Cinemancia, por Francisco Ewerton dos Santos – Parte 1

Este conto integra a coletânea de narrativas desenvolvidas para o projeto “Em um mês, um conto” e sua publicação no Duras Letras foi autorizada pelo autor. O conto abaixo apresenta conteúdo sexual explícito, não sendo recomendado sua leitura por jovens com menos de dezesseis anos.

Uma noite no Ópera

O terceiro cigarro aluiu junto aos outros. Eram nove da noite e Tereu pejava-se em frente ao Cine Ópera. Diante dele, um cartaz de um filme pornô dos anos 80,

A quinta dimensão do sexo

Um filme onde você viajará no mundo da luxúria e do prazer carnal.
Feito em todas as formas e modalidades de sexo imagináveis!!!

O Ópera não era uma novidade, quando jovem malparara-se por ali um par de vezes, a idade, contudo, trazia certa impressão de ridículo naquela espera.  Por mais que não tivesse quaisquer barreiras morais para entrar ali, não conseguia livrar-se da sensação de troça, qual pegadinha de programa televisivo dominical: “Jornalista feito de trouxa!” na legenda. Ainda assim, dirigiu-se ao guichê, comprou o ingresso e entrou.

Acomodou-se em uma fileira ainda vazia e aguardou o início do filme enquanto escrutinava o entorno. Memorava-se quase nada daquele espaço, no entanto, parecia que pouco havia mudado, exceto pelo axiomático depauperamento que a tudo roía. As capas de couro das poltronas amolambadas deixavam à mostra suas espumas caliginosas e eivadas. A madeira dos encostos escorchada. Ainda assim, algumas pessoas depositavam-se ali como se estivessem na sala de suas casas. Uns aos grupos de dois ou três, outros, como ele, reclusos.

A fita principiou. Letrinhas brancas sobre fundo vermelho. Arranjos de flauta ao fundo. Película anosa, imagem gasta, áudio estrídulo, narrativa pejosa, diálogos grotescos e atuações fragosas. Dois personagens (os protagonistas) tem sua homossexualidade pressuposta por seus colegas de faculdade visto serem sexualmente impotentes, dessa forma, são aviltados publicamente com os vocábulos “viado” e “bicha” e desenvolvem uma fórmula que os transforma em maníacos sexuais.

Bicha! Viado! Termos costumeiramente ouvidos por Tereu como invectiva desde a adolescência. Os colegas de escola costumavam ser cruéis com crianças qual ele. Já na universidade, tinha um amigo, o Sérgio, por quem se apaixonou. Sérgio era bonitão e comia todas as garotas do campus, e, ulteriormente, passou a comê-lo também. Sempre deixava bem claro: “eu não sou gay, você que é”. Evidentemente, isso não afetava sua lubricidade quando Tereu performava lhe uma felação exemplar. Após um tempo Sérgio afastou-se, passou a asperejá-lo. Certo dia, em uma discussão, ameaçou: “se espalhar por aí que sou viado te quebro todo na porrada. A única bicha aqui é tu!”. A única bicha aqui sou eu, ecoou. Nunca transpôs o desengano com Sérgio, chegou mesmo a fantasiar uma união estável e adoção de crianças. Recentemente esbarrou com ele em um supermercado, atabularam apressados: Sérgio nunca se formou, está casado e gordo, tem dois filhos pequenos, é cobrador de ônibus e nos fins de semana, quando acaba o expediente, sai com os companheiros de trabalho para beber. Ao se despedirem, deixou um número de telefone: “vamos marcar alguma coisa”.

Tereu já não sonhava com casamento e filhos, sobejou insulamento, converteu-se em uma espécie de anacoreta.

– Tá gostando do filme? – Tereu não percebeu a aproximação daquele desconhecido.

– Na verdade não.

– Realmente esse não é dos melhores, mas tem importância histórica. Foi o primeiro filme pornô com temática gay feito no Brasil.

– Sério? Não sabia, mas até agora não vi nenhuma cena de sexo gay, na verdade, não vi nenhuma cena de sexo que valesse a pena.

– Hahahaha! Verdade, pra um cartaz tão sensacionalista, é um filme bem soft.

Tereu esquadrinhou o rapaz na penumbra. Parecia bonito e jovem, com traços amenos, voz e trejeitos feminis. A conversa seguiu agradável, quando na tela iniciou uma cena de sexo grupal. Os protagonistas do filme penetravam simultaneamente uma mulher e a mão do rapaz resvalou pela coxa de Tereu, subindo lentamente. Ao voltar-se para ele, Tereu encontrou seus olhos encarando-o, o rosto com um meio sorriso e uma expressão de indagação como quem pergunta “posso?”. Diante do silêncio, o rapaz alteou sua mão em direção ao falo, deparando-se com seu rigor. Afagou-o, hauriu-o, masturbou-o e, finalmente, aboquejou-o. Tereu reclinou-se, cerrou os olhos e entregou-se àquele prazer oferecido tão desembaraçadamente, de cujo precedente já não lembrava.

Sem qualquer decoro, o rapaz desjungiu-se das calças e sentou-se sobre o órgão turgido. Um terceiro homem acercou-se e o rapaz passou a boqueteá-lo enquanto cavalgava. O enlevo tornou-se inebriante, a cabeça de Tereu rodopiou. Após uma breve apsiquia, lobrigou ter havido uma permuta de posições entre o rapaz e o terceiro homem. Volveu-se para o ecrã e divisou apenas borrões e rumores indistinguíveis. Sentiu a iminência de um orgasmo avassalante, capaz de arrebatar-lhe aos bramidos… então…tudo…suspendeu-se.

Continua

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Sobre o autor

Francisco Ewerton dos Santos nasceu em Belém, Pará, em 1986, onde reside e leciona Língua portuguesa e Literatura. Além do romance O Irressuscitado (Kazuá, 2017), publicou contos em revistas e antologias literárias.

Outros títulos do Em um mês, um conto

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3 Comments

  1. Muito interessante sua proposta!
    Estou aqui imaginando onde o cinema levará o personagem!
    Pra outra dimensão? Para o futuro?
    Estou bem curiosa pela continuação!

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