Poeira espacial, por Liliane Alves – Parte 2

Este conto integra a coletânea de narrativas desenvolvidas para o projeto “Em um mês, um conto” e sua publicação no Duras Letras foi autorizada pela autora.

A todo tempo, narrei minha experiência ao controle da missão. Ver o buraco de minhoca me deixou enjoado, pois era como ver um espelho côncavo, porém oco e feito de uma espécie de plasma, ou de algum outro estado de matéria que ainda não conhecemos, em formato de uma gigantesca bolha de sabão. Desliguei os alarmes sonoros que me advertiam dos riscos da dobra espacial e apreciei a viagem. Entrei naquela espécie de canudo espelhado gigante e fui sugado por uma força parecida com a correnteza. 

Senti e vi as formas de objetos e até mesmo meus braços e pernas ondulando como se fossemos líquidos. Assim, me deixei fluir, e ser levado como faziam as crianças boiando na época em que se podia nadar em rios, quando ainda existiam rios na Terra. Tive medo de haver uma cachoeira mais adiante, como sempre acontecia nos desenhos animados que eu via na infância, mas não. O que tinha do outro lado era diferente, se é que posso chamar de outro lado. O controle da missão parou de me responder, e eu não sabia se ainda podiam me ouvir. De qualquer maneira continuei narrando tudo.

Todos sabem que a passagem do tempo é diferente para quem está no espaço e para quem está na Terra, então eu sabia que nunca mais veria meu filho, pois quando eu voltasse, se é que eu voltaria, ele poderia ter envelhecido e morrido, pois se tratando de buracos de minhoca, é certo de que o tempo e o espaço são relativos, especialmente quando se encara o desconhecido.

Saí do outro lado do buraco de  minhoca – ou fui expulso da bolha – e Saturno estava lá do mesmo jeito, mas uma de suas luas era a Terra. Talvez não fossem mesmo Saturno e a Terra, só planetas parecidos nesse outro sistema planetário. Esse segundo Saturno era listrado de vários tons de roxo e tinha várias sequências de anéis e falhas na linha equatorial. Quilômetros de anéis, depois quilômetros sem nada, depois mais anéis, outra falha e mais anéis, e assim por diante até completarem sete sequências. A nova Terra, era bastante parecida com a nossa, mas sem Lua, já que ela sim, era o satélite do gigante roxo. Sua órbita ficava entre duas sequências de anéis em uma das falhas. Não vi mais planetas ou luas orbitando o enorme planeta listrado. Me mantive longe da linha equatorial dele, um pouco mais próximo ao polo para evitar colisões com os anéis e percebi que eu estava em sua sombra.

A luz estelar que iluminava o planeta vinha de trás e eu teria que esperar que minha nave tivesse força o suficiente pra fazer meia translação e chegar até a luz. Não demorou muito, pois a forte gravidade rotacional do planeta púrpura me fez acelerar. Foi quando eu vi. A última borda de anéis não era perfeitamente elíptica como o esperado. Ela se dispersava para fora do contorno, como se fosse poeira sendo soprada. A verdade é que ela estava sendo sugada por algo. Suei frio dentro do capacete hermético, e não conseguia respirar apropriadamente. Tive uma vontade súbita de ir à cabine higiênica e sentar no alçapão de evacuação, mas eu não poderia me dar ao luxo de desperdiçar nenhum segundo, precisava controlar a Silmarillion e não podia me deixar levar pela imensa gravidade que sugava tudo tão brutalmente.

O buraco negro apareceu no meu campo de visão pouco depois de eu já ter notado sua existência e calcular o tempo que a Terra2 levaria para ser engolida. Percebi que ela tinha mais tempo do que eu, então me coloquei na direção do planetinha azul, parecido com o meu, a fim de retardar minha morte. Inteligente? Não. Nessa hora eu era apenas um peixinho fugindo de um tubarão.

Se eu tivesse um segundo, admiraria a beleza e esplendor daquele imenso ralo espacial para onde tudo escorria. A luz cintilava nas bordas do horizonte de eventos e a maneira como de certa forma até lembrava aquele buraco de minhoca que tinha me trazido até ali, quase me deu vontade de embarcar, mas acho que esse hiper canudo era brutal demais para que eu me atrevesse.

Dizem que antes de morrer a gente assiste a um filme da nossa vida passando pelos nossos olhos. Não pude ver minha vida toda, pois minha memória é péssima para eventos pessoais, porém, lembrei de uma das surras que levei de meu pai, por ter roubado um galão de leite da geladeira, o que naquela época já era considerado um artigo de luxo. Vislumbrei minha mãe passando pomada nos meus machucados e como seu carinho fazia tudo ficar bem. Me vi novamente naquela cena em que Eva jogava todos os seus sapatos na minha direção e remoí de novo quando um deles ricocheteou e a acertou na têmpora.

Assisti a cena de como eu a levei desmaiada para o hospital e lá descobriram o aneurisma fatal. Não foi o sapato, ele já estava lá, só que ninguém sabia. O sapato foi apenas um agente secreto que apressou as coisas. Irônico como um pé de sapato pôde estar um passo à frente do próprio tempo. Talvez o sapato fosse um inimigo do tempo, no fim das contas.  E o tempo é o maior e pior vilão da vida real.

Lutei flutuando em minha lata de sardinha para fugir da sucção fatal, mas todo meu esforço e  de Silmarillion não foram suficientes. Senti a força externa cada vez maior me puxando para a morte e pensar no fim nos dá uma perspectiva diferente da realidade.

Ali flutuando na direção do buraco negro, me vi sendo atingido por esse sapato milhares de vezes. Em algumas delas o sapato me atingiu e causou a mim toda aquela história do aneurisma, então assisti à Eva me levando para o hospital desacordado de onde eu só sairia morto. Mas se assim fosse, minhas cinzas ficariam sobre a lareira, e não seriam lançadas ao espaço perto de Saturno como eu fiz com as dela. Vi meu filho crescendo e se tornando… bem, eu. Ele estaria aqui no meu lugar, levando então minhas cinzas juntos com as de sua mãe, que dessa vez faleceria velhinha.

Outra versão do sapato acertou meu filho quando veio ver o que acontecia enquanto os pais brigavam no quarto, e tudo aquilo aconteceria a ele. Era ele quem morria nessa versão. Então, Eva e eu nos divorciaríamos, ela me odiaria pelo resto da vida, eu não teria sanidade para seguir trabalhando e jamais chegaria aqui. 

E aqui, era onde eu provavelmente morreria, como uma lagarta presa no casulo, incapaz de concluir a metamorfose. As cenas que eu via eram versões da realidade que passavam diante de mim, como quem cruza um corredor cheio de portas abertas. Em cada porta uma realidade diferente, em que eu só saberia se adentrasse. Mas nada disso jamais aconteceria, pois qualquer uma daquelas realidades alternativas eliminaria esse presente, onde flutuo pelo espaço na órbita de um planeta roxo em minha nave carregada de medo. E o medo é o segundo pior vilão. O medo é ambivalente. Ou ele nos paralisa, ou ele nos dá uma injeção de adrenalina fazendo-nos tomar decisões em prol da nossa própria sobrevivência. Ali estava eu, reagindo à nave e comandando botões, teclas e luzes, contra o implacável e verdadeiro vilão do momento. O enorme buraco negro.

Continua

Confira a parte 1

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Sobre a autora

Liliane Alves é formada em Pedagogia e tem especialização em Neuropedagogia e em Psicanálise. É também escritora, tendo publicado o livro infantil A girafa e a melancia (Editora Uiclap), o romance Pérolas Amarelas (Editora Modo) e ter trabalhos lançados na antologia Cartas de Amor (Editora Panóplia). É amante de todos os tipos de arte, da ciência, da natureza, da vida, do universo e tudo mais; apaixonada por astronomia e pelos estudos do universo como um todo, até mesmo daqueles mais particulares, que habitam cada mente. Por meio de sua escrita, ela tenta criar novos universos, onde outras mentes possam habitar.

Outros títulos do Em um mês, um conto

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13 Comments

  1. Segunda parte impecável como a primeira! Adorei o momento em que podemos vislumbrar as versões de um ponto crucial da vida do protagonista… Vivemos nos perguntando como as coisas teriam sido se fossem diferentes e, às vezes, não nos damos conta de que o que realmente aconteceu foi a melhor das possibilidades dentro do que éramos capazes de fazer.

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