Macromegacidade de São Paulo – A terra de ninguém, por Humberto Lima – Parte 1

Este conto integra a coletânea de narrativas desenvolvidas para o projeto “Em um mês, um conto” e sua publicação no Duras Letras foi autorizada pelo autor.

Quinta Feira, 05 de outubro de 2435. 11h, Macromegacidade – SP, Brasil.

Ele anda pela estrada tomada pelo fog de cheiro adocicado.

Seu nome é Jack. Não que isso importe.

Ele não tem mais um nome para o mundo. Deixaram de ser necessários assim como várias outras coisas que se foram, como a civilização. Seu rosto é magro, mas não esquálido como o de outros que encontra pelo caminho, é um homem alto, com pelo menos um metro e noventa, enquanto a média geral é de um e setenta.

Não que isso o torne especial.

Não existem mais pessoas especiais, não depois do fim do mundo.

Não depois dos americanos e dos Neosoviéticos terem apertado os botões.

Toda a fronteira norte e as principais capitais dos EUA foram atingidos pelas bombas de hidrogênio. Em contrapartida o leste da Europa se tornou um deserto radiativo. O padre da igreja Luterana disse, quando as igrejas ainda eram lugares de redenção e não de medo e horror, que isso fora nossa punição pelo que fizemos no Japão e na Coréia séculos antes.

O homem magro era conhecido como Jack Eight nos Fuzileiros Navais, e hoje não consegue mais usar plenamente a mão esquerda. Diferente dos americanos deformados pela radiação, seu ferimento foi feito durante a segunda guerra das Coréias. Um tiro de Kalashnikov monoplasmática destroçou sua mão, que mesmo passando por várias cirurgias, nunca mais funcionou plenamente.

Deu baixa honrosa do exército americano e ganhou uma medalha das mãos do Presidente Trautmann por matar oito coreanos neocomunistas com apenas uma mão e uma pistola de cinco tiros de plasma. Os últimos três, com o cabo da pistola. Ao menos eles conseguiram acabar com o Regime de Jil Il Kim II, transformando o país asiático em uma democracia novamente após séculos de ditadura.

Deveriam ter prestado mais atenção em seu próprio quintal, pois enquanto lutavam para levar o capitalismo pelo planeta, a podridão começou a corroer o sagrado solo americano.

Há! Medalhas! Pedacinhos de ego folheados a ouro que os mortos ostentam no peito.

As suas medalhas foram penhoradas há tempos.

Com o dinheiro veio para o Brazil. O país que estava se tornando um dos melhores para se viver, após a segunda Guerra Civil americana destroçar a sua nação de origem.

Se soubesse que tudo ia ficar tão ruim no Brazil também, teria fugido de volta para os Estados Unidos, seu lugar de origem, ou talvez ido para a Europa, se bem que as últimas notícias que recebeu antes dos sistemas de comunicação pararem é que a situação lá não estava muito diferente.

Talvez os países do Sudeste asiático fossem melhores. Mais florestas significava mais ar respirável.

Mesmo sendo lugares atrasados e pobres, não descambaram para a situação miserável dos EUA e do Brazil, pelo menos, ainda não haviam descambado.

O fim do mundo não aconteceu como esperavam. O mundo está acabando em um gemido, não em um estrondo1.

 Hoje ele caminha pela paisagem desolada do que já foi a cidade de Guarulhos no estado de São Paulo. Veste uma roupa escura, surrada e sobre ela, uma capa feita de lona de caminhão cor de areia, recoberta de vegetação colada com resina de arvores. A capa também está em frangalhos mas serve para que Jack se proteja do sol inclemente do verão.

Com a mão boa ele pega uma garrafinha de agua mineral que já viu dias melhores e a recheia com a agua limpa do rio Tietê.

Que irônico!

O rio que já foi o mais poluído do mundo até 2080, agora, com o fim da civilização, foi purificado pela própria natureza.

Jack lembra que quando era apenas uma criança, pequeno ainda, falavam muito de aquecimento global e ele não entendia, ele não sabia. O ar havia se aquecido demais e as geleiras viviam uma iminente ameaça de derretimento.

Surgiu uma alternativa.

As plataformas ambientais autossustentáveis poderiam voar infinitamente, purificando o ar e dosando a quantidade necessária de Dióxido de carbono, vapor d’água e nitrogênio. Os nanobots utilizariam os próprios elementos do ar para fabricar peças e componentes e as plataformas nunca desceriam a terra, ficando no alto da troposfera infinitamente.

Diziam que as plataformas ambientais flutuantes, aquelas que ele observa no alto do céu como pequenas peças retangulares apesar de saber que cada uma tem pelo menos duzentos metros de comprimento, soltando rolos de fumaça negra ininterruptamente, salvariam o ser humano de sua destruição, mas infelizmente acabaram se tornando parte do problema.

O grupo Neoeugenista japonês “Yoake no Omo”, ou “Senhores do Alvorecer”, na nossa língua, inseriu um vírus denominado Mathus.exe, que começou rapidamente a transformar o nitrogênio do ar em gás carbônico, sendo que deveria fazer exatamente o contrário, matando o krill nos oceanos e a vegetação primária também, atingindo a base da rede alimentar do planeta.

O vírus também criou um composto toxico para as abelhas, que foram praticamente extintas e com elas a produção de alimentos polinizados que saciavam a fome de humanos e animais. Em poucos anos passamos das criaturas mais civilizadas do planeta para seres em risco de extinção.

Infelizmente nem os maiores gênios da computação conseguiram desativar as plataformas e as tentativas de fazer com que se auto destruíssem, não funcionou. Presos, os líderes do grupo Malthusiano japonês mastigaram um composto contido em um dente falso que apodreceu seus corpos, matando–os em minutos.

Nenhum pôde dar a informação de como desativar as maquinas ambientais e misseis foram atirados contra as plataformas, mas como elas estavam em modo defensivo, conseguiram destruir todos. Funcionando às avessas, em poucos anos o planeta se tornou inóspito com pouca oferta de alimento para todos. Assim como foi previsto por Malthus, a morte veio para os habitantes do planeta Terra.

Deixou o filho em Guarulhos, em um dos campos de humanos para se entregar em São Paulo, Jack caminha entre massa de neblina poluída, pelos restos do asfalto quebrado das ruas esquivando–se da presença de outros humanos. A geração de 2055 não pode esperar e confiar em nada nem ninguém.

O homem olha a cúpula da outrora majestosa Macromegacidade de São Paulo com seus quatro pavimentos que já chegou a abrigar trinta e cinco milhões de habitantes. Hoje esvaziada em seus primeiros níveis e apenas habitada por gangues, o ultimo nível, a quase três quilômetros de altitude foi selado e ocupado apenas pela elite paulistana que assiste a morte lenta e inexorável do povo abaixo.

Segundo os neurotextos de história, as chamadas Macromegacidades começaram a ser construídas no final do século XXI como resposta a intensa concentração urbana e a nova explosão demográfica derivada da capacidade de gerar filhos em laboratório.

Cada “andar” das Macromegacidades tem um quilômetro de altitude em relação ao “andar” de baixo e seus pilares centrais de sustentação foram construídos com doze quilômetros de raio contendo em seu interior uma série de elevadores distribuídos igualmente por doze distritos. São construídos em aço carbono, chamado posteriormente de plasto–carbono e em alguns países elas já alcançam sete quilômetros de altitude, como NeoTókio e Nova Iorque Vertical (NYV).

As “passarelas” que sustentam as construções acima do solo são transparentes e cada Macromegacidade conta com milhares de espelhos controlados por inteligência artificial que direcionam a luz do sol para o nível do solo de maneira a todos os habitantes terem contato com a luminosidade do dia.

Mas para Jack, isso agora é passado.

A fome aperta seu estomago e ele encontra um providencial pé de almeirão na beira da rodovia Dutra que muito provavelmente não foi devorada por não reconhecerem o vegetal. Biólogo de formação e ex–militar de profissão, Jack come, enchendo a barriga com o vegetal amargo, recheando um pouco as faces encovadas.

Sem sal e sem tempero. Ainda assim, alimento e o homem caminha rumo a antiga e imponente capital do Estado de São Paulo.

De maneira inconsciente, passa as mãos nos cabelos loiros. Secos como espigas de milho e subitamente escuta um ruído disfarçado.

Está sendo seguido de maneira tão sutil que se não tivesse formação militar, mal teria percebido até ser tarde demais.

Quando a pessoa, seja quem for se aproxima a contra o sol, o loiro percebe pela sombra que ele é grande, com pelo menos dois metros e o ataca com algo grande e pesado, talvez um eixo de carro arrancado, pelo formato da sombra.

Debaixo da capa, feita de lona de caminhão suja, o homem magro leva um pedaço de cano de aço fino, serrado na perpendicular e afiado meticulosamente. Jack se desvia de maneira elegante do ataque silencioso que atinge o concreto rachado quebrando–o mais um pouco. Seu cano brilha no ar, penetrando o peito do seu antagonista enorme e quase arrancando o coração deste por trás das costas. O homem, moreno, com a barba malfeita, cabeça encalombada e faces bem nutridas, arregala os olhos, cospe sangue, balbucia algo e morre poucos segundos depois. Jack olha para o sangue em suas mãos. Olha para o corpo bem nutrido do valentão morto e engole em seco:

Será… que não poderia? Só dessa vez?

Continua

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Sobre o autor

Humberto Lima é professor de geografia e sociologia. Pai, escritor e ama o gênero terror. Participa de mais de setenta antologias físicas e virtuais do gênero terror, horror, fantástico e policial em diversas editoras. É autor do livro Saturno, o Vampiro pela Ed. Arkanus e A Corte das Borboletas pela Ed. Quimera. Organizou os livros Amores Virtuais, Perigo Real, Repente Envenenado, Sangue & Àgua Benta, A Soma de Todos os Medos e Nocturnae. É desenhista com gravuras em livros e revistas e HQ’s.

Outros títulos do Em um mês, um conto

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