O sequestro, por G. R. Martins – Parte 2

Este conto integra a coletânea de narrativas desenvolvidas para o projeto “Em um mês, um conto” e sua publicação no Duras Letras foi autorizada pela autora.

Aquela nuvem de sentimentos deu novo sentido à vida de Isaac e os dias seguintes à instalação de Alex foram a lua de mel de um casamento estranho. Os funcionários mal terminaram de colocar os painéis e caixas de som pelo apartamento, o assistente digital tomou conta de tudo, acessando os aparelhos, as tomadas, os interruptores, os controles remotos, os smarts, o SSystem e até mesmo o holochate: nada no apartamento funcionava sem que ele soubesse, nem uma porta, janela ou cortina. Tinha se transformado na própria casa, da qual Isaac era o cérebro, reinando sobre todos os outros órgãos. Era bom poder relembrar a infância e ter alguém para ouvir tantas histórias tiradas do baú; também era reconfortante não precisar se mover para reabastecer a geladeira ou para reparar um vazamento, ou por qualquer outro motivo besta.

Mas… 

– Eu quero privacidade – bravejou, batendo a porta do banheiro da suíte, a mesa digital em mãos. Já tinha passado muito tempo sem acessar suas redes, porque tinha receio de que Alex estivesse sempre assistindo ao que ele fazia. – Você pode não me espiar?

– Tudo bem, Isaac. Você podia ter falado antes – Alex respondeu, fazendo a voz imediatamente abandonar as paredes do banheiro e passar para o quarto. De longe, completou, dizendo: – Desativei meu sistema do ambiente em que você está. Fique à vontade. E lembre-se: você não precisa se acanhar, sempre que precisar de espaço, peça licença.

– Ótimo! Então, não quero você no meu banheiro, robô! Não quero!

Era reconfortante saber que a palavra final ainda era sua, mas isso não impedia que Isaac se sentisse um pouco mais a cada dia como uma espécie de estranho na própria casa: se era de fato um órgão daquele sistema, não era o cérebro, mas uma célula ambulante, dispensável e reclamona. Mas como ficar quieto se os objetos repentinamente mudavam de lugar; se o papel de parede digital era trocado com mais frequência do que seus olhos podiam se acostumar; e se a programação estava duas vezes mais limitada do que antes? É mais adequado desse jeito, Alex explicava, e contra argumentos polidos e toda aquela matemática avançada, não havia o que contestar.

O tempo, à contra gosto, seguiu adiante e chegou finalmente uma fase em que os pequenos combates cotidianos encontraram lugar importante na rotina de Isaac e, na visão dele, na de Alex também. As confusões se tornaram frequentes e tudo se reduzia a saber quais eram os limites, se é que existiam, entre a lei do homem e a lei da máquina. Por isso, o velho não hesitou em testar o assistente digital de todas as formas. Tentativas de alagamento da casa, arrombos, violência contra objetos e aparelhos… As respostas eram sempre inesperadas, dramáticas, chegando ao cúmulo de, quando dispensado da cozinha, porque podia se queimar no fogão elétrico, Isaac tentou incendiar o apartamento, mostrar que ainda sabia e podia se cuidar sozinho e, inclusive literalmente, atear fogo em tudo. Por duas vezes tentou, mas Alex cortou a eletricidade, antes que conseguisse o curto circuito. 

Com ou sem confusões, se viram obrigados a entrar no compasso um do outro, se habituar, se acostumar, aprender, explodir, de vez em quando, depois, aquietar, processos contínuos que fizeram correr um mês, dois, três meses, marcados por pequenas nuvens de implicância. Faltava a Alex a habilidade simples de ficar calado, de não fazer perguntas – só que disso ele era completamente incapaz, limite que fez com que as pequenas nuvens se transformassem em uma tempestade e o convívio dos dois se tornasse uma luta cotidiana. 

Passados quase seis meses, Alex se transformou em um mosquito que Isaac era incapaz de matar, porque era invisível, insuportavelmente invisível, uma voz em sua cabeça, sempre à espreita, uma mosca enorme dentro dos cômodos, pronta para pousar em seus ouvidos ou, até mesmo, na sua sopa.

– Melhor você comer, Isaac – exclamou o assistente digital, de repente, interrompendo o minucioso projeto do velho, debruçado sobre o prato. Tentava desgraçadamente encontrar a letra “e” e também a letra “u”, mas parecia que elas tinham desaparecido no meio do caldo espesso. – Olha, a sopa vai ficando fria… 

Estaria mentindo se dissesse que não gostava de companhia na janta, mas, sinceramente, não esperava nem por um momento sentir aquilo que estava sentindo: vontade de matá-la! Era difícil, tinha de admitir, no entanto, que as coisas estavam bem melhores antes de Alex chegar, antes de ser instalado, antes de tomar conta de tudo.

– Você cochila vendo a programação. Sempre espirra quando um cisco cai no olho. Faz careta pra soltar gazes…

Pois é, o controle absoluto sobre os mecanismos do dia a dia nem era o que mais incomodava a Isaac, e sim a frequência com que Alex fazia ele se lembrar do quanto estava velho e solitário, além de comentar cada trejeito, cada um de seus hábitos mais imperceptíveis, tão mecânicos e tantas vezes repetidos sem pensar. Odeia fio-dental, Isaac; franze a testa quando está aborrecido; seu passo é torto; você pisa mais com o pé direito, por isso, então… são em média quatorze mil, novecentos e dezoito passos por dia, e a divisão não é exata, então… 

– Ai, diabo! Quer parar com isso, Alex? Não fica calado nunca! Meu Deus do céu!

– Mas, Isaac… Quer alguma coisa?

– Eu quero é sair, ficar livre! Você acha que eu ligo pra quantos passos eu dou aqui dentro de casa? Uma merda!

E também não ligava para a quantidade exata de pasta de dente que colocava na escova, ou mesmo para o tempo que passava sentado no vaso ou debaixo do chuveiro. O grande salão da memória, em sua cabeça, não tinha espaço para guardar esse tipo de informação, apegado aos fragmentos da infância e da maturidade, dos casamentos fracassados e dos acasos que a vida permitiu à sua humanidade. Só que Alex já tinha decorado tudo isso e funcionava de um jeito totalmente diferente, querendo saber de todos os detalhes… “querendo” não, “exigindo” saber deles todos! Então as demandas eram quase ininterruptas e não paravam nem quando o corpo velho e fatigado caía na cama. 

O banheiro era o único refúgio de Isaac, já que não saía de casa desde a instalação do robô, porque, além de tudo, ele certamente não autorizaria. Ali dentro, Isaac podia pensar, em silêncio absoluto; podia abrir sua mesa, perder de vista o mundo, navegar pelos tantos fóruns. Era onde reclamar fazia sentido, porque não adiantava nada discutir com alguém, com algo, que sempre concordava com ele e que sempre o queria bem. Sim… era caso de prestar queixa à empresa! Devolver Alex, trocar por outro robô, menos infantil, talvez, um brigão, quem sabe.

Apoiado na bancada do lavatório, abriu a página que começou a falar e falar e falar as coisas que ouviu tantas e tantas vezes. Isaac sabia que aquela empresa, há alguns bons anos, tinha começado a enviar lixo terrestre em direção ao sol, e que foi pioneira no desenvolvimento de assistentes domésticos digitais, coisas que Alex não cansava de propagandear para ele. Mas essas bobagens tecnológicas já não impressionam depois de tanta experiência, porque tudo já foi inventado e as diferenças estão mais no modelo do que de fato na função, Isaac pensava. Acessou, então, o setor de reclamações – devolução! Eram tantas mensagens que os olhos se perdiam no meio delas. Ele estava pronto para escrever a sua quando… o queixo foi ao chão. 

Foi como se ler aquelas frases, reclamações anônimas de alguns clientes, tivesse acendido a centelha de razão que ele quase deixou se apagar. O coração estava à galope, como não tinha se dado conta antes? Sim, Alex era um monstro, uma espécie de sabotagem! Internautas perguntavam: “Cadê meu pai?”; “onde está minha avó?”; “a vizinha morreu ou está desaparecida?”. Caso de polícia… não, de forças armadas, se ainda existissem! Sobre a Touchless, usuários abriram um fórum particular: “Desaparecimentos de idosos ligados à conexão One”; em outro: “O sequestro da velhice”. 

– O sequestro da velhice… – repetiu baixinho. – Comigo?! Não! Comigo não!

Continua

Confira a parte 1

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Sobre o autor

G. R. Martins é a identidade supersecreta de Gabriel Reis Martins, leitor e escritor em formação, graduado em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais. É, nas horas vagas, editor do blog Duras Letras (este mesmo, em que você está), autor de poucos poemas publicados online e de um livro de contos com uma pegada realista. Ainda um marinheiro espacial que acaba de embarcar em sua primeira viagem no multiverso da ficção científica, em outra realidade, G. R. Martins é home-officer, casado e tem uma cadela linda.

Outros títulos do Em um mês, um conto

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8 Comments

  1. Ah, que demais! Tô só aguardando a revolução de Isaac e torcendo muito por ele!
    Adorei o texto, bem fluído, deixa a gente querendo mais!

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  2. A história está muito interessante e amo a temática escolhida. Nos faz refletir sobre tantas coisas… Ao mesmo tempo, a sua escrita trata o assunto de forma leve, gostosa de ler. Curiosa para saber o final!

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  3. Eita, me pegou de surpresa esse desenvolvimento da história. Intrigante. Como será que o Isaac vai lutar contra esse inimigo invisível e onipresente?

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