O sequestro, por G. R. Martins – Parte 1

Este conto integra a coletânea de narrativas desenvolvidas para o projeto “Em um mês, um conto” e sua publicação no Duras Letras foi autorizada pelo autor.

Todo mundo sabia que Isaac estava destinado a morrer sozinho, em seu apartamento. O que fazer? Não tinha outro futuro possível: o mundo já não era lugar para gente como ele. Pela lei, passava seu tempo quase que exclusivamente dentro do apartamento, com as janelas e cortinas elétricas fechadas, a porta trancada, o tempo se perdendo entre os catálogos infinitos da programação para velhos. Talvez por esse motivo houvesse tanto espanto em vê-lo na rua: os olhos rapidamente se fixavam nas telas quando ele se aproximava com sua roupa preta, óculos, máscara e a coisa toda; o semblante sempre noturno, marca de um passado já há muito passado, e incômodo. Atualmente, devia ser a pessoa mais velha do bairro – talvez da cidade, do estado ou do país – e ninguém gostava da velhice, não tinham tempo para a velhice, não mais.

Mas não tinha culpa de estar ali: foi convidado a deixar seu apartamento momentaneamente, porque ele passaria por grandes reformas naquela manhã. Precisava respirar um pouco. Parou subitamente sua caminhada, que já o levava de volta para casa, e os passos que irritavam a calçada se calaram. O smart no pulso apitou, estava com fome, tinha sede. Estático, diante da vitrine de uma loja qualquer, viu por trás de seu reflexo as geringonças “tecnochatas” que o povo adorava, a última moda do mercado americano. Ali fora, tudo parecia deixá-lo com mais idade do que realmente tinha. Levou a mão até o rosto e ameaçou abaixar a máscara. Hesitava, porque o ar, diziam, era mais tóxico quanto mais velho você fosse. São setenta anos, quem diria!

– Que se dane! Feliz aniversário, seu velho desgraçado! – exclamou e colocou a máscara no queixo.

Não foram mais que cinco segundos, mas o suficiente para se sentir jovem, ainda que censurado pelos olhares dos passantes. Voltou a admirar a própria imagem e a tecnologia da moda, atrás dela. Sim, o novo tinha realmente tomado o lugar do velho. Quem dera pudesse ser outra coisa, e não despertar toda aquela desconfiança que tinham dele. Não sabia desde quando o mundo tinha se tornado tão noviço – e daí que no tempo dele eles escreviam e-mails, trocavam mensagens em aplicativos e metiam a língua no governo pela internet? Só que agora era diferente, o ar era tóxico para ele, a gente era para lá de desagradável e as máquinas faziam muito mais do que assar pão de queijo ou pegar a encomenda no correio.

Voltou à caminhada, reclamar era o que movia seu cotidiano, e, fora da segurança de casa, não faltavam motivos para reclamar. Era caso de aceitar: as coisas nunca mais seriam do jeito que ele gostava, nunca mais vão ser – Isaac pensou – e não tem por que pensar nessas coisas. 

Chegou no prédio, com velocidade cruzou a porta e a entrada e já estava dentro do elevador tentando passar o cartão. O SSystem por algum motivo não autorizava a subida para o apartamento e, não recebendo sinal nem na segunda, nem na terceira tentativa, encheu o painel de pontapés para ver se mudava alguma coisa, mas nada. Como não tinham mais porteiros – nem reuniões de condomínio ou síndicos – não sabia o que fazer. E mal se lembrava do nome da vizinha de baixo, para interfonar.

– Acho que é Dolores… – murmurou.

– Com licença, senhor.

Isaac levantou os olhos e tomou um susto quando viu aqueles três sujeitos grandalhões e medíocres, uniformizados e mascarados, trazendo no lombo caixas enormes de alumínio. Eles praticamente o empurraram e ele se apertou no fundo do elevador, sem poder dizer coisa alguma. 

– Alex, andar oito – disse o último dos funcionários a entrar. Era o andar de Isaac. A porta então se fechou e o leitor mostrou o dígito da casa. – Viram? Já tá funcionando.

Diante daquilo, Isaac não pôde deixar de expressar sua estupefação.

– Que diabos?! – exclamou furioso, ao que o mais próximo dos homens sorriu e se afastou, arqueando a sobrancelha para o velhinho. O gesto dele deixou Isaac ainda mais irritado. – Essa é a minha casa! Vocês são ladrões! 

– Que é isso, senhor! O senhor é que é o senhor Isaac? 

– Sim, rapaz! Eu é que sou o senhor Isaac.

– É, senhor…? – o outro ensaiava explicações, titubeante, enquanto o velho diante dele fervilhava de raiva e de preocupação. Se Isaac fosse mais novo… Ah, se eu voltasse à flor da idade! Ninguém entraria em sua casa daquele jeito. Ninguém! O que é que queriam afinal? Restava reclamar! No boné do funcionário, ele viu a estrela e o logo da empresa do momento: a Touchless, símbolo que estava estampado em todos os lugares que os olhos podiam alcançar. 

– Olha, não tem jeito – o sujeito falou coçando a barba, quando Isaac disse que iria processá-los ou coisa parecida. – Agora é lei! Todo apartamento com morador de mais de cinquenta anos tem que ser adaptado! Vai ser tudo via conexão One.

– É lei? Via conexão One?

– Isso mesmo!

Era incrível o poder que uma palavra podia ter: uma palavra conhecida. Ouvir o funcionário dizer “lei” serviu para acalmar os ânimos de Isaac, desfazendo a raiva que sentiu. Lei ele sabia bem o que era e disso pouco podia reclamar. Mas quando pensou na tal “conexão One”, não demorou a se vestir mais uma vez com o véu da tristeza. Realmente, estava velho, as leis tinham mudado e eram piores para gente como ele. Não podia sair e agora tudo seria via conexão One.

O elevador cortou o prédio como uma bala até chegar no andar de Isaac, onde a porta se abriu sem qualquer ruído. Enquanto meditava silenciosamente sua velhice no fundo do elevador, os três funcionários descarregaram as caixas pesadas. A casa estava uma zona… mas, para quê se importar, se não recebia visitas? Nem mesmo no aniversário de setenta anos… 

– Você vem, senhor Isaac?

– Pois sim.

– Pode ficar lá no quarto. A gente já acabou por lá!

– Tudo bem. Obrigado.

Os mais velhos não podiam entrar em contato com ninguém, sem abraços, cumprimentos de mão, nada! Era mesmo caso de “ficar lá no quarto”, porque a vida estava reduzida ao holochate. Foi para o aposento ao som dos cochichos e olhares dos três operários que armavam um fuzuê em seu apartamento, trocando lâmpadas, abrindo as paredes, instalando painéis e tudo mais. Com toda certeza, ele era o assunto do momento, sua idade incômoda, praticamente alienígena no meio de tanta novidade. Entrou, acendeu as luzes, bateu a porta, tirou a máscara e depois os sapatos, atordoado e perdido em sua solidão, um homem destinado a morrer sozinho: velho e sozinho. 

– Bem vindo à casa, Isaac – uma voz falou, de repente. A frase mal tinha terminado, o velho sobressaltou, gritando e colocando a máscara sobre nariz e boca:

– Quem tá aí? Quem falou?  

– Desculpe-me – disse monotonamente a voz vinda do nada. – Eu me chamo Alex e sou seu assistente One. Espero aprender com você sobre como eu devo agir com e como você. Por isso, pense em mim como um novo órgão do seu corpo, uma nova parte de você que…

– Eu não pedi nada! Não quero problemas! – Isaac o interrompeu.

– Não quero incomodá-lo e não fui programado para cometer erros. 

A isso, Alex emendou um longo e tedioso monólogo, explicando para o velho, em minúcias, toda a história, desde a origem do One, com o famigerado “Caso Alexa”, até o ano corrente, de 2071: toneladas de progresso.  Também explicou como se dava o processo de adaptação e de educação do assistente One e finalizou asseverando de que aquela baboseira toda só seria esclarecida uma vez, porque, depois, Alex se esqueceria dela também.

– Então… você é um tipo de criança robô?

– Acho melhor você não pensar em mim desse jeito, porque o que eu mais quero de você é sua confiança, e quem confia em robôs? – perguntou em deboche e fez uma pausa, antes de continuar: – Também quero saber o horário em que você acorda, seus programas e comidas preferidos e isso… e aquilo… Eu só quero aprender tudo sobre você, Isaac. Assim a gente vai viver… vai viver bem… 

E as palavras continuaram em uma enumeração caótica, ríspida e sem emoção. Mas ecoaram e preencheram o quarto como um abraço caloroso, colocando lágrimas nos olhos de Isaac. 

– Mas por que você está chorando?

– Eu não sei.

Continua

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Sobre o autor

G. R. Martins é a identidade supersecreta de Gabriel Reis Martins, leitor e escritor em formação, graduado em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais. É, nas horas vagas, editor do blog Duras Letras (este mesmo, em que você está), autor de poucos poemas publicados online e de um livro de contos com uma pegada realista. Ainda um marinheiro espacial que acaba de embarcar em sua primeira viagem no multiverso da ficção científica, em outra realidade, G. R. Martins é home-officer, casado e tem uma cadela linda.

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10 Comments

  1. Ambientação e personagens muito bem construídos. Uma previsão de futuro muito coerente com o que vivemos no presente: ar perigoso, restrição de atividades presenciais (sobretudo para grupos de risco, como os velhos) e consequente crescimento dos serviços on-line. Estamos em transição para uma nova era e seu conto capta esse espírito. Aguardando os próximos episódios.

    Curtido por 2 pessoas

  2. Adorei!
    A trama questionando sobre a velhice é tão importante e com esse ar futurista, vai nos fazer refletir.
    Estou mega curiosa pela continuação, acho que Isaac vai revolucionar muita coisa!

    Curtido por 2 pessoas

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