Cinemancia, por Francisco Ewerton dos Santos – Parte 2

Este conto integra a coletânea de narrativas desenvolvidas para o projeto “Em um mês, um conto” e sua publicação no Duras Letras foi autorizada pelo autor. O conto abaixo apresenta conteúdo sexual explícito, não sendo recomendado sua leitura por jovens com menos de dezesseis anos.

Os espreitadores

O tempo sustou ou dilatou, apenas o filme decorria normalmente na vultosa tela: os protagonistas estavam despidos, sentados em uma cama, lado a lado, aparentemente conversando, pois gesticulavam e mexiam as bocas, por mais que não se ouvisse o que falavam. Em seguida, beijaram–se.

Quando terminou o beijo, voltaram a dialogar, e dessa vez Tereu pôde escutar suas falas que reverberavam no sistema de som do cinema, no entanto, suas vozes eram outras, como uma dublagem:

 – O espelho é o último reduto da morte.

 – A morte não se realiza.

 – Por isso os espelhos são abomináveis.

 – A morte é desnecessária.

– Os que supõe, cultuam, temem ou carpem a morte, nada entendem da existência.

 – O espelho nada entende da existência.

 – Por isso os espelhos são abomináveis.

 – Há uma parede em Bethlehem, em frente ao rio, paralela ao mercado de peixe. Nela, durante muitos anos, olhos de outra esfera espreitaram os passantes por janelas estáticas. Estes não se atentavam para o que ocorria, acreditavam se tratar de uma pintura. Um dia, um deles, afetado por algo desconhecido, fez o que nenhum outro faria, por considerar insanidade, e atravessou uma dessas janelas, penetrando um universo errático e inconstante. Ele consistia apenas no interior de um prédio interminável, de infinitos andares. Os residentes daquele edifício quedavam enclausurados (por arbítrio incógnito) em uma área variável, podendo ser um apartamento, um quarto, uma cama, um canto do corredor, ou uma janela (o que explicava os espreitadores às fenestras). Eram circunspectos. O único que podia deslocar–se pelo prédio era o visitante. Ele logo percebeu que, não importava o quanto perambulasse ou quantos andares subisse e descesse, os lugares eram reiterados com algumas diferenças. Se um apartamento se repetia, por exemplo, seus vizinhos eram outros. Suspeitou já ter descortinado tudo ali, conquanto tudo se transfigurasse constantemente.

– Tal quando desperto evocando um sonho, incerto de tê–lo sonhado pela primeira vez naquela noite, ou em alguma precedente, ou ainda se o tenho sonhado regularmente noite após noite.

  – Concluiu, também, que o tempo não agia sobre nada ali, apesar da ruína geral, e não havia como saber se era dia ou noite, pois a luz externa não entrava no edifício. Dentro, a iluminação era sempre crepuscular, com cintilações lassas e amarelecidas. A umidade tomava tudo, empapava as paredes, gotejava do teto e queimava as lâmpadas (que logo voltavam a funcionar por conta própria).

 – E quanto aos habitantes do prédio?

 – Não se comunicavam por meio de nenhuma forma de organização linguística. No entanto, bastaria alguém adentrar sua circunscrição para tomar contato com outra existência experimentada por aquele residente. Cada um deles possuía uma vida plena e complexa em outro tempo e espaço. Eram entes de uma narrativa própria, de um universo próprio, que não podia ser compartilhado com os outros moradores, exceto com o visitante. Este poderia, então, aceder a um sem número de relatos, e abstraiu–se andejando por esses sítios.

 – Como num jogo especular.

 – Os espelhos são abomináveis pois resumem a existência.

Continua

Confira a parte 1

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Sobre o autor

Francisco Ewerton dos Santos nasceu em Belém, Pará, em 1986, onde reside e leciona Língua portuguesa e Literatura. Além do romance O Irressuscitado (Kazuá, 2017), publicou contos em revistas e antologias literárias.

Outros títulos do Em um mês, um conto

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