Laços de memória: uma fantasia decolonial #1

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SINOPSE

Frida é uma feiticeira poderosa que, depois de morrer sucessivas vezes, ficou aprisionada na Terra da Memória. Tentando encontrar mais uma maneira de voltar para o plano dos vivos, ela relembra toda a aventura que a levou até o cárcere, desde quando era apenas uma jovem ingênua que saiu do conforto e da segurança dos muros de sua casa sem saber que do lado de fora encontraria um mundo violento, marcado pela corrupção, pelas disputas de poder entre nativos e nobres e pela escravidão.

PRÓLOGO

O que farias se fosses filho de duas das pessoas mais poderosas e influentes do mundo todo e escutasses quase sempre: “lá vai a filha do grande Eleis”; e “como é ser filha de Lorna”; ou também a boa e velha pergunta: “és forte como teus pais”? Bem, descobri muito tarde que eu sou. Mas vamos do início, quando eu ainda não era o que eu sou hoje, quando ainda não estava aprisionada; sim, vamos ao tempo em que escolhi deixar toda essa vida de cobranças para trás.

Eu me chamo Frida Lieira e, por conta de meu poder, estou presa na Terra da Memória. Em outras palavras, eu estou morta. Mas e daí?! Aposto que não te preocupam as frases e as dúvidas de uma tola feiticeira, refém desse lugar vazio e infinito. Mas não me importa o que pensas, pois essa é a minha história e vou contá-la contra a tua vontade: a história de uma mulher condenada pela magia, pelo passado, pela família; a história de uma mulher cujo destino é sempre voltar para cá, sempre morrer e morrer e morrer, inúmeras vezes.

DIÁRIO

Os dois jovens dos olhos de rubi

Quando os dois jovens acordaram, ali, naquele lugar estranho, eles já deviam entender que não eram mais apenas crianças. O jovem, eu o via de onde eu estava, sentada sobre o chão de pedra dura ao lado da palha e do tecido que servia de cama para ambos. Despertando, ele esfregava as mãos nos olhos para livrá-los do sono. Os cabelos eram carmins como um poente tardio e pareciam nunca antes terem sido cortados, de tão longos. Os mesmos cabelos tinha a menina, mais nova que ele, que estava de pernas cruzadas em frente a uma pedra baixa que ela usava como mesa, contando moedas. 

– Bom dia, Xao. – Ela falou ao outro, sem se virar. – Acho que a gente tem que partir. 

O jovem queria, mas se rendia ao sono com facilidade. Ele devia entender logo: isso era crescer, nunca mais dormir da mesma forma, sempre com medo, sempre sem tempo.

A menina que contava as moedas fazia isso com a graça de uma princesa das velhas histórias, a chama da tocha iluminando sua pele lisa e escura. Por um instante, ela se virou em minha direção e olhou profundamente em meus olhos. Os seus eram como os cabelos em sua cabeça: um vislumbre breve de um poente esquecido, um enigma. Seria possível que ela me visse? Não, é impossível. Mesmo assim, o olhar dela era duro e parecia me perceber ali. Fiquei envergonhada de sustentá-lo por tanto tempo e tive de olhar para longe pela abertura daquela caverna.

Era de manhã e, pela luz de verão, dava para saber que eles estavam próximos do centro do continente, longe do norte. Essa é a milésima vez que sonhos com esses dois, desde que saíram de um vilarejo estranho, mas não sei bem como isso funciona, esses sonhos mágicos de meu pai, não sei o porquê de vê-los tão frequentemente quando durmo. Apesar das diferenças tantas que eles possuem comigo, eu até que gosto deles, e não chegam a ser pesadelos, diferente de alguns dos outros estranhos com quem eu tenho sonhado.

– O que você tá olhando, Bur? – finalmente o jovem deitado falou alguma coisa.

– Ninguém. – A menina lhe devolveu essa palavra em resposta.

– Você tá fazendo isso muitas vezes – ele pareceu irritado, dizendo –: fica olhando pro nada! Até parece que tá vendo fantasma…

– Isso não importa, Xao. – Ela o cortou. – A gente tem que ajeitar as coisas! Acho que tamo quase chegando na fronteira.

A fronteira…! Sim. Esses dois vão para Tentos, por isso são necessárias as moedas que carregam. A garota as juntou, empurrando para dentro de um saco; o jovem, por sua vez, se levantou e se enrolou, vestido com o próprio tecido que usava como lençol para se cobrir da noite, batendo a palha dele. A sujeira impregnava a pele e as vestes dos dois, e imagino o quão insuportável já devia estar para eles viajar em condições assim tão precárias, dormindo em cavernas e casas abandonadas, quando não debaixo de uma pedra ou árvore; sem banho e sem comer, se não caçar.

Seria um milagre encontrá-los na capital, por isso ficarei lá. Mas antes, eu preciso… Não. Eu já desperto, minhas crianças. É hora de deixá-los sozinhos na névoa mais uma vez, porque alguém me chama da vida real, onde estou. As paredes da caverna já desaparecem, então o sonho está chegando ao final. Queria poder levá-los comigo, para nos sentarmos juntos e conversar, sim! Um banquete com todos esses personagens de meus sonhos: com o monstro portador da lança; com o guerreiro de divina astúcia; com vós: meus jovens dos olhos de rubi.

Atlas náutico português (1519), Lopo Homem

Capítulo 1

Um começo com grandes surpresas

– Minha Senhora! Minha Senhora. Frida! – Era Dito quem eu ouvia me chamando.

Dito me sacudia e eu despertava finalmente daquele breve sonho encantado. Suas mãos, ásperas do trabalho na casa da família, retiravam mechas de cabelo da frente de meu rosto. Assim que abri meus olhos, ele se assustou e recuou com a mão.

– Está sonhando outra vez? – Ele perguntou apreensivamente, ao que não dei palavra alguma, apenas resmunguei confirmando. – Nós estamos chegando – falou, rompendo o silêncio, com a certeza de que eu estava acordada. Rapidamente recuperou seu semblante sempre sério e acrescentou: – Lembre-se de não contar sobre esses sonhos para ninguém! Só fale sobre a morte de seu pai –  que o céu o tenha! – mais nada!

– Eu sei, Dito… – reclamei. – Você já disse isso milhares de vezes.

– Certo… E você está lembrada que eu e Nuno somos seus escravos, não é?! Eles precisam acreditar nisso, então não vá cometer nenhum deslize! Esse lugar não é uma fantasia mágica dos livros da biblioteca de seu falecido pai.

O assistente então fechou o rosto e afastou a cortina com a mão, observando o movimento da rua. Ele era um dos meus acompanhantes naquela viagem até o centro do continente, o outro era meu irmão mais novo, Nuno, que eu agora tinha de tratar como um escravo, porque Dito disse que assim era mais seguro. Ele fazia o mesmo que Dito, e olhava os homens correndo de um lado para o outro naquela via, curioso com o barulho dos cavalos e de tanta agitação. Peguei na bolsa meu pequeno diário e tinta fresca e, apesar do movimento, logo comecei a anotar o novo episódio de meus frequentes sonhos com aqueles jovens de cabelos vermelhos. O que meu pai pensaria disso? Os sonhos eram uma herança maldita que ele me deixou! Seu corpo já devia estar frio e comido pelos vermes da terra a essa altura, e ele já não podia me ajudar de qualquer forma, então não importava.

– Corra atrás dos seus sonhos… – as palavras de minha mãe de repente vieram à memória. – Só espero que você não encontre todo o sofrimento que eles carregam consigo.

Áspera como sempre. Foram muitos os conselhos que me deu antes de eu partir… e tudo era tão misterioso, tão vago! Os sonhos, a magia, a política, tudo era novidade para mim. E ela e Dito tinham acertado em cheio: aqueles castelos incríveis que recheavam os livros da biblioteca não existiam, nem os cavaleiros, nem príncipes e belas donzelas: a capital era um lugar enorme, fedido, pobre e bagunçado.

– Tomem muito cuidado, vocês! – Lorna nos disse, segurando meu rosto. – Fiquem sempre perto de Dito. E, se vocês se separarem por algum motivo maior, procurem os convidados do velório. São as únicas pessoas de confiança!

Mais de um ano tinha se passado desde então, desde o enterro de Eleis. O rosto de cada convidado naquele dia tinha sido esquecido no velho baú de minha memória. Poucos foram os que eu desenhei em meu diário ou mesmo que descrevi com palavras rápidas e nada importantes. De toda forma, tudo o que minha mãe nos dizia parecia uma tentativa contra a ideia de conhecer o mundo, então eu não dava tanta credibilidade. Bem, agora ela ficava para trás!

Não muito depois de eu começar a escrever e a pensar, o cocheiro parou a carruagem e me obrigou a guardar o material da escrita na bolsa. Dito se abriu a porta e foi o primeiro a descer dela. Em seguida, anunciou que podíamos sair também. Eu amarrei meus cabelos, para depois tomar o véu emprestado por minha mãe e lançá-lo sobre a cabeça, escondendo meu rosto maquiado atrás daquela película familiar. Pela mão, conduzi Nuno para fora, ele que já estava impaciente, olhando para mim, para sairmos logo daquela carruagem.

Quatro homens faziam a guarnição diante do enorme arco de pedra que emoldurava o portão de madeira. A passagem levava à sala de despacho do palácio do rei de Tentos, onde a corte e a família real tomavam conhecimento dos diversos problemas em suas terras continentais. Era justamente com o regente da cidade que eu gostaria de me encontrar. Estávamos naquele reino há quase duas semanas na espera de uma reunião com o rei Artur, mas ele não quis ter uma reunião particular comigo até então, e só aceitou fazê-la porque revelei meu nome a um dos nobres que nos recepcionou na cidade: Marquel, duque de grande prestígio entre a nobreza de Tentos, sendo reconhecido principalmente pelo seu conhecimento em magia. Pelo menos foi isso o que um dos secretários do palácio havia nos dito.

O portão já estava aberto e pude ver uma enorme quantidade de pessoas aglomeradas ali – provavelmente todos eram nobres. E, ao nos aproximarmos para entrar, fui interrogada por um dos guardas:

– Quem és, madame?

Dito nos apresentou, cumprindo com o combinado e se passando por um escravo ou coisa assim, acompanhante de uma senhora muito nobre, eu, que tinha horário marcado com o duque Marquel e, assim esperava, com o rei. Ao ouvirem isso, percebi o desconforto e a dúvida no olhar dos guardas, que demoraram um pouco a autorizarar a minha passagem. Um encontro com o rei? Parecia maluquice mesmo, ainda mais sem saberem quem eu era. Mas não demorei a entrar e Dito e Nuno quiseram vir comigo, mas os guardas negaram insistentemente esse pedido deles.

–  Vocês têm que ficar com o resto dos escravos, traste! – O guarda os ameaçou, acabando com a formalidade com que me tratara e fazendo com que os dois recuássem um pouco.

– Dito – falei, então –, não acho que eles vão ceder.

– Provavelmente não, senhora – concordou ele, lançando os olhos aos guardas.

– Não me chame assim! Odeio isso de “senhora”.

– Tudo bem, senhora – ele piscou, nascendo um sorriso maldoso no canto de sua boca. E, como de costume, o sorriso desapareceu subitamente. Ele perguntou: – Você vai ficar bem?

– Sim – procurei ser firme ao dizê-lo. – Acho que você e o Nuno podem voltar para a estalagem enquanto converso com o rei. Eu volto para lá antes que o sol se ponha. É um milagre eles terem me arranjado esse encontro com ele!

– Mas eu quero ir com você, Frida! – Nuno pediu.

– Nuno! Você tem que chamá-la de “senhora” – Dito cochichou, puxando a orelha do jovem. Eu lhes lancei um sorriso e, depois de um leve cumprimento, os dois se afastaram. Eu os vi desaparecer sob as queixas de Nuno, depois que cruzaram o pátio e subiram mais uma vez na carruagem. Sozinha, fui encaminhada por um dos guardas até uma das alas do salão, onde me sentei para esperar a chegada do duque que me atenderia. Fiquei observando a mobília finíssima, como aquela que aparece de fato nas histórias que eu tinha lido. Isso desabrochou a fantasia de meu coração e tomei outra vez de dentro da bolsa meu diário e a ponta de tinta que meu pai me deu quando fiz quinze anos. Apesar de uma cidade terrível, Tentos era a capital e um lugar com muito espaço para a imaginação e o crescimento. Escravos diversos circulavam entre os presentes oferecendo comida e bebida em abundância e reforçavam a ilusão de que minha taça nunca estaria vazia. Mas, olhando os outros nobres, conversando e trocando gracejos e sorrisos, eu soube que não pertencia àquele lugar, o que instalou uma mágoa em meu peito, cheio da vida campesina.

Dividida, eu me colocava a rabiscar no papel os detalhes mais cativantes de um futuro incerto, quando de repente a lembrança dos cabelos e olhos vermelhos daqueles dois jovens cortaram meus pensamentos. Me lembrei do dia em que saíram de casa: um número sem fim de mulheres, todas com os cabelos daquela mesma cor, acenando para os dois na despedida. Que diabos eram aqueles sonhos? Será que aquelas pessoas realmente existiam? É claro que nunca havia me deparado com qualquer um dos personagens de meus sonhos… então, por que Dito e minha mãe insistiam tanto nisso?

– Não tenha medo dos seus sonhos: corra atrás deles.

Mas eram tantos… E um número sem fim de perguntas tomava conta de mim outra vez. Era assim desde o dia em que parti naquela viagem para Tentos: sempre que eu dormia durante o dia, mesmo que por um breve cochilo, eu sonhava com alguém; algumas vezes, isso também acontecia durante os sonhos noturnos. Não havia para mim um porquê: só acontecia. O que eu sabia era que o meu pai, quando vivo, teve essa mesma habilidade, que agora escolhi esconder do mundo.

– E se eu falasse de meus sonhos para o rei? – eu me perguntava. Era isso: além da morte de meu pai, o plano era revelá-los para Artur e talvez ganhar com isso algum posto importante naquele lugar, onde começaria a construir minha própria vida, longe de casa, longa da luz ofuscante de minha mãe.

Ao passar do tempo refletindo, apareceu novamente na sala o guarda que me conduziu até ali. Ao seu lado distingui o duque Marquel. Quando me viu, ele lançou elogios longos e eu também lhe fiz os devidos cumprimentos, me colocando ao seu lado para caminhar. Passeamos pelo palácio, escoltados por soldados numerosos; seguimos adentro daquele lugar enorme: cruzando corredores e vãos, jardins belíssimos, sala com relíquias muito preciosas. Senti nos nossos passos a pressa e pude ver o suor escorrendo pela testa de Marquel. Ele era bonito, a pele levemente morena, diferente da tradicional brancura dos outros nobres, os cachos de seus cabelos também continuavam belos, apesar do chapéu e da capa ridículos que os cobriam, não tinha barba e seu porte denunciava ser um daqueles cavaleiros que não se cansam de exercitar a arte da guerra cotidianamente. Mas ele não devia ser tão respeitado por ali, porque os traços nativos o denunciavam, sua descendência mista, um provável filho de nobre com alguém do povo nativo, que sempre esteve no continente, de antes da descoberta.

Lado a lado, caminhamos, até que ele tomou a frente, deixando perceber quão apertadas e desconfortáveis eram aquelas roupas todas que o cobriam, rentes a cada músculo. Nós nos aproximávamos da sala onde o rei se reunia com seu conselho (outros nobres de títulos altos e famílias importantes, preocupados com o rumo de suas terras e da colheita), pelo menos foi o que me disse Marquel, a certa altura da caminhada. A porta ali estava fechada e, diante dela, estavam quatro Guardas Reais, que se mantinham a postos. Os cavaleiros de Artur eram tão famosos que só pelas insígnias em suas roupas pude reconhecê-los, mas não me deixei intimidar por isso. Quando nos viram, eles logo se alarmaram, seguindo as ordens que lhes foram dadas, impedindo que avançássemos. Com dificuldade, meu acompanhante insistiu, dizendo que o horário estava marcado, tentando não se irritar. Falou da necessidade de nossa entrada, ainda que fosse uma interrupção não planejada na reunião e revelou para eles até mesmo o meu nome e descendência. Eles, contudo, apenas diziam:

– São as ordens, Duque Marquel. Não podemos fazer nada! 

Eu cheguei realmente a pensar que não conseguiríamos falar com o rei até que findasse a reunião dentro da sala.

Mas não foi necessário que nós entrássemos. 

De repente, o diálogo entre nobres diante da porta foi interrompido por um estrondo vindo do interior da sala. Tão alto e assustador havia sido ele que Marquel logo incendiou todo seu corpo, fazendo dele puro e belo fogo; as roupas apertadas se consumiram em chamas e caíram fumegantes as peças de ouro e outras joias que o duque usava. Eu me afastei dele assustada e sem entender o que estava acontecendo. Um dos dois guardas à porta, por reflexo, tentou desferir um golpe contra o nobre incandescente, o que fez com que a sua arma se consumisse em meio às chamas do corpo de Marquel, sem atingi-lo contudo. Tão rápido como um cão fiel ao ouvir o grito de seu dono, Marquel avançou sobre as duas partes da porta, empurrando os cavaleiros de sua frente. Ainda em chamas, ele as abriu, tornadas apenas as mãos de novo carne humana. Havia muita poeira no ar, que logo tomou conta de todo corredor em que estávamos. Eu comecei a tossir e cobri os olhos, ouvindo as vozes vindas de dentro da sala e também das outras pessoas que chegavam para ver o que estava acontecendo por ali.

– Senhor? – Marquel gritou, envolvido e opaco pelas partículas de pó. – Meu rei?! – fez a voz soar ainda mais alto.

Saindo do meio de tanta poeira, veio um jovem cambaleando em minha direção. Ele estava assustado e desnorteado – pelo arfar se percebia – e só pude ver a enorme roupa branca envolvendo o corpo e a cor da pele preta, de fino barro, dos seus braços. Eu sabia que aquela pele não era comum em Tentos e nas casas próximas dali, por isso logo pensei que se tratava de um estrangeiro estrangeiro. 

De dentro da sala, a voz do rei soou forte, em ordens precisas a todos:

– Segurem o estranho!

Por que não atender o pedido do rei? Respondi ao chamado: me adiantei e tomei pelo braço aquele sujeito esquisito que cambaleava. Ele, ainda que tonto, também me segurou e tentou se livrar de mim, dizendo palavras ininteligíveis, em outra língua, certamente. Eu o segurei com força, prendendo-o com a mão.

– O rei deseja que descubras quem ele é! – foram as palavras que ouvi.

As ordens, claras como a luz da lua na escuridão, atordoaram todos meus sentidos. Em um vislumbre enigmático, fui lançada a uma região campestre, como se todo o castelo se tivesse transformando em um campo de colheita em alta estação. O que era aquilo? Onde eu estava? Logo vi um menino, ao lado de um homem mais velho, ajudando a tirar as espigas de milho dos pés verdes e ricos. Vários outros homens pretos trabalhavam naquele milharal que se estendia até onde a vista alcançava.

– Está vendo, Volme? – disse o sujeito mais velho. – Agora as espigas estão prontas para a venda. Podemos pedir para os escravos colherem.

Aquela criança que admirava seu mentor se chamava Volme de Campalha, filho de uma família de mercadores. Ele se tornaria, tantos anos depois, o jovem estranho a quem eu segurava o braço. Todos esses detalhes me vieram no lance de um toque, e a dor de poder vê-los era tanta que larguei assim que pude o braço do jovem. Ele cambaleou mais uma vez e quase caiu. Uma gota de sangue escorreu de meu nariz e ensaiou também encontrar o solo. Marquel, com o corpo nu e ainda chamuscado, veio rápido até nós e segurou o pobre jovem antes que batesse com a cabeça no chão.

Vendo-o segurando Volme, eu logo disse desesperada:

– Não o machuque. Ele é… ele não entende, Marquel. Não deixe que eles o machuquem!

Meu desespero se justificava! A sensação que tive ao ver o passado de Volme naquele encontro de pele contra pele era a mesma que eu tinha nos sonhos herdados de Eleis. Eu não podia acreditar: Volme com toda certeza era um dos sujeitos de meus sonhos, mesmo que eu nunca tivesse sonhado com ele antes de tocá-lo. Isso era diferente de tudo que eu tinha pensado até então, mas não havia tempo para entender agora.

Marquel me fitou entre curioso e amedrontado, pois não sabia o porquê de eu estar ordenando que me garantisse a segurança daquele estrangeiro. Não era possível explicar, então apenas fiz ele se convencer de minhas palavras e me dar a promessa da segurança em um aceno com a cabeça. Por hora, eu teria de acreditar que Marquel manteria bem aquele sujeito.

Pouco depois disso, a uma brisa misteriosa, a poeira começou a ceder e sair pelas janelas. Eu cobri meus olhos evitando as partículas maiores; os guardas logo jogaram uma veste qualquer sobre o nobre nu, que carregava o estranho. Enquanto faziam isso, muitos já tinham se colocado ao nosso redor naquele largo corredor que levava à sala de reuniões. Pude ver pelas roupas que eram nobres riquíssimos, com toda certeza líderes das capitanias provinciais, com seus brasões nos ombros e peitorais. E, se não fossem pessoas importantes, duvido que tivessem tantos guardas poderosos ali, na companhia deles.

Eu me perguntava, é claro: para quê tantos líderes reunidos aqui?

– É Frida Lieira – pude ouvir alguns dizendo, olhando para mim, surpresos com minha aparição repentina.

O rei saiu, finalmente, da sala escura. Sua voz era forte e fez percorrer por meu corpo um calafrio quando me cumprimentou sorrindo, agradecendo pelo serviço que lhe prestei, ao segurar o jovem Volme de Campalha. Senti minha nuca queimar com alguma coisa, como se pingassem a cera das velas por sobre a pele dela. Minha mão foi até ali, removendo levemente o véu, e além da dor e do pulsar da pele encontrou uma espécie de pétala, que coloquei na palma da mão, sem entender do que se tratava.

– Eu não queria gastar um feitiço… – o rei comentou, tendo seus olhos fixos em mim. Eu? Enfeitiçada? Todos o acompanharam estupefatos, enquanto eu mexia na nuca vendo as pétalas minúsculas se esmigalharem e desaparecerem, e limpando do nariz o sangue que tinha escorrido. – Não era sob essas condições que eu esperava encontrar-te, Frida – o mandante assegurou, em seguida. Acrescentou ainda, com uma dose de cinismo: – Eu sinto muitíssimo por isso.

A voz humilhante combinava com aquele homem que, quando assumiu o trono, não devia ter nem quatorze anos. Baixei a cabeça, como todos os guardas fizeram, em reverência à sua presença, dobrando-me sobre os joelhos. A mão enluvada de Artur repousava sobre uma espada reluzente enquanto a outra estava pensa, as roupas eram como de seus militares, cheia de medalhas e adornos. Ao olhá-lo, senti medo, não por mim, mas por todo aquele povo que vivia sob seu domínio. A coroa na cabeça dele era um destaque, pois fazia com que mesmo os outros líderes presentes ali fossem meros serviçais à sua disposição. O seu semblante era severo e sempre cintilava em um brilho travesso, que parecia roubar a luz de nossos próprios olhos, incapazes de sustentar o seu olhar.

Assim, frente a ele, meu peito hesitava: não parecia a coisa certa… a de falar com aquele homem sobre os sonhos de Eleis, sobre os jovens mágicos que atormentavam meus cochilos. O que eu mais queria agora era partir junto aos meus de volta para casa, onde era seguro. Ter cumprido com o pedido do rei, mesmo sem que eu quisesse significava uma coisa: Magia. Era esse o feitiço que usou em mim! Aquela dor, aquelas pétalas, tudo isso fora a prova de uma habilidade mais que poderosa, uma verdadeira ameaça a qualquer um.

– Enfim – ele anunciou –, agora que a situação está controlada, continuemos a nossa discussão. Mas aqui mesmo, senhores.

Claramente, todos se sentiram incomodados com a postura assumida pelo regente. Eu também tinha ficado, mas estava feliz por não ser mais o centro das atenções. Isso, no entanto, durou pouco, pois, de súbito, Artur lançou contra mim suas duras palavras:

– Comecemos por ti, Frida Lieira. O que tinhas para dizer-me? – indagou, certeiro.

Não queria respondê-lo. Fitei os presentes, olhos nos olhos. Alguns, eu cheguei a reconhecer, mesmo sem saber de onde. Pensava em formas de contornar aquela situação: inventar uma mentira para o rei, falar sobre outro assunto. Mas qual estaria a altura de uma viagem tão longa até Tentos? Eu precisava ser convincente na mentira.

Mas Artur não me deu tempo para pensar. Bateu o pé no chão e sentenciou, com sua habilidade:

– O rei deseja que digas!

A nuca queimava outra vez, e, tal como a pedra cede à força da água que cai da ribanceira, respondi, inconformada e sem poder negar esse desejo:

– Eu herdei os sonhos de meu pai.

Estava dito, contra minha vontade, mas dito. Esperei alguma coisa da parte dele – coisa que não veio. Artur não se surpreendeu com aquilo: era como se já soubesse do fato. Os outros líderes, por sua vez, todos eles se tornaram eufóricos e logo mandaram os guardas aos cochichos atrás de mensageiros e escrivães para espalhar as notícias para suas terras. Era um escândalo! O rei observou calado a cena se desenvolvendo e se limitou a um suspiro profundo enquanto olhava para Marquel, que segurava o corpo desmaiado de Volme de Campalha. Havia no olhar dele certa curiosidade e certa treva, algo além do humano.

– Isso quer dizer que seu pai está morto… Mas isso não é mais uma invenção dele, ou é?!

O deboche era claro em seu tom e me irritou profundamente. Minha mãe tinha nos ordenado que esperássemos pelo menos um ciclo inteiro das estações antes de falarmos sobre a morte de Eleis para os nossos conhecidos. Lorna sabia que aqueles mais próximos a Eleis – ela, principalmente – precisavam de tempo para se organizar, afinal, sobre cada um deles, recairia o martírio da sabedoria, do lugar que antes ocupava meu pai, um homem que sabia tantos dos segredos do mundo.

– Eu tenho tantas perguntas a fazer – ele disse, quase num sussurro. Colocou no rosto um sorriso desafiador e mais uma vez me olhou com suas estrelas azuis, olhos nos olhos, dizendo palavras encantadas:

– O rei deseja saber onde estão os cadernos de viagem que ele escreveu!

Assim que ouvi as palavras, senti outra vez a nuca queimar. Meu corpo independia de mim para agir: lancei a mão dentro da bolsa, procurando o mapa que eu trazia comigo, dentro de meu diário. Eu não entregaria a ele, não é?! Eu o saquei rapidamente e estendi para que o rei pegasse. Eu não queria, não queria… mesmo assim, entreguei para ele o mapa, que revelava o caminho da volta para minha casa. Depois, me atirei no chão, deixando as lágrimas tomarem conta de meu rosto, incrédula. Nunca tinha me sentido tão humilhada; duplamente humilhada, por não ter dado ouvidos aos conselhos de minha mãe.

Alguém de repente avançou e se colocou entre mim e Artur, despertando a sede de batalha em todos os presentes, pois foram desembainhadas espadas e o clima logo ficou tenso. Eu ouvi o tilintar de moedas em um saco, o que me fez lembrar dos jovens de cabelos rubi, mas quem se abaixava diante de mim não eram eles, mas sim um homem velho, que segurou minha mão me olhando nos olhos. Seu nome era Alastor, conhecido por ser o Arauto de Ca – um suposto profeta do deus Vento, segundo um dos povos nativos – e um dos membros do antigo Conselho da Magia no norte. Tinha um porte relativamente magro, com marcas claras de uma idade sábia anunciada, revelada principalmente nas cicatrizes dos braços e do rosto; sua pele era mais escura que a minha e ele não se importava de deixar à mostra seus claros traços de nativo. Quando o vi, senti a familiaridade em meus olhos e, em um lampejo, me lembrei de que ele esteve também presente para a despedida de meu pai. Uma pessoa de confiança!

Alastor soltou a minha mão e pediu desculpas, que recebi sem cerimônias.

– Peço perdão por minha forma rude, minha jovem – ele falava com voz serena e encantadora. Depois se levantou e declarou contra o rei, de maneira completamente inesperada: – Paremos por aqui, Artur. Parece que você já tem o que quer, não?!

Marquel foi o único dos nobres do rei a não se mover contra o velho, talvez por ainda vigiar Volme de Campalha, deitado em seus braços, inconsciente. Os outros murmuravam sobre o desrespeito de Alastor, querendo avançar na direção dele, mas impedidos pelo medo de um poder desconhecido. O homem encarou todos que estavam diante de nós, coçou sua garganta e anunciou com tom forte:

– A senhora Frida Lieira está comigo! Quem quer que lhe queira o mal, será alvo da fúria de um homem sereno que governa os ventos. – Olhei para ele sem entender bem, antes que ele acrescentasse: – Também protegerei todos os que lhe são caros e que a acompanham! – virou os olhos na direção de alguns dos líderes das capitanias. – Isso inclui vocês, cavalheiros!

Começou diante disso uma confusão, pois, de seus lugares, os guardas enfim levantaram suas espadas e fizeram que avançariam contra Alastor. Eu não conseguia prestar atenção em nada disso, pois pensava, furiosa, em minha tolice e falsa impressão do rei, de sua cidade, de minhas leituras tão preciosas. Não quis acreditar nem ouvir as palavras dos que ma amavam, que tinham alertado que não era uma boa ideia ir até lá. Ainda assim insisti e agora estava ali, ridícula, frágil.

Alastor se abaixou ao meu lado e perguntou mansamente:

– Você veio com alguém para Tentos? – ao que acenei positivamente, pensando em Dito e em Nuno. O velho então se levantou e encarou os soldados ameaçadores, atirou ao ar sua capa, revelando as várias bolsas de moedas presas na calça e também os músculos fortes que envolviam seus ossos. Janelas fechadas em um instante se abriram, o vento abundante correu pelo corredor, furioso, anunciando a chegada de uma tempestade.

– Artur – falou um dos líderes, que também segurava o cabo de sua espada e olhava desconfiado para aqueles que o rodeavam –, nós não falávamos sobre aliados e inimigos em uma possível e futura guerra contra o sul?

Guerra? O comentário pareceu incomodar os outros líderes. Mas ele desencadeou uma tomada de posição, porque logo os presentes se moveram, indo encontrar lugar ou ao lado de Artur, o senhor daquela casa, ou ao lado de Alastor e do sujeito importante que havia se aproximado de nós. Foi ajustamente esse sujeito quem me estendeu sua mão branquíssima e me ajudou a me levantar, depois que pegou meu diário caído e cuspiu no chão, desafiando a todos. Ele me entregou meu caderno precioso e lançou para mim algumas palavras de consolo sobre a perda de meu pai e também sobre aquela situação desagradável.

– Parece que nós já terminamos aqui, Régis – anunciou o rei, deixando a raiva lhe subir pelo pescoço.

– Senhores – Régis falava –, vamos partir imediatamente. Não temos mais nada a tratar nessa casa de ratos!

Todos se moveram depois disso.

– Isso mesmo – sentenciou Artur, em seguida. – Desaparecereis daqui, antes que esses ratos famintos devorem todo o vosso queijo. Se estiverdes em Tentos ou em qualquer uma de minhas terras até amanhã de manhã, todos vós sereis mortos, sem chance de se redimirdes! Por sorte a lei da hospitalidade vos protege!

Régis buscou me dar apoio para caminhar, mas eu recusei: a ira estava em minhas pernas, braços e olhos. Nós procuramos sair dali e vi que Marquel levou Volme de Campalha até diante do rei. Foi impossível que eu o trouxesse para nossa companhia, por mais forte que eu desejasse. Um jovem tão importante agora estava tão perto e ao mesmo tempo tão longe… Eu poderia ter mencionado a Alastor que ele estava comigo, mas não queria ter mais esse problema: talvez o velho percebesse que era mentira minha e desistisse de me ajudar. Meu interesse em Volme não era apenas pelo vislumbre estranho, era também pela língua estranha que ele tinha falado e pela pele negra que ele tinha e pela roupa também estranha e por tudo mais. Mas tudo isso teria que esperar. Até quando? Eu não sabia. Sabia apenas que, agora, os problemas eram outros e não parecia haver respostas para as minhas perguntas.

Eu senti a mão de Alastor tocar meu ombro. E voltei-me para vê-lo.

– Nós devemos partir de Tentos, sem demora, Frida. Vá chamar seus companheiros.

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