Três leituras da quarentena: Vila-Matas, Mary Shelley e Garcia Márquez

Tenho visto por aí vários blogs, sites e perfis divulgando listas de leitura para a quarentena: são enormes listas de livros que pensam essa condição de aprisionamento entre quatro paredes. Nelas, aparecem nomes como Kafka, Tolstoi, Atwood, Orwell, Huxlei etc. Também, vi algumas listas de obras que nos levam em viagens divertidas, para esquecer ou nos aliviar desses problemas vividos agora: em lugares que nos encontramos com Aquiles e Diomedes, ou sentamos à mesa de um Hobbit e alguns anões.

Pensei em montar minha lista de indicações também, mas, já que têm tantas por aí, e tão diversas, preferi fazer uma coisa diferente (mas vou deixar uma listinha no final). Por isso, escolhi três livros que andei lendo nesses dias reclusos, que me passaram mensagens distintas sobre os tempos em que vivemos.

Dublinesca, de Enrique Vila-Matas

VILA-MATAS, Enrique. Dublinesca. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

Dublinesca é monótono, lento e maravilhoso! Uma obra que acompanha a decadente trajetória do ex-editor Samuel Ribas, um homem de sessenta anos, que se sente fracassado por não ter encontrado para publicar – durante todos os anos de editoração – “o escritor”, o gênio literário. É um livro que tem como pilares os irlandeses James Joyce e Samuel Beckett; recheado também de referências à cultura pop e ao cenário literário contemporâneo internacional, mesclando personagens que existem com outros inventados por Vila-Matas.

O que mais me interessa nesse livro, com relação à quarentena, é a amargura de Ribas em sua condição de hikikomori, um termo japonês que se refere ao comportamento de extremo isolamento doméstico.

E nós não estamos assim durante esses tantos dias em casa?

Existem dias em que não se faz nada; o almoço não sai (ou sai tarde); o catálogo da Netflix é um saco; meu livro novo ainda não chegou; não sei o que fazer; já estou de saco cheio disso tudo… e o que antes era divertido e ajudava a passar o tempo esfriou, ficou cru, e nem podemos, como Ribas, fazer uma viagem para Dublin, virar a vida de cabeça para baixo: estamos presos, somos hikikomoris involuntariamente, acompanhando notícias terríveis sobre o número de mortos e contaminados pelo Covid-19, paralelas às declarações desbocadas e infantis e idiotas do presidente da república em exercício: Bolsonaro. Não vejo como separar toda a situação trágica de pandemia da crise política que o Brasil está enfrentando.

Frankenstein, de Mary Shelley

SHELLEY, Mary. Frankenstein. Tradução de Márcia Xavier de Brito. Rio de Janeiro: Darkside, 2017.

Frankenstein é um livro que dispensa apresentações longas. O romance de Mary Shelley, escrito em 1823, conta em forma de cartas a história de Viktor Frankenstein, um jovem estudante de Filosofia Natural, que, com seu apetite ilimitado de conhecimento e transformação, dá vida a sua própria ruína.

A mudança era uma ânsia que atravessava o coração dos brasileiros desde 2013, cansados de escândalos de corrupção e desesperançados com o cenário político. Por isso, assim como Viktor Frankenstein, o desejo os cegou e conduziu à criação da Criatura, que hoje está sentada na cadeira máxima do Executivo. Em 2018, velados pela paixão descontrolada de mudança a qualquer custo, 57.797.847 brasileiros elegeram a própria ruína nacional, que está aí, como a criatura, em nossa interminável noite de núpcias com o país.

Seguimos confinados, acompanhando de perto (mas longe), ansiosos pelo próximo passo da criatura, pela próxima vítima de um sistema racista, canalha e corrupto desse monstro que ateia fogo em si mesmo e em todos nós, que votaram ou não votamos nele. Mas existe uma diferença abismal na situação da criatura e a de Bolsonaro: o ser que Viktor criou é um injustiçado, inteligente e persuasivo, ainda que se torne terrível durante a narrativa, afetado pelos próprios desejos. Enquanto isso, o 38º presidente do Brasil é desprezível, ignorante e mesquinho, e o era mesmo antes de ser eleito, só que, para a grande maioria, não parecia, ou eles preferiam que fosse mentira, apenas suposição e fofoca de uma mídia corrompida.

E isso me conduz ao próximo livro.

O veneno da madrugada, de Gabriel Garcia Márquez

MÁRQUEZ, Gabriel Garcia. O veneno da madrugada. Rio de Janeiro: Editora Record, 1974.

Ainda estou lendo essa novela que não está entre os textos mais famosos do Gabo, e foi ela que me motivou a começar esse post e me colocou para pensar ainda mais na relação entre literatura e realidade.

O livro conta a história de um pequeno vilarejo na América do Sul e seus diversos personagens: Padre Ángel, o alcaide, Dr. Giraldo, Juiz Arcádio, Trindade, Rebeca Assis etc. que se veem confrontados quando subitamente começam a aparecer pequenos papeis que denunciam a injustiça, a infidelidade e a ganância, pregados nas portas dos casebres durante as madrugadas de chuva.

O ponto chave, que me tocou, e que também fala muito sobre nossa situação atual, tem a ver com a passagem dos problemas de esfera privada para a pública. Explico-me. Na história, todo mundo sabia que César Monteiro era traído, que sua esposa se deitava com o Pastor (cogita-se que até ele mesmo tenha sabido da infidelidade da esposa), mas é apenas quando o papel é colado em sua porta que ele passa a agir: antes, era um problema da porta de sua casa para dentro, mas, com o pasquim (como são chamados os papeis) o problema vem a público.

É como se o que antes era apenas um boato ou mera fofoca passasse a ser notícia/fato, e, aos poucos, as tensões entre as famílias e os políticos do vilarejo foram aumentando e aumentando e aumentado (ainda não cheguei ao fim do livro, então paro por aqui). Algo muito parecido acontece com a contínua tensão entre governo e mídia no Brasil, com escândalos diversos vindo à luz, associados à família Bolsonaro, que os nega e, assim como o alcaide da novela de Garcia Márquez, exige que “não se dê relevância ao que não tem”. Eu pergunto:

Não tem relevância para quem?

15 indicações

Por fim, como falei no começo, compartilho uma pequena lista de indicações literárias (e um teórico) com vocês. Mas antes, quero dizer que, para mim,

toda leitura está sendo uma leitura sobre a quarentena e sobre a situação política do país

que me ajuda a entender mais sobre estar isolado (seja pensando o que está distante, ou sobre as novidades dessa condição) e maneiras de contornar a enorme decepção com a política brasileira, que nos leva para o abismo.

Meu olhar está procurando nos livros soluções para esse cenário atípico que enfrentamos!

Por isso mesmo, leiamos!
Por isso mesmo, aqui está a lista de indicações:

  1. Outros, estranhos, de Isadora Urbano (kindle)
  2. A cor púrpura, Alice Walker
  3. A metamorfose, de Franz Kafka
  4. A câmara sangrenta, de Angela Carter
  5. Quarto de despejo, Maria Carolina de Jesus
  6. Esperando Godot, de Samuel Beckett
  7. O conto da aia, de Margaret Atwood
  8. As almas da gente negra, W. E. B. Du bois
  9. A morte de Ivan Illich, de Liev Tolstoi
  10. As alegrias da maternidade, Buchi Emecheta
  11. A redoma de vidro, de Sylvia Plath
  12. O castelo de vidro, Jeannette Walls
  13. As brumas de Avalon, de Maryon Zimmer Bradley
  14. Hibisco Roxo, Chimamanda Ngozi Adichie
  15. A queda dos heróis, de João Tomayno (kindle)

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