Laços de memória: uma fantasia decolonial #2

Capítulo 2

Jogo de reviravoltas

Diante do enorme espelho, eu destrançava e trançava os cachos de meu cabelo, tentando ver a queimadura em forma de flor que a habilidade do rei tinha feito em minha nuca. A mão roçava aquela região, inchada, sentindo o lugar onde a morte tinha me beijado, quando escolhi ajudá-la a cumprir seu desejo: a cicatriz de Artur.

Todos os quartos eram vigiados de perto por alguém da confiança do rei Artur e, no caso de Alastor, o responsável era Marquel e mais dois guardas da Guarda Real: Boris e Tristão. Por sorte, o duque de Tentos era um amigo próximo do Arauto de Ca, e, nas palavras deste, um nobre “não convencional”. Ainda que contra a vontade dos companheiros que faziam a segurança em frente à porta do quarto, Marquel circulava livremente pelo aposento, entrando e saindo, trazendo informações preciosas para nós. Também não nos faltavam comida e água, servidos frequentemente pelos escravos do palácio.

Depois que perguntei a Marquel, ele contou que Volme de Campalha, o pobre estrangeiro, tinha sido levado para a prisão de Tentos e que dificilmente sairia de lá, pelo menos não com vida. Após o grave desentendimento, ele tinha o levado para lá, enquanto Alastor e os líderes e nobres que compactuaram com ele preparavam caravanas e carruagens que pudessem partir imediatamente daquela cidade. Régis e alguns dos outros estavam no pátio, preparando a enorme frota que sairia em breve.

Marquel deixava o quarto pela penúltima vez. Estava quase tudo pronto: eu já tinha me encontrado com Dito e com Nuno, e Alastor me ajudou a explicar para eles toda a situação trágica em que estávamos. O velho poderoso conhecia Dito, o que tornava tudo mais fácil, além de dispensar aquela palhaçada de escravidão de meu assistente e de Nuno: eles se abraçaram amavelmente e a conversa, ainda que breve, foi prazerosa. No fim, combinamos que eu, Alastor, Dito e Nuno, além de mais dois companheiros incertos, partiríamos antes que se deitasse o sol sobre o horizonte, todos numa mesma carruagem. Eu pensava em alguma maneira de salvar Volme antes disso, mas era apenas um delírio tolo. Pensava também nos dois jovens carmins que chegariam a Tentos dentro de alguns dias: eles não podiam ir para lá, era muito perigoso e eu precisava avisá-los disso!

A tensão era enorme no quarto em que estávamos e, mais o tempo avançava, maior ela ficava. Marquel entrou mais uma vez no quarto, despertando em nós uma angústia ainda maior, pois sempre que voltava trazia notícias ruíns. Eu olhava pela janela, vendo no pátio mais uma carruagem se preparando: nobres quaisquer entravam nela e, além deles, quatro dos guardas de Tentos, que tomavam lugar dentro e fora. O Arauto de Ca foi chamado para conversar com Marquel assim que ele chegou.

–… o quê? – ouvi Alastor exclamar, espantado.

Dito e Nuno, que se divertiam com um baralho na mesa, também pararam pela exclamação e se levantaram exasperados. O velho nos lançou seu olhar, o que entendi como um convite para ficar a par do que estava acontecendo. Dito fez um sinal para que eu me aproximasse, então atendi, ouvindo pela metade enquanto Marquel falava:

–… eu posso te ajudar a ficar aqui – dizia, e estendeu para Alastor um pequeno saco do qual pude ouvir o som do conteúdo: peças de ouro.

Alastor ficaria? Senti grande desconforto em saber disso. O medo que eu tinha aumentou, um medo por antecipação! Por conta do caminho que deveríamos trilhar até finalmente estarmos seguros, sem a companhia do Arauto de Ca. Eu não sabia se éramos capazes de deixar Tentos sem aquele velho poderoso e já tinha depositado nele uma boa dose de confiança. Quantos encantamentos eu precisaria lançar? Meu corpo daria conta? Também temia por ele próprio: o que seria de Alastor naquele reinado? Mesmo sendo amigo de Marquel, era muito perigoso ficar ali.

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Quando me aproximei ainda mais, o saco de dinheiro passou da mão do nobre para a do velho poderoso e a conversa logo cessou, os olhos sendo desviados. Alastor foi rápido em esconder as riquezas e fitou Marquel, esperando que ele dissesse alguma coisa para me afastar – pelo menos foi o que me pareceu. Ele então se irritou de repente e tomou o nobre pelo braço, exigindo que ele falasse o que quer que fosse. Depois do leve constrangimento, Marquel anunciou, se virando para mim:

– Estão preparando uma emboscada. E você é o alvo principal, Frida… Artur quer você como escrava no palácio, então ele não vai deixar que escape: não até ter o que ele quer.

– E o que ele quer? – As palavras escaparam de minha boca, pois estava incrédula demais para sequer pensar nelas.

– Como você pode ser lacaio desse desgraçado? – Alastor indagou furioso.

– Fale por você! – Marquel retrucou. Os olhos do nobre se viraram para a porta; atrás dela estavam os guardas e eles poderiam facilmente nos escutar se falássemos muito alto. Eu perdi a cor dos lábios e dos olhos e senti formigar o nariz. Olhei para Dito e Nuno, que, óbvio, perceberam minha reação negativa. O silêncio se alargou. Durante ele, todos os presentes puderam ler minha aflição. Alastor pousou a mão sobre meu ombro, como se dissesse: sinto muito. Sente muito? Ele e Marquel começaram uma discussão breve que não pude acompanhar graças à preocupação. Quão traiçoeiro podia ser aquele rei? Os reis não deviam ser bons, justos, como nas histórias? Alastor não viria em nossa companhia e ainda por cima preparavam uma emboscada desastrosa. Eu elaborava e reelaborava em minha cabeça formas de sair dos domínios de Tentos, e também de como chegar à terra segura – mas falhava miseravelmente em descobrir como. Quantos combates teriam que ser travados? Mais uma vez: quantos encantamentos eu precisaria fazer para fugir?

Só consegui firmar os pés na conversa entre o velho e Marquel quando o duque de Tentos revelou acanhado:

– Acho que tenho uma solução – disse. – Digo: tem uma maneira de eles saírem do reino sem serem vistos.

E como o silêncio apareceu mais uma vez, eu logo exigi:

– Vamos, então! Diga qual é, Marquel.

Ele fez uma pequena pausa antes que respondesse, olhando para Alastor:

– Turi… ela veio me ver. Está em Tentos e vai para… – começou a frase, mas antes que terminasse, Alastor levou a mão até a sua boca. Um brilho iluminava o semblante do velho, que concordou, repetindo alegremente:

– Turi, sim! Turi!

A minha boca continuava aberta e seca de medo, mas, pelo ânimo deles, aquela parecia realmente ser a única opção. Marquel adiantou, falando que pensava em Turi sempre como último caso, mas que não seria impossível nos tirar da cidade de forma clandestina. Nenhuma das minhas perguntas sobre aquilo foi respondida, nem por Marquel, nem por Alastor, e Turi ficou sendo um ser misterioso, mas ainda assim uma passagem segura para longe das terras de Tentos. O duque nos passou as instruções do que devia ser feito e, com isso, eu me permiti sorrir por um instante, pois suas palavras demonstravam total segurança e porque talvez nós realmente fugíssemos dali, depois de tudo.

Marquel nos deixou no quarto para finalizar os preparativos da carroça e da fuga. Eu chamei Alastor, Nuno e Dito para perto de mim, sentada na cama. Nossos farnéis já estavam prontos e os outros dois nobres que viriam conosco já tinham sido convocados também. Assim que conversamos com Nuno e com Dito, eles compartilharam da alegria de ter um plano para a fuga; chegamos até a fazer um tímido brinde naquele quarto. Mas restava uma pequena pedra de angústia em meu peito: os jovens dos olhos de rubi em breve estariam naquela cidade; depois deles, chegaria a criatura com sua lança; e, por fim, o guerreiro de olhos capazes de ver qualquer coisa. Se eles fossem pegos desprevenidos, como eu fui, o que eles poderiam fazer?

Eu tinha poucas peças no tabuleiro, mas precisava jogar com elas. Foi nesse momento que, com a frase de minha mãe em mente, eu perguntei para o velho que nos ajudara:

– Alastor, nós podemos mesmo confiar em Marquel? – Essa era minha primeira questão.

– Veja bem – o sábio começou sua resposta –, o duque acaba de cometer um gesto de traição contra a coroa: auxiliar na sua fuga. Acha que pode confiar nele depois disso?

Era fria sua resposta, mas certeira, como a flecha que erra a cabeça e acerta a maçã. Marquel arriscava perder seus títulos, posses, até mesmo sua vida só para nos tirar dali em segurança. O porquê disso pouco me importava agora, por mais estranho que parecesse.

– Então, eu tenho um pedido para vós… – falei. – Já que ficarás por aqui junto dele.

Me virei para Nuno e Dito, dizendo que eles já sabiam um pouco sobre o que eu ia contar, mas que tê-los ali comigo era importante para mim, ouvindo mais uma vez. Então, revelei para Alastor os detalhes de meus sonhos: as pessoas que chegariam até aquela cidade, sua possível ligação profunda com os sonhos de meu pai, que eu ainda era incapaz de entender. Ele me escutou lenta e pacientemente, acenando com a cabeça quando eu dava qualquer orientação. Escutando, Alastor confirmou para mim que estava disposto a fazer o possível para lidar com os jovens que chegariam na cidade, no entanto, colocou logo uma pergunta que me fez meu peito desabrochar e minha confiança titubear:

– Quanto vou ganhar em troca?

– Parece que você não muda mesmo, não é, Alastor?! – Dito interveio, irritado.

Não tinha tempo para pensar nisso e foi nesse momento que entreguei em suas mãos a ponta de tinta, presente de meu pai, feita de maidera nobre e ouro. Ele a segurou com graça, diante do espanto de Dito quanto àquele gesto. A caneta desapareceu em um dos bolsos de Alastor que voltou a se concentrar em nossa partida, concordando que aquilo era suficiente e perguntando se eu sabia lutar e se dominava magia. Eu não escondi que sim, sabia alguma coisa, e a mesma pergunta foi feita para Nuno e para Dito: meu irmão negou, mas Dito acenou confirmando, o que dividia nossa responsabilidade pelo jovem inexperiente. Por fim, fomos nos organizar, vestir e preparar o corpo para a viagem.

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Arranjadas as provisões para a fuga, passado um tempo, Alastor me convidou para conversar em particular. Carlos e Camilo, os membros da comitiva de Régis que nos acompanhariam, chegaram ao lugar onde estávamos e Dito e Nuno foram logo conhecê-los. Enquanto eles estavam na cama, eu e Alastor encontramos lugar fora do quarto, no corredor. Os dois guardas que nos seguravam foram dispensados pelo velho com palavras frias e fortes, o que fez com que ficassem a uma distância em que não nos podiam ouvir, mas ver e atacar, caso tentássemos alguma coisa suspeita.

Alastor amaciou o tom, antes que dissesse a mim o que queria:

– Eu tenho um… é… não é bem um amigo, Frida, seria mais como um conhecido meu. – Procurava as palavras certas para falar. – Seu nome é Malaquife!

– Malaquife? – questionei crispada, no mesmo instante em que ouvi o nome. – Mas ele… não está morto?

Não, não estava.

Alastor me explicou. Malaquife estava vivo, com mais de cem anos, e era quem mais precisava saber sobre a morte de Eleis e sobre os sonhos que eu vinha tendo. Eu precisava encontrá-lo o mais rápido possível, porque, apesar de conhecido de meu pai, ele não tinha aparecido para seu enterro, então era provável que não estivesse a par da situação toda.

– Além disso – completou Alastor –, acho que ele pode ajudá-la, pois é mais sábio e bem mais velho do que eu sou. Vai saber o que fazer, com toda certeza.

Ele abriu sua bolsa e procurou dentro dela alguma coisa para me entregar. Logo encontrou e sacou: a ponta de tinta que eu lhe havia entregado.

– É melhor que fiques com isso, Frida! – assumiu de repente um tom formal. – Dito me pagou a quantia necessária e não gosto de ser injusto nessas negociações – raspou a garganta, antes de continuar: – Além disso, tu deves cuidar muito bem dessa ponta. É uma memória muito importante. Então, não te desfaças dela tão facilmente.

Não me quis explicar absolutamente nada sobre o significado daquilo. Centrou as palavras em Malaquife, em seu paradeiro, dizendo ter a certeza de que ele estava envolvido com os conflitos no sul, provavelmente próximo à cidade de Ende e aos vilarejos no entorno dela. Confirmei que tinha entendido e que o procuraria assim que possível, sem prometê-lo, contudo. Pela janela ao fim do corredor, vimos desaparecer no horizonte o sol, fazendo o céu gemar: nosso tempo estava acabando. Guardei a ponta junto com o diário, em um pequeno estojo por baixo de minha roupa de algodão, emprestada pelo próprio Arauto de Ca, que eu estava usando por baixo do vestido longo. Também coloquei ali dentro algumas moedas que me foram entregues por Dito (ele estava escondendo dinheiro esse tempo todo?). Então, nós convocamos aqueles do quarto, pegamos nossas coisas e descemos para o pátio, acompanhados de Boris e Tristão, com suas armas reluzentes. Lá em baixo, esperamos pacientemente até que Marquel surgisse pelo portão e declarasse oficialmente nossa partida, com votos hospitaleiros de despedida.

Naquele espaço estava uma confusão danada: um número infindável de nobres, cavalos, guardas, escravos, condutores, tudo misturado e fazendo um barulho tremendo. Como poderiam fazer uma emboscada que desse conta de tanta gente? Eu não devia subestimar o poder de Artur, mas parecia muito improvável atacar todas aquelas carruagens e carroças. Da varanda de seu quarto no castelo, Artur nos observava sozinho, feito uma estátua, sem vida, mas o sorriso continuava em seu rosto, como uma chama no topo de um farol, o único brilho no meio da escuridão de sua face. Acenei para algumas figuras da nobreza que confrontou o rei de Tentos naquele corredor, mais cedo. Mas o que mais me impressionava era o número de Guardas Reais ali presentes.

Marquel veio primeiro a Alastor: cumprimentou e segredou aos ouvidos do sábio palavras que ninguém que não fossem eles pudesse ouvir. O velho pôs seus olhos sobre mim: singelo era o olhar. Em seguida, o duque se aproximou e confirmou o plano com um código que tínhamos inventado: em síntese, Turi nos esperava nos baixios do reinado, onde os escravos faziam suas casas pobres, perto da saída para o porto. Nós teríamos que correr até lá, pois a carruagem passaria pela viela principal que leva ao postigo do leste, e o tal Turi nos ajudaria a terminar a fuga, por entre os casebres confusos.

Vendo o movimento suspeito, Boris e Tristão vieram ao nosso encontro também. Nas armaduras que vestiam iluminadas, estava o símbolo que representava seu posto como braços direito do rei. As roupas lhes cobriam o corpo por completo e no rosto o suor se misturava com o pó branco, deixando aqueles nobres com um aspecto fantasmagórico.

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– Nós assumimos daqui, Marquel – reclamou um deles.

Dispensando os serviços gerais, eles deram ordens para que começássemos a subir no carro. Outras carroças já começavam a partir e o movimento diminuía lentamente. Os dois chamaram Alastor que, com poucas palavras, revelou para eles que não nos acompanharia na jornada. Os soldados se felicitaram com isso, dando risadas e se entreolhando. Por um momento, meus olhos se encontraram com os do velho sábio, amigo de meu pai, depois, com os de Marquel. Ele tinha no rosto um semblante tenebroso, de ansiedade, que me deixou aflita. Fui até eles para uma despedida final, assim que deram o segundo aviso para entrarmos na carruagem.

Chegando mais perto, o duque me fitou desolado com seus olhos nativos; ele suava como os outros guardas, ainda mais com todas aquelas vestes chiques e pomposas, usadas em um dia quente como aquele. O pó branco ganhava contraste, molhando com gotas que escorriam de sua testa, que faziam listras morenas em sua pele. Ele estendeu a mão para mim, mas eu não consegui conter o desejo de abraçá-lo, por tudo que estava fazendo, por isso me atirei contra ele e o apertei com força.

– Espero que tudo dê certo para vocês, Frida. – Ele cochichou, com uma dose de espanto por conta do meu gesto. – Meu povo tem uma dívida enorme com seu pai. Seria ruim vê-la capturada e feita escrava, mesmo que pelo nosso amado rei.

A mão gelada, escondida por baixo da luva de Boris, fez com que todo o meu corpo se arrepiasse quando ele me segurou pelo ombro e me separou do duque.

– Vamos, logo, queridinha! Chega dessa palhaçada.

Eu me soltei de seu toque e me virei para Alastor, fazendo uma enorme reverência e agradecendo também por tudo que tinha feito por uma jovem que mal o conhecia. Ele fez com que eu me erguesse e também me deu um abraço, que envolveu todo o meu corpo com aqueles panos e moedas por baixo deles.

– Numa última vez que estive com sua mãe, já faz um tempo… – ele se separou do abraço, continuando a dizer aquilo: – ela disse algo muito importante para a situação terrível em que estávamos: “seria ridículo morrer aqui”. Então, não morra, Frida!

Um sorriso surgiu em sua face e eu me virei para entrar na carruagem, com lágrimas nos olhos. A esse tempo outros Guardas Reais – inteirando, ao todo, seis deles – se ocuparam de nossa companhia ali no pátio. Eles impediam que Alastor e Marquel agissem e nós outros fomos empurrados para entrar mais depressa no nosso veículo. Um dos dois guardas – Tristão – também entrou conosco, se sentando ao lado de Dito, apoiando a sua espada no colo. O outro deles, Boris, se sentou junto do guia da carruagem e podia ser visto pela pequena janela da frente.

Partíamos – eu soube pelo balanço e pelo estalo do chicote. Ficavam para trás Alastor e Marquel e tantas promessas de cuidados e esperanças de uma vida tranquila naquele lugar. Nós cruzamos em silêncio o Pátio dos Nobres, os jardins, diante das casas mais ricas da nobreza, palácios menores do que o de Artur, mas tão belos quanto o dele. Eu logo estava pensando em tudo de uma vez só: quando seríamos emboscados? Será que matariam os outros, já que eu quem era a importante ali? Nós seguíamos em lentidão e o clima ficava cada vez mais denso. Era preciso apenas chegar até o portão que leva ao porto. Só isso. Mas não havia plano que eu pudesse seguir para me livrar daquele homem dentro da carroça, nem mesmo do que estava fora dela. Como correríamos para encontrar Turi?

Olhei pela janela buscando auxílio, mas não encontrei mais as belas casas da nobreza: bati de frente com o breu da noite, contemplando apenas a pouca luz daqueles homens que acendiam a lâmpadas e tochas lá fora, clareando os caminhos e ruas da cidade. Levei os olhos para Nuno, ao meu lado. O pobre jovem, bem como eu, suava, observando o cavaleiro em nossa frente, passando a luva metálica sobre a lâmina afiada, tudo ao brilho de uma pequena lamparina pendurada no teto do carro. Fitei os outros que nos acompanhavam ali dentro. Dito estava sério e olhava pelo canto do olho, como se esperando alguma coisa, mas revelava seu desconforto também, com as veias pulsando aflitas. Camilo deixava os cabelos esconderem seu rosto, provavelmente pálido como o de nós todos; e Carlos parecia balbuciar palavras – uma oração muda – pedindo auxílio para o divino.

Estavam todos contando com algum evento do acaso que pudesse nos ajudar naquela jornada. Lancei os olhos mais uma vez para Tristão, seríssimo, a lustrar a lâmina com a mão. Ele começou a orar, repetindo palavras que eu já ouvira na boca de sacerdotes. Era um homem magro, com um corte na face, branco como a nobreza costuma ser, nada demais. Nós precisávamos de um plano para nos livrar daqueles dois guardas… e, se não havia plano, o possível era apenas improvisar.

Esperei pacientemente olhando pela pequena janela, sob o canto religioso e o chiar feitos por Tristão, do contato entre o ar e a garganta, e do metal da luva e contra o metal da espada. Quando visse indícios do portão do porto – uma placa que fosse – eu agiria. Esperei. Agora, não.

Esperei. Ainda não.

Esperei, até que, por fim, assumi a ofensiva.

Chegou a hora: eu soube ao ver a lua refletida no grande lago às margens da cidade.

– Nós não poderíamos ir mais rápido? – indaguei o guarda, atuando.

– O quê? – Tristão estranhou minha postura, cessando o canto, incrédulo de eu ser capaz de dizer qualquer coisa diante daquela situação terrível que nos esperava.

– Digo, se ireis nos emboscar, já poderíeis tê-lo feito. E, se sairmos da cidade, será impossível. Não nos conheceis! Eu sou filha de Eleis, ou se esqueceste disso?

Era um blefe convincente, e todos colocaram seus olhos em mim suspendendo a respiração, como se perguntando: o que diabos você está fazendo? Eu me mantinha firme na pose e usei a manga do vestido para limpar o suor da testa da forma mais elegante e natural que eu podia. Tristão fitou os outros rostos dentro do carro, ainda a me contemplarem, depois, abriu a pequena cortina ao seu lado com uma das mãos, revelando a via onde estávamos.

– Marquel! Aquele desgraçado contou para vós? – Ele sorriu. – Nós ainda estamos na zona dos servos – esclareceu, mais para si que para nós. – A emboscada é ali na frente, quando cruzarmos a última das casas: tenheis só um pouco mais de paciência. Quando passarmos pelo postigo, tudo vai se ajeitar, minha cara madame! Só mais uns minutinhos.

– Não vamos passar pelo portão – eu afirmei. Ele me olhou entre curioso e desafiador. E, assim, tendo toda a atenção dele em mim, eu gritei: – nós ficaremos bem aqui! Dito!

Meus olhos se cruzaram com os de meu assistente como uma faísca que bem chega desaparece. Ao ouvir minhas palavras, ele se lançou sobre Tristão tentando segurar a espada. Como o espaço era pouco, eles se debatiam sobre o banco acolchoado, Tristão gritando palavras aladas contra Dito, que não lhe podia largar por nem um minuto sequer. Nuno começou a gritar e os outros dois estavam assustados demais para que pudessem agir em sintonia conosco. Eu senti que o movimento da carroça cessou. Isso era bom! Agora precisávamos sair dali! Então segurei o braço de Tristão, respirei fundo e lancei um encantamento poderoso, que percorreu todos os meus ossos até vazar pela boca:

– Ubi manus tua gladium tenebit petra illa fuerit. 

Quando terminei as palavras, Dito saltou para trás, dando com a cabeça no teto da carruagem e caindo sobre o banco, tonteado pelo baque. O Guarda Real conseguiu se erguer e quis pegar sua lâmina. Tolo! Assim que a sua luva encontrou o aço do gládio, a mão dele começou a se transformar: ela escurecia e endurecia diante de nossos olhos, ao que ele se espantava mais que todos. Com muito medo, os dois jovens nobres observavam aquilo acontecer, bem como Nuno. Só Dito e eu, cúmplices, entendíamos o que se passava.

– O que você fez? – Tristão gritou para mim, começando a chorar de dor.

Minha mão começou a latejar e o braço a doer: era o preço daquele encantamento. Sangue escorreu de meu nariz e senti o seco envolver toda minha boca e embolar minha garganta; os olhos ficaram turvos; o ouvido zumbiu. A mão que tocara Tristão agora estava pensa, solta: morta como as folhas que se desprendem das árvores ou o galho que secou, ferido. Isso não me impediu de sorrir, vendo a cena mudar a nosso favor.

Camilo tomou a espada do nobre em suas mãos e a apontou para Tristão, furando a barriga dele com a lâmina; o nobre gritou outra vez, e pareceu perder a consciência pela dor e pelo desespero de ter seu braço transformando em pedra. O jovem armado arrancou de meu rosto o sorriso, pois, depois de furar o nobre cavaleiro, apontou a espada para mim quando eu quis me mover, o que fez com que eu me assustasse e abraçasse Nuno com a única das mãos que estava boa. Camilo tentou desferir um golpe contra mim, mas Dito o impediu, dando um chute na espada, gritando contra a estupidez dele.

– Mate-os! – gritou Carlos para o outro. – São monstros! Mate-os agora! Veja o que ela fez com o guarda! Mate pelo menos ela!

Mas Camilo apenas pegou a mão de Carlos e abriu a porta da carruagem com um solavanco tremendo. O sangue do Guarda Real molhava o piso e o banco da carruagem e também nossas roupas, mas isso não importava. Eu e Dito assistimos perturbados os dois jovens nobres saírem do carro: nós ali, como animais indefesos. Vimos várias pessoas na rua, circulando a carruagem que parara repentinamente. Ofensas eram gritadas lá fora, enquanto os dois nobres se afastavam correndo e chorando.

Nós não esperamos mais. Descemos logo que os dois desapareceram, Dito primeiro, olhando se encontrava o outro dos Guardas Reais, que, felizmente, não estava ali naquele momento. O carroceiro estava morto, atacado, quem sabe, por Carlos e Camilo. Talvez o guarda estivesse também! Naquele lugar da cidade, entre casebres assustadores e pouca luz, eu sentia vertigem: como encontraríamos Turi? A multidão crescia para olhar o que se passava ali. As tochas e a luz da lua e das estrelas permitiam que se visse bem, por isso eu lancei meus olhos ao redor. Dito segurava meu ombro do braço ruim e eu segurava a mão de Nuno. Percebi, na distância, a luz dos astros refletida no Grande Lago, se perdendo em meio às embarcações tantas.

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Era o porto!

Avancei no meio da multidão de escravos e pobres, arrastando Nuno e Dito comigo, mas era difícil sair dali. O vestido limitava meus movimentos, fora que eu sentia minha mão formigar e as pernas fraquejarem por conta do meu feitiço soltado há pouco tempo. Quando tentei falar qualquer coisa para meus companheiros, percebi que estava impedida de dizer, pois a voz abandonou minha garganta depois do encantamento.

De repente, a voz de Boris bradou, de cima de um dos casebres:

– Parados aí, em nome do rei!

Nós lançamos os olhos na direção daquele urro carregado de irnonia e terror. Boris segurava a cabeça de Camilo em uma das mãos e parecia que todo o seu corpo estava envolvido por núvens escuras, como se o guerreiro assombroso estivesse se vestindo com a própria escuridão da noite. Aquilo só podia ser uma habilidade mágica! E todos se assustaram e correram desesperados diante de uma visão tão assustadora, procurando abrigo contra o monstro que Boris revelava ser. Também nos colocamos a correr desesperados, já que eu sabia qual era a direção do porto, só precisava continuar seguindo aquela via, rumo à parte mais baixa. Dito gritava para nos apressarmos enquanto avançávamos, mas era impossível ir mais rápido com toda aquela confusão e com aquelas roupas que limitavam meus movimentos.

Eis que de repente as luzes todas – das tochas, lamparinas, casebres, elas que já eram fracas – se apagaram por completo, transformando o caminho em um breu ainda mais espesso e terrível. Mesmo quando olhei para o céu e procurei auxílio das luzes noturnas, elas não podiam ser vista, como se sob o véu da noite estivesse outro véu, mais grosso e sombrio. Eu tropeçava e trombava em outros desesperados constantemente. Em um dos tropeços, cai no chão, e me perdi da mão de Nuno, e Dito soltou meu ombro. Por que eu tinha ido parar ali? Não dava mais para saber se estávamos perto do porto ou não. Os gritos da multidão não cessavam. Olhei para o céu mais uma vez: ele continuava envolto pelo véu mais escuro e sombrio.

Naquele instante, percebi o quanto eu estava cansada, tive sono e vontade de desistir, mas não me rendi. Eu me levantei ao som da voz de Dito, que nos procurava na escuridão.

– Aqui, Dito! – Nuno clamava. – Aqui!

Os olhos pareciam incapazes de se acostumar com aquela treva, mas, subitamente, vi um leve brilho balançando em nossa direção. Era acompanhado de um assobio tranquilo e cálido, que fez com que as pessoas se acalmassem diante da luz tímida. Mesmo o desespero de Nuno cessou, ao ouvir e ver aquela centelha de esperança no meio do caos. Porém, quando o brilho estava mais próximo de nós, me dei conta de que era uma espécie de lamparina, que foi erguida e iluminou a face sinistra de seu portador.

– Encontrei vocês, oras!

Nuno não conseguiu conter o desespero quando também compreendeu que a luz era de Boris. O cavaleiro tinha o rosto sujo de sangue. De quem? Quem mais aquele monstro tinha matado? Parecia não haver nada que eu pudesse fazer. Eu me senti frustrada, não só por minha fraqueza, mas por ter arrastado meu jovem irmão e Dito para aquela confusão toda. O desespero se reestabeleceu e a loucura se armou mais uma vez na multidão.

Por sorte, o assistente de meu pai conseguiu nos encontrar, depois de Nuno chamá-lo tantas e tantas vezes. Ele me ajudou a me levantar e reclamava furiosamente da escuridão que tornava tudo mais difícil, puxando com força nossos corpos que já não queriam se mover por conta do cansaço e dos machucados. Dito fez com que minha mão boa encontrasse a de Nuno e eu a apertei com força, sem querer soltá-la jamais. Senti, então, um abraço caloroso vindo de meu acompanhante, que falou ao meu ouvido:

– Vá, Frida! – E, antes que eu o segurasse e insistisse em absurdos mudos para arrastá-lo conosco, ele me empurrou e gritou: – Eu prometi para seu pai e para sua mãe que protegeria Nuno. Mas agora deixo isso com você, Frida! Proteja-o! Acima de qualquer coisa. Acima de sua própria vida: proteja o Nuno!

Aquelas palavras foram um baque tão forte que senti formigarem os lábios ainda mais. Como? Proteger Nuno? Mas não devia pensar nisso agora! Eu arrastei meu irmão sem me procupar com como Dito faria para impedir que Boris nos pegasse. Minha cabeça estava em turbilhão. Atrás de nós, eu ouvia barulhos de quebra, de aço e de gritos mil, mas isso era apenas ruído, ruído, ruído. Não sei por quanto tempo nós dois corremos a esmo na treve, tropeçando em pedras e pessoas; na verdade, perdida em pensamentos, mal percebi quando fui ao chão, depois de bater com o rosto em uma parede. Foi então que perdi Nuno mais uma vez, e só conseguia ouvir seu choro, chamando por mim sem parar. Estar naquela escuridão, o coração à galope, sem poder falar, sem conseguir sequer mover uma das mãos, me fez desejar silenciosamente pela morte, talvez a única solução para aquilo tudo. Mas eu não podia deixar Nuno sozinho, não só porque Dito pediu loucamente para que eu cuidasse dele, mas por uma questão de vaidade.

– Frida? – ele perguntou de repente, fazendo o choro parar. A isso, uma voz feminina respondeu:

– Não sou a Frida, menino! Levanta logo daí e esfregue os olhos! Eu sou a amiga de Marquel.

Era a sorte?

Eu fui ajudada a me levantar e soube que começávamos a andar mais uma vez. Sangue escorria pelo meu rosto sem que eu soubesse de onde ele nascia; eu estava mancando, sem sentir a maior parte de meus membros, apenas fisgadas de dor e formigamentos passageiros.

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Repentinamente, interrompemos a marcha e senti dois dedos passarem por minhas pálpebras. Pisquei uma, duas vezes, assustada e cai de bunda no chão, no entanto meus olhos gradativamente recuperar sua capacidade habitual e eu podia ver, ainda que tonta, um brilho claro e reluzente iluminando o corredor de casas e o chão. Ele vinha da mão de uma mulher, com mais menos minha idade, que o tinha como uma chama erguida na palma. Foi entre aquelas paredes imundas e escuras, e gente miserável, que avistei Turi pela primeira vez: suada, os cabelos negros quase pegando fogo, exalando uma magia única e intensa como um dos jovens de meus sonhos.

– Como você queria correr com uma roupa dessas? – ela indagou, cheia de informalidade, parecendo irritada. Estava se vestindo como um homem: calças longas, uma camiseta que deixava seus braços criolos completamente à mostra, botas de couro… bem, o quite completo. Se abaixou perto de mim, tirou uma adaga da cinta e me assustou quando a passou por meu vestido, destruindo o tecido e expondo minhas canelas à brisa da noite.

– Assim você vai conseguir correr! Levanta logo daí, mulher.

Apalpei minha barriga, sentido o volume da bolsa que tinha em si meu diário e a ponta de tinta e o punhado de ouro. Estava tudo ali. Segurei a mão de Nuno e, com a outra, a morta, eu me deixei conduzir pela estranha. Ela nos encaminhou passo a passo por entre os corredores e a gente escura e escrava, que olhava assustada para nós três. Éramos guiados por aquela região baixa e suja da cidade de Tentos, e, após algum tempo andando, cruzamos quase todo porto. A mulher nos levou para dentro de uma espécie de albergue, que tinha o povo bebendo, esbravejando e brigando, como se nada estivesse acontecendo lá fora.

Quando nos viram, eles pararam de súbito e um silêncio vibrou no ar.

– Deixem disso, idiotas! – a mulher estranha exclamou furiosa. E, apontando para mim, completou: – É só mais uma nobrezinha em apuros!

A afirmação pareceu acalmar os ânimos e os presentes voltaram lentamente a fazer seus ruídos e galhofas. Se estivesse mais atenta e bem disposta, não aceitaria todas aquelas ofensas que ela lançava contra mim. Mas eu me procupava com outras coisas: onde estava Dito, eu queria perguntar. Não sabia se o ajudante estava vivo a essa altura, deu sua vida pela nossa. Eu precisava seguir em frente, talvez ele sobrevivesse: se fosse preso, eu o tiraria das masmorras quando possível – assim pensei. Como eu não tinha voz por causa da minha habilidade, não podia conversar com ninguém, nem mesmo acalentar Nuno. O que fazer então?

Mas aquela nativa bárbara cortou meus pensamentos assim que lançou palavras fortes contra mim:

– Já estamos todos aqui?

– E Camilo? – alguém questionou. – Não! Falta o Camilo!

Era a voz de Carlos, aquele desgraçado!

Uma ira descomunal subiu por meus pés. Olhei para aquele jovem e branco nobre e avancei furiosa contra ele, acertando seu peito e o lançando no chão, fazendo com que gritasse. Depois, eu subi sobre ele, apertando seu pescoço com o antebraço. Ele se debatia e dava socos em minhas costelas, tentando me tirar de cima de seu corpo. Os pobres que nos assistiam ali na entrada do albergue riam e se divertiam com a pequena confusão, misturada com tantas outras dali. Foi a mulher estranha dos cabelos escuros quem nos interrompeu, quando percebeu que o jovem que eu enforcava já estava desmaiado, mais por fraqueza e susto do que por falta de ar.

– Nossa! Você quase matou o desgraçado, garota! – ela disse divertidamente. Em seguida, como se aquilo não fosse nada, se apresentou: – Eles me chamam de Turi – disse indicando os outros presentes ali. – Quem vocês são? – e nem esperou que respondêssemos. – É a tal da Frida, né?! Os pacotes do Alastor, né?! São os importantes, esse merdinha aí no chão não é.

Turi era uma mulher estúpida e miserável, pelo jeito, mas ainda assim uma mulher, o que me alegrou tremendamente. Mesmo que fosse desconhecida, e poderia até ser pior do que Alastor ou Marquel, alguma coisa em seu jeito rude me passava segurança. Ela colocou um colete, escondendo os braços e logo segurou minha mão e a de Nuno, começando a nos arrastar para fora daquele lugar.

– Vamos embora daqui! – falou. Eu resisti, olhando para Carlos, desmaiado no chão. Percebendo meu gesto, ela se antecipou, dando um solavanco para que eu me movesse, enquanto dizia: – Se esse branquelo aí for inteligente, vai se acostumar com a vida como escravo ou como marinheiro por aqui!

Furtivamente, ela nos levou para a rua, vigiando se havia alguém. Me pareceu ser uma pessoa muito influente por ali, pela forma como falava com todos que cruzavam nosso caminho: era constantemente cumprimentada e elogiada, despertando sorrisos. O número de pessoas na região era cada vez menor, e eu soube, pelo tipo de gente que passamos a contemplar, que nos dirigíamos até um lugar perigoso, dominado, com toda certeza, por bandidos e outros malfeitores do povo mais pobre.

Quando cruzamos por uma esquina, pude ver uma das varandas do palácio de Artur, o que me trouxe a lembrança de tudo. Dito foi quem veio com mais força a minha cabeça e eu logo quis arrastar Turi na direção de onde tínhamos vindo. Será que tudo estava acabado? Será que Dito havia derrotado Boris? Nós devíamos voltar para ajudar, buscá-lo talvez. Mas Turi era firme e continuou a me arrastar, reclamando furiosa quando eu quis fazê-la parar.

– Se for preciso, eu vou levar ocê até desmaiada. Então, cê me ajuda!

Nós entramos por um buraco em uma espécie de barracão abandonado. Fomos até o fundo, em um dos velhos quartos, onde dois mulatos mal encarados e enormes estavam sentados, cochichando, à luz de uma pequena lamparina. Eles se ergueram tomando em mãos lâminas afiadas e deformadas; pareciam muito assustados, talvez por não conseguirem nos ver direito.

– Tu… Turi… é ocê?

– É claro que sou eu – ela anunciou. – Medrosos! Nós tamo partindo. Antes que a gente do Artur nos ache.

– E quem são esses aí, Turi? – perguntou o outro deles.

– Assassinos, agiotas, nobres deserdados… você conhece a história! Agora, abre esse buraco.

Fiquei impressionada com a liberdade dela naquele lugar e com aquela gente. Os grandalhões sorriram e, então, enquanto um deles foi para fora, talvez vigiar, o outro começou a erguer várias tábuas do chão, revelando uma abertura por onde passava apenas uma pessoa por vez. Era um antigo alçapão, escondido no assoalho. Passamos um por um pela fenda, que dava em uma adega fedorenta. Turi empurrou um armário gigante me deixando mais uma vez impressionada. Fora as roupas masculinas e o jeito estranho de falar, que força sobrehumana ela tinha! Sem nem precisar de muito para fazer o móvel escorregar pelo piso de pedra, ela revelou que atrás do móvel havia uma escadaria, dentro de um novo buraco, de onde senti sair um fedor terrível. Só o aperto de Nuno em meu braço me convenceu a seguir adiante, quando a mulher avisou que deveríamos descer por ali.

Antes de entrar, Turi pela primeira vez se mostrou simpática conosco, me estendendo um lenço umidecido e ordenando que eu limpasse aquele sangue todo de meu rosto. Eu o fiz, enquanto ela escolhia duas garrafas quaisquer das bebidas daquela velha adega.

– Vocês bebem? – perguntou sorrindo. – Eu espero que sim!

Em seguida, descemos degrau por degrau, apoiados na parede para que não escorregássemos. A descida parecia não ter fim e não sei ao certo por quanto tempo nós descemos, sei apenas que quando encontramos enfim o fim da linha, chegamos a um córrego subterrâneo, inimaginável. Lá embaixo havia um outro homem suspeito, magro – não, cadavérico! – que coçava as mãos de uma forma estranha. Parecia doente, pois tinha um cem número de manchas brancas sobre sua pele escura, mas pareceu inadequado falar qualquer coisa. O homem nos recebeu com a boca aberta sem dentes, evidentemente espantado pelos visitantes inesperados que chegavam, ao que Turi respondeu e fez gestos curiosos: 

– Sou eu, Érique! Se acalma.

Turi ergueu e atirou uma das garrafas de bebida para ele, cedendo assim o temor que ele sentira. Ele acenou, sorrindo banguelamente uma vez batendo com a mão na mochila que estava a seu lado. Não, não era uma simples mochila: em altura, era maior que aquele homem magrelo – enorme, absurdamente grande, feita de couro e retalhos, toda envolvida com cordas. Felicitado, Érique se lançou sobre a embarcação atada à beirada de onde estávamos, colocou sua garrafa debaixo do banco depois disso, e indicou para subirmos também.

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Eu olhei desconfiada para o córrego subterrâneo – a água tão apodrecida – que eu não imaginava existir debaixo de uma cidade descomunal como aquela. O barquinho, longo como uma palmeira, estava atracado em um píer improvisado e não passava segurança alguma, mesmo assim o barqueiro nos convidou, estendendo a mão. Turi se adiantou e guardou a outra das garrafas de bebida dentro daquela mochila enorme, em seguida a levantou do chão, com sua força estúpida. Subiu com ela na embarcação depois disso, e a colocou sobre o piso, fazendo aquela canoa afundar um pouco e dividindo a parte em que ficaria o remante e uma outra, vazia, que indicou com a mão.

– Vocês vão ficar aí? Sobe logo!

Talvez pelo fato de eu estar ali, viva e com Nuno, tenha me motivado para que eu subisse no barquinho. Aconcheguei meu irmão como pude no meu lado; enquanto isso, Turi saiu mais uma vez à terra e Érique acenou com a cabeça para que ela soltasse a corda do pau. Ela o fez e pulou na embarcação outra vez, fazendo com que começasse a deslizar sobre o espelho de água suja. O barqueiro pegou do chão do barco um grande remo, que entrou na água até alcançar fundo, tão longo era ele.

A mulher rude finalmente se sentou, virada para mim e para Nuno.

– Eu tô muito cansado, Frida… – ele resmungou, com um princípio de choro na voz. Eu olhei fundo em seus olhos escuros, tentando consolá-lo, e levei minha mão boa à sua cabeça, começando um carinho singelo. Meu irmão reclamou de dores enormes e só então percebi os inúmeros cortes e machucados pelo seu corpo jovem. Eu também senti em mim dores demasiadas de todo o esforço que fizemos até ali, a outra mão ainda estava péssima, mas já era possível sentir alguma coisa da parte dela; isso significava que os efeitos do feitiço que lancei estavam começando a passar. 

Por qualquer motivo, as carícias que eu fazia em meu irmão despertaram uma crise de risos em Turi, que nem mesmo conseguiu se explicar, quando indaguei com olhos irritados a causa da graça.

– Você – ela exclamou – fazendo carinho em alguém como ele?

– O que queres dizer? – Nuno indagou, fazendo de suas palavras as minhas. – Como assim “alguém como eu”? A Frida é minha irmão…

Levei a mão para tapar sua boca, me lembrando das recomendações de Dito para mantermos segredo sobre nosso parentesco, mas já havia sido dito.

Primeiro, Turi quis contestar, mas, à sua maneira, logo deu o assunto como entendido. Estranhamente, ela ergueu uma das mangas e indicou seu braço, esfregando a pele, enquanto fazia uma cara bem estranha. O que queria dizer com aquilo? Era sobre os machucados? Como não falamos nada, ela sacudiu a cabeça e olhou para o outro lado, aborrecida. Se levantou na embarcação, que balançou de leve, depois disso. Vasculhou o farnel que estava atrás de si e pegou um pote de barro vedado com pano, preso em um dos bolsos. Ofereceu para mim, explicando que eu devia passar aquilo sobre as feridas de meu irmão e sobre as minhas. Estive desconfiada e não quis fazê-lo, mas Nuno logo tomou o recipienta da mão dela, agradeceu e começou a esfregar nos machucados aquela pasta verde. Depois, meu irmão me ofereceu e, vendo minha recusa insistente, devolveu para Turi o que era dela. Pediu, assim que guardou outra vez seu remédio, para dormirmos, pois em breve tudo estaria acabado: estaríamos fora da cidade.

– Se vocês quiserem, eu posso cantar – ela brincou, coçou a garganta e começou um assobio agudo e prazeroso, como o canto de um pássaro. De fato ela era nativa, então. Pude perceber e enciumar o olhar que Nuno lançou para ela, encantado com a técnica divina que habitava corpo tão bruto. Por sorte, ele não demorou muito a adormecer e meu ciúmes dormiu junto dele.

O tempo corria com as águas e, rendida pelo tédio, pelo cheiro e pelo cansaço de tudo que se passou, também eu me recostei num dos beirais da embarcação, fechei meus olhos e pensei pela última vez em Dito e em suas palavras. Proteger Nuno… de quem? Do quê? Eu precisava voltar para casa, precisava descobrir mais sobre isso, sobre aquela missão de Dito, dada por meus pais. Por que não haviam me contado? Eu nunca mais poderia saber: Artur agora sabia onde era minha casa e eu não podia voltar para lá. Mas e minha mãe? Será que tudo ficaria bem com ela? Onde ela estaria agora? Provavelmente… o cansaço… E tinha o tal Malaquife. Ele estava no sul… Onde? Procurá-lo ou ir para casa alertar minha mãe?… São tantas perguntas sem resposta…

Adormeci.

SINOPSE

Frida é uma feiticeira poderosa que, depois de morrer sucessivas vezes, ficou aprisionada na Terra da Memória. Tentando encontrar mais uma maneira de voltar para o plano dos vivos, ela relembra toda a aventura que a levou até o cárcere, desde quando era apenas uma jovem ingênua que saiu do conforto e da segurança dos muros de sua casa sem saber que do lado de fora encontraria um mundo violento, marcado pela corrupção, pelas disputas de poder entre nativos e nobres e pela escravidão.

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