Poeira espacial, por Liliane Alves – Parte 1

Este conto integra a coletânea de narrativas desenvolvidas para o projeto “Em um mês, um conto” e sua publicação no Duras Letras foi autorizada pela autora.

É curioso como a gente nunca sabe quais serão nossas últimas palavras a alguém, e nunca diz o que deveria ter dito, depois fica pensando no que poderíamos ter feito de diferente. Me sinto um idiota quando penso na nossa última conversa, e fico repassando aquela briga. Realmente era irritante toda aquela cobrança, aquele ciúme. Ciúme do meu trabalho. Onde já se viu? 

– Você acha que é fácil pra mim criar nosso filho sozinha enquanto você fica brincando de turista espacial? 

– Não é brincadeira, nem passeio. É meu trabalho.

– Você acha o vazio do espaço mais importante do que a sua família. Desse jeito você vai acabar vivendo no vazio sozinho. 

– Vocês são muito importantes para mim, mas minhas pesquisas são importantes para o mundo.

– O que tem de tão importante em estudar poeira? Eu varro a casa todos os dias e não vejo graça nenhuma. Por que a sua poeira é melhor do que a minha?

– A poeira espacial é diferente. Já sabemos que ela pode afetar os sinais de satélites e que podemos fazer o lixo da Terra virar partículas de poeira e mandar para o espaço. 

– Mas isso é antigo, foi descoberto antes do teletransporte. Eu lembro, eu ainda era criança.

– Sim, mas agora, temos indícios de energia negativa. Estamos fazendo testes e segundo os meus cálculos, podemos concentrar e acelerar essas partículas de poeira no espaço, combinando o domínio da energia negativa e energia escura, podemos fazer um buraco de minhoca aqui no Sistema Solar, perto de Saturno.

– Não quero saber de Saturno. Seu filho tem três anos, ele nem sabe o que é Saturno. A única coisa que ele sabe é que o pai dele prefere trabalhar do que brincar ou conversar com ele. 

– Mas eu o amo. Ele sabe disso.

– Ele não sabe, não. Nem eu tenho tanta certeza, imagina o Neil. Ele se sente rejeitado e eu também. Pelo jeito, vou ter que virar poeira espacial pra você me dar um pouco de atenção.

– Você tem que entender que é esse trabalho que mantém a casa. Se eu não trabalhasse tanto, você não teria essa coleção infinita de sapatos!

E ponto. Essa foi a última coisa que eu disse. Poderia ter dito algo menos idiota, mas agora é tarde. Ela está morta e não posso fazer nada para mudar o passado. Ou será que posso?  

Aquela briga me fez tomar uma decisão que talvez ela desaprovasse. Antigamente existiam cemitérios onde as pessoas enterravam os corpos dos entes queridos, mas hoje em dia com a superpopulação mundial (e não para de aumentar), custa ter espaço para os vivos, quem dirá para os mortos, especialmente depois da última grande guerra e da última grande pandemia. Então, quando morre alguém, todos são cremados, e geralmente a família espalha as cinzas em algum lugar, ou coloca em urnas e faz disso objetos de decoração. Mas eu decidi fazer diferente, decidi espalhar suas cinzas pelo espaço, perto de Saturno. Eva viraria poeira espacial. 

Não sobrou ninguém da família para requerer as cinzas de Eva. Ela não tinha família a não ser eu e Neil. Coitado! Foi levado para um lar temporário, já que passo a maior parte do tempo na Lua. Me preocupo com o futuro dele, e com o que o garoto deve sentir e pensar de mim. Provavelmente me odeia e me culpa pela morte da mãe. Mas eu nunca tive escolha. O trabalho sempre exigiu bastante de mim, e pensei que o dinheiro resultante de tanto empenho fosse o bastante para os dois viverem bem. Nunca estive mais enganado.

O projeto se desenvolveu e os estudos e teorias se intensificaram. O buraco de minhoca se formou em menos de dois anos, era fato. Estava lá próximo a borda interna dos anéis de Saturno. Meus colegas especulavam sobre infinitas possibilidades. As condições de viagem até lá, o risco da dobra espacial eram pauta. As teorias de bifurcações e multiverso quando se comprime a malha do espaço-tempo eram discutidas, e o termo viagem no tempo foi citado. 

Era loucura, eu sei. A própria ideia de viagem no tempo é paradoxal. Eu cresci sendo hipnotizado pelo paradoxo do avô. Mesmo assim me candidatei para essa viagem kamikaze. Eu precisava ir ver de perto, e se houvesse uma chance de realmente poder voltar no tempo, eu tinha que tentar. Eu era um dos únicos que não tinham nada a perder. Minha esposa estava morta, e meu filho me odiava e já tinha um novo lar, provavelmente melhor do que eu poderia proporcionar a ele nessas circunstâncias. Se eu pudesse voltar no tempo, salvaria Eva, e seríamos uma família novamente. Não tive escolha, senão tentar resolver tudo, ou morreria tentando, assim traria respostas à ciência moderna. Embarquei esperançoso a bordo da nave Silmarillion e parti da base lunar em direção à Saturno.

Agora estou acordando do sono Delta me aproximando de Mimas. Ela me dá um certo medo, pois lembra a estrela da morte, uma arma bélica com potencial devastador que vi num filme muito antigo quando criança e que talvez não tenha sobrado nem poeira. Enfim, estou bem longe de casa. Olho para trás pelo vidro da escotilha e vejo o pálido ponto azul que antes chamei de lar. Olhei tanto para fora, para as estrelas, e agora que estou fora, tenho medo de nunca mais voltar. Não consigo ouvir nenhum ruído fora dos meus fones de ouvido. Sigo sentado nessa lata de sardinha, temendo que a qualquer momento tudo vai dar errado. As luzes piscam silenciosas no controle de navegação automática.

A vontade de dar meia volta, sentir a gravidade me ancorando a um chão firme, ver e beijar meu filho mais uma vez é quase maior do que a vontade de pagar pra ver aquilo em que passei a vida trabalhando e que custou a vida de minha amada esposa. Coloquei a urna aberta no compartimento de ejeção e dei um último adeus à Eva. As lágrimas fizeram de meus olhos dois aquários, pois sem a gravidade não podiam rolar pela face. Levei um susto quando o computador de bordo enlouqueceu, sons de alarmes e luzes piscando invadiram a cabine. Era o aviso de proximidade com a bolha desconhecida, e com a iminente dobra espacial. Coloquei o traje espacial e tratei de me sentar. Então dei adeus ao Sistema Solar, aos anéis imponentes de Saturno e mergulhei na bolha.

Continua

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Sobre a autora

Liliane Alves é formada em Pedagogia e tem especialização em Neuropedagogia e em Psicanálise. É também escritora, tendo publicado o livro infantil A girafa e a melancia (Editora Uiclap), o romance Pérolas Amarelas (Editora Modo) e ter trabalhos lançados na antologia Cartas de Amor (Editora Panóplia). É amante de todos os tipos de arte, da ciência, da natureza, da vida, do universo e tudo mais; apaixonada por astronomia e pelos estudos do universo como um todo, até mesmo daqueles mais particulares, que habitam cada mente. Por meio de sua escrita, ela tenta criar novos universos, onde outras mentes possam habitar.

Outros títulos do Em um mês, um conto

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20 Comments

  1. Eu gosto muito da ambientação… Mas acabo dando mais atenção e me envolvendo muito com os conflitos internos dos personagens. E amei a maneira com que você construiu o seu protagonista e esse conflito que ele vive: o que é importante para ele e o que é importante para o coletivo, para a humanidade. Ansiosa para ler mais sobre a aventura e descobrir quais decisões ele irá tomar.

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  2. Gostei! Muito bem escrito!
    Tudo bem que a ciência me deu um nozinho na cabeça, mas ai a culpa é minha rs
    Gostei bastante da premissa e do desenvolvimento, quero ver para onde vamos daqui =)

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  3. Excelente reflexão introdutória. Mergulhei de cara no conflito do protagonista. “Vocês são muito importantes para mim, mas minhas pesquisas são importantes para o mundo”. Lembra a relação pai e filha de interestelar”. Fiquei curioso para conhecer os desdobramentos dessa aventura espacial!

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    1. Quando fala em ficção científica, interestelar passa inteirinho na cabeça da gente né? Me inspirei nele também. Acho que vai gostar da segunda parte.

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  4. Parabéns…achei bem interessante o conflito do personagem. Imagino q esse tipo de problema nas famílias devam realmente existir, é uma profissão muito difícil de ter um equilíbrio. Ansiosa pela continuação.

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