-151* 

CARVALHAL, Tania. Literatura Comparada. 4 ed. São Paulo: Editora Atica, 2006. 

GONÇALVES, Mariana Mól. Abril despedaçado. In: Por um cinema humanista: A identidade cinematográfica de Walter Salles de A grande arte até Abril despedaçado. [PDF file]. Tese. Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, p. 87-96. Web: http://www.bocc.ubi.pt/pag/bocc-goncalves-cinema.pdf. Acesso em: 26 de maio, 2019. 

NETO, João Cabral de Melo. Morte e vida severina. São Paulo: Alfaguara, 2010. 

NUNES, Benedito. Morte e vida severina (1954-1955). p.82-89* 

RAMOS, Graciliano. Vidas secas. p.1-64 

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