Três poemas de “Claro Enigma”, de Carlos Drummond de Andrade

Nesta segunda semana de março, especificamente no dia 10/03/2021, o livro Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade, completa 70 anos desde sua publicação. Publicado em 1951, pela editora José Olympio, esse livro é entendido por alguns críticos como a obra prima de Drummond – alcançando inclusive a alcunha de melhor reunião de poemas já publicada no Brasil, dentre tantas da poesia nacional –, sendo também um dos fatídicos “livros de virada” do autor itabirano.

No post de hoje, você vai conferir três dos poemas que figuram em Claro Enigma, poemas estes que foram escolhidos de forma a escapar levemente dos dois que talvez sejam os mais conhecidos do livro: “A máquina do mundo” e “Os bens e o sangue”.

Mas, antes de lermos os poemas, vamos a algumas detalhes sobre essa obra prima da poesia brasileira.

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Após passar por duas fazes célebres aos olhos da crítica literária – uma modernista, sob a qual vieram os poemas de Alguma Poesia (1930) e de Brejo das Almas (1934); e uma segunda engajada e social, na qual estão livros como A rosa do povo (1945) –, a chegada de Claro Enigma é, na trajetória de Drummond, o assumir definitivo de uma nova máscara.

Recuperando elementos caros à tradição lírica ocidental, como o verso metrificado e o soneto, o autor confronta sua faceta imediatamente anterior, agindo/escrevendo a partir de uma postura antihistórica e antipolítica (em sentido restrito, é claro). O livro está dividido em seis partes que juntas compõem uma suíte interessantíssima, que se digladia com a disposição relativamente simples das obras anteriores e constrói um sentido caleidoscópico, do vocabulário às temáticas. O distanciamento do presente, enquanto lugar concreto e social, é bem representado desde a epígrafe que Drummond escolheu para o livro: Les événements m’ennuient (em tradução rápida: “os acontecimentos me aborrecem”), uma frase emprestada de Paul Valéry, que coloca o autor brasileiro alinhado com um legado interessado em mergulhar na linguagem e na técnica, tendo por primeiro plano o mar da língua (la mer), e não sua espuma (l’écume) – para fechar aqui com outra menção a Valéry.

Sabendo disso, desfrutemos, abaixo, dos três poemas exemplares do que observamos acima, essas características tão maturadas pelo Carlos Drummond de Andrade que nasceu (ou cresceu) na década de 1950, com a publicação de Claro Enigma.

O livro – e seu autor –, em mais um novo ano, presenteiam e marcam a nossa trágicômica história nacional.

Sonetilho do falso Fernando Pessoa

Onde nasci, morri.
Onde morri, existo.
E das peles que visto
muitas há que não vi.

Sem mim como sem ti
posso durar. Desisto
de tudo quanto é misto
e que odiei ou senti.

Nem Fausto nem Mefisto,
à deusa que se ri
deste nosso oaristo,

eis-me a dizer: assisto
além, nenhum, aqui, 
mas não sou eu, nem isto.

O chamado

Na rua escura o velho poeta
(lume de minha mocidade)
já não criava, simples criatura
exposta aos ventos da cidade.

Ao vê-lo curvo e desgarrado
na caótica noite urbana,
o que senti, não alegria,
era, talvez, carência humana.

E pergunto ao poeta, pergunto-lhe
(numa esperança que não digo)
para onde vai — a que angra serena,
a que Pasárgada, a que abrigo?

A palavra oscila no espaço
um momento. Eis que, sibilino,
entre as aparências sem rumo,
responde o poeta: Ao meu destino.

E foi-se para onde a intuição,
o amor, o risco desejado
o chamavam, sem que ninguém
pressentisse, em torno, o Chamado.

Oficina irritada

Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.
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