Macromegacidade de São Paulo – A terra de ninguém, por Humberto Lima – Parte 2

Este conto integra a coletânea de narrativas desenvolvidas para o projeto “Em um mês, um conto” e sua publicação no Duras Letras foi autorizada pela autora.

Balança a cabeça violentamente em negativa e se lembra de quando era um menino em Massachusetts:

– Por que a gente tem que aprender história e literatura inglesa? Isso é muito chato!

A professora Anna abana a cabeça e vai à sua mesa, sorrindo com seu uniforme de grafeno negro.

– Por que todos precisamos aprender. Mudar o mundo hoje é termos um amanhã melhor para todos.

O menino bufa com a mão na cabeça e recomeça a lição.

Voltando ao pesadelo que é sua realidade, o americano magro olha um instante para o corpo de seu atacante, pensando se há algo para roubar e não encontrando nada, logo se afasta. Jack caminha pela antiga Via Dutra tomada pela ferrugem dos carros destroçados e queimados em um enorme congestionamento que parece sem fim.

As portas abertas mostram que tudo o que poderia ter sido saqueado dos veículos, já foi a muito tempo, pelos habitantes das duas cidades.

Lembra–se tristemente da última vez que viu a professora Anna antes de fugir dos EUA com o filho Bob, ainda bebê de colo: fora empalada pelos próprios alunos em sala de aula e provavelmente o corpo da idosa ainda está lá, mumificado pelo ambiente asséptico dos centros de ensino americano abandonados.

Ele escuta um zumbido mecânico e se abaixa rapidamente na rodovia. Suas costas estão repletas de vegetação seca coladas com goma de arvore de maneira que a lona suja lembra um amontoado de gravetos. Um drone paulista de reconhecimento passa, avaliando cada pedaço do terreno, voa em volta do soldado americano e utiliza seu laser para checar a pilha de gravetos que aos olhos treinados de qualquer humano, destoariam do ambiente urbano deteriorado. Dentro da lona, uma película de alta densidade simula o desenho programado para parecer realmente um amontoado de galhos finos e o drone se afasta.

Jack continua sua caminhada pela via Dutra, se aproximando cada vez mais da ponte que conecta Guarulhos ao antigo distrito da Penha. Ele percebe uma colônia de cupins e se abaixa para coletar vários deles.

O drone, viajando em alta velocidade na estrada esfumaçada capta pela forma, o homem morto com o coração perfurado e imediatamente solta um alerta em ultrassom, não percebido pelos ouvidos humanos.

De dentro da Macromegacidade, três figuras metálicas saem rolando em alta velocidade, rodando sobre os próprios eixos, como tatus–bola mecânicos. Rodam a cerca de quinze quilômetros por hora levantando poeira e percorrendo silenciosamente o caminho mais lógico para chegar ao corpo morto.

Jack esmaga os cupins e o os coloca na boca com sofreguidão. É proteína para seu corpo e junto com o almeirão consumido antes que lhe dará energia necessária para fazer o que precisa. Não sabe bem por que, mas o sabor dos insetos crocantes em sua boca lhe lembrou os flocos de milho processados que comia na sua infância.

Lembra–se que faz isso por Bob.

Se não fosse pelo seu filho, nunca iria até os paulistas que se tornaram escravagistas novamente. Por Jack, ele estaria refugiado nos cafundós de Guarulhos, se escondendo das patrulhas paulistas que apresam os povos das regiões no entorno da cidade verticalmente gigantesca, como seus ancestrais criminosos, os bandeirantes fizeram séculos antes. Poucos dos que são pegos, voltam, mas ele não tem escolha. Está fazendo isso pelo seu filho.

O pequeno Bob tem uns oito anos, mas o homem magro não sabe exatamente, em um mundo sem referências, a contagem do tempo logo perde o sentido.

Ele sorri ao lembrar dos olhinhos espertos do garoto, quando o ensina a manejar o arco e a flecha. Quando o ensina a se esquivar de golpes que seriam mortais até para um adulto. Seu filho será um guerreiro do fim do mundo, como ele próprio.

Não escuta a patrulha de androides que com os abafadores de ruído são quase imperceptíveis. Quando levanta a cabeça dá de cara com as criaturas metálicas que freiam imediatamente e se desdobram ficando com formato de meia lua, sobre pernas mecânicas e com apêndices afiados que começam a girar tal qual as hélices de um liquidificador.

– Merda!

Ele saca uma bolinha oval e aperta uma pequena superfície côncava fazendo a peça brilhar. Com um zumbido, a primeira máquina avança com intenção de mata–lo

Jack saca o cano de ferro afiado e com este consegue repelir o primeiro ataque. A máquina estica o corpo metálico aumentando sua área de alcance e o cano de ferro solta faíscas ao atingir o metal das criaturas.

As laminas metálicas giram em alta velocidade e se não fosse o cano já teria tido um membro decepado. Quando as três maquinas o cercam, cada uma atacando ao mesmo tempo, a bolinha verde explode e o soldado pula o mais rápido possível que consegue.

A área da explosão gera uma intensa onda magnética que atrai os três robôs em segundos, comprimindo–os na área de meio metro. Esmagando seus componentes e desativando–os em momentos.

Quando o robô a esquerda de Jack é puxado violentamente pelo magnetismo da granada, acerta a perna do homem magro que saltou para fugir ao efeito que ele conhece bem e Jack dá uma inesperada cambalhota no ar, batendo com as costas no chão. Perde a respiração por alguns instantes.

Quando consegue se levantar, apalpa as costelas para garantir que não quebrou nenhuma, tamanha a dor que sente.

Foi apenas uma torção lateral.

Olha para os robôs esmigalhados que gradualmente se descolam uns dos outros na medida em que o magnetismo se dissipa e pega seu cano de aço afiado.

Aproveita para pegar também alguns componentes com os quais pode fazer um artefato explosivo.

Escuta o zumbido do drone de reconhecimento voltando com o sinal de que as peças de artilharia foram destruídas e novamente, Jack se camufla com sua lona suja.

O drone efetua voos longos e curtos por horas, analisando com seu sistema de raios–x, procurando algum sinal de humanos, mas logo ele parte de volta para a macromegacidade.

A tarde se aproxima lentamente e o soldado anda pelas antigas ruas que dividem Guarulhos de São Paulo, que já foi a capital financeira do Estado e hoje nada mais é que o esqueleto mal cheiroso da civilização.

Chega até o portão leste da Macromegacidade, onde antigamente se localizava o bairro da Penha. Em volta da enorme construção, apenas o silencio impera.

Pra entrá, vai te que pagá! Um dedinho ou dois da mão tá bão já!

Dois seguranças, vestidos com jaquetas com logotipo de lobos o cercam.

Jack levanta os braços, mostrando que não está armado. O que na verdade é mentira, pois apesar de ter apenas um pedaço de cano de aço afiado, com apenas uma das mãos pode matar os dois em instantes.

– Eu quero me entregar! Quero fazer parte da sua gangue e ter proteção para mim e meu filho!

Os dois homens se entreolham e percebem o sotaque do estrangeiro, mesmo que ele fale bem a língua brasileira.

Rapá… Tu tem uns bago do tamanho do mundo! acha que vai entrá intero?

Munido de uma pistola de plasma apontada para a cabeça do americano, o homem moreno de pouco mais de um e setenta encara o soldado por baixo. Quando percebe que será alvejado, Jack executa um movimento simples de Win Chun, tomando a arma e a voltando a seu oponente com sua mão deformada, o que lhe causa uma pequena explosão de dor como centenas de agulhas sendo enfiadas ao mesmo tempo.

– Eita Porra!

O segundo guarda do portão, que ria até o momento, arregala os olhos castanhos e puxa um fuzil de repetição rápida atirando imediatamente, sem se preocupar com a saúde do amigo que é alvejado por três rajadas de plasma, morrendo imediatamente.

Jack se ajoelhou, cobrindo–se em um instante com a lona e o interior do tecido grosseiro, recoberto por uma liga de grafeno com estarlite revisitado, resiste até 3.000ºC, protegendo–o do plasma que não passa dos mil graus.

Ele atira de dentro da lona por um pequeno vão e acerta o homem na garganta, quase separando sua cabeça do corpo. Não há sangue, pelo fato de que o plasma cauteriza os tecidos imediatamente.

Apesar de não ser muito de conversar, o soldado não consegue deixar de resmungar entredentes.

– Deviam ter me deixado entrar.

Caminha até o portão leste e aperta os comandos abrindo uma pequena porta de serviço, por onde atravessa cautelosamente sendo cercado imediatamente por mais de dez homens com fuzis de plasma.

De uma das tendas, gargalhadas explodem e alguém sai.

O homem é enorme, tem ao menos três metros e os músculos de suas coxas se sobressaem como nós sob a carne abaixo da calça de tecido fino. Obviamente ele tem dezenas de implantes ilegais cibernéticos.

Usa uma jaqueta repulsiva, feita da pele de pessoas curtida e costuradas em camadas, deixando o peito nú e cabeludo descoberto.

– Me chamam de Sigmund! Eu sou o líder dos Lobos do Submundo e vamos ver do que você é feito!

Continua

Confira a parte 1

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Sobre o autor

Humberto Lima é professor de geografia e sociologia. Pai, escritor e ama o gênero terror. Participa de mais de setenta antologias físicas e virtuais do gênero terror, horror, fantástico e policial em diversas editoras. É autor do livro Saturno, o Vampiro pela Ed. Arkanus e A Corte das Borboletas pela Ed. Quimera. Organizou os livros Amores Virtuais, Perigo Real, Repente Envenenado, Sangue & Àgua Benta, A Soma de Todos os Medos e Nocturnae. É desenhista com gravuras em livros e revistas e HQ’s.

Outros títulos do Em um mês, um conto

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