Cinemancia, por Francisco Ewerton dos Santos – Parte 3

Este conto integra a coletânea de narrativas desenvolvidas para o projeto “Em um mês, um conto” e sua publicação no Duras Letras foi autorizada pelo autor.

O Mythonauta

– E onde está o visitante agora?

– Permanece na edificação, ora vagando pelos enredos de outrem, ora nos seus, o que, na verdade, é o mesmo. Converteu-se, em suma, em um mythonauta. Já o prédio foi apagado daquela parede, em seu lugar assomou uma ancha avenida, cujos transeuntes dão as costas aos de Bethlehen.

– Espere!

– O que foi?

– Há alguém. Um consulente neófito.

– Aqui?

– Sim. Olhe para lá.

Os dois personagens olham diretamente para os espectadores.

– De fato. O que ele quer?

– O de sempre. Ver a face do seu originário. Será que ele sabe o quanto isso é perigoso? Conte para ele a sua história.

– Sim, eu vi a face do meu criador. E era uma versão de mim mesmo deitado em uma cama de hospital em coma. No dia que tive essa revelação, a família autorizou a eutanásia e todo o universo que eu habitava desapareceu. Você quer ver a face do seu criador? Quer saber quem ele é? Conhecer seus desígnios? Contemplar os grandes olhos dele pousados sobre você?

– Agora sim ele conscientiza-se de sua impropriedade. Sua vida circunscreve-se em função de outros personagens, verdadeiros protagonistas da narrativa. Ele antevê sua condição de marionete nas mãos do demiurgo. Sim, é ele, o visitante que transita pelo prédio ocupado por ausentes, o mythonauta.

Nesse momento um dos personagens levantou-se da cama e aproximou-se da câmera, que operou um plano-detalhe em seu olho direito.

– Você quer contemplar o grande olho do seu criador pousando sobre você?

Então tudo ao redor ganhou movimento novamente, e, enfim, a explosão orgástica inundou o canal retal do rapaz. Este se levantou e vestiu-se, Tereu conservou-se imóvel.

– Vamos continuar lá em casa? Perguntou o rapaz. Tereu não redarguiu, quedou absorto mirando a tela enquanto as letrinhas corriam acompanhadas pela música aflautada.

– Ei, tá me ouvindo? – sem receber qualquer reação, o rapaz foi embora.

Epílogo à guisa de prólogo

Tereu percorre a estante de livros, fingindo interesse em um ou outro, então se acerca da mesa e detêm-se sobre o tomo chamado Tratado de Bergsonmancia, repousado sobre ela.

– Esse aqui está à venda?

– Não, quem tem esse livro dificilmente vende.

– Engraçado, nunca tinha ouvido falar desse autor ou dessa obra.

– O autor, D. Alejandro, foi um obliterado pela história. – Madame Mantra acomoda- se em uma grande poltrona atrás da mesa e faz um gesto para que Tereu sente-se na cadeira diante dela.

– Ele foi um grande gênio científico e um místico iluminado, no entanto, suas teorias e ensinamentos foram ignorados em sua época. Redigiu os quatro fascículos do Tratado ao longo de duas décadas entre o fim do século XIX e o início do XX, fruto de estudos e pesquisas ininterruptas até, enfim, sentir que poderia revelar suas descobertas ao mundo, e o fez por meio desses volumes, editados às próprias custas, financiado pelo seu magro vencimento de professor.

– E sua obra não teve repercussão alguma?

– Não. Estavam todos tão interessados na relatividade de Einstein que nem perceberam que um latino americano, peruano, para ser mais exata, estava propondo, e comprovando, teorias que iam muito além. E, ainda hoje, físicos teóricos tentam evidenciar o que D. Alejandro já verificou há quase um século, mas, se tentar convencê-los disso, riem-se e afirmam que essa obra não passa de misticismo barato.

– E essa edição que a senhora possui é a original?

– Sim, só há essa.

– Deve ser bem raro.

– O autor só mandou imprimir 600 exemplares de cada volume. Há dez deles aqui em Bethlehem, o que faz dessa cidade um importante centro de estudos de Bergsonmancia.

– Ora, felizmente, na ciência e nas artes, a história se constrói por meio de apagamentos e posteriores revisões. – Tereu escolhe cuidadosamente cada palavra antes de pronunciar… – Creio que é isso que seu grupo – tentando evitar termos como seita ou sociedade – procura realizar.

– Não, nós já desistimos dessa ideia, chegamos à conclusão que, se a humanidade não está preparada para os ensinamentos de Alejandro Quispe, vamos deixá-los em sua ignorância e seguir nosso caminho de evolução pessoal.

– Mas, o que revelam esses livros? Que tipo de arte mântica é essa? Vocês comunicam-se com Deuses, espíritos dos mortos…?

– Nossos oráculos acedem a memórias, reminiscências viventes, desse universo e de outros.

– E quais são seus oráculos?

– Olhe ao redor, estás cercado deles.

Tereu lobriga o entorno e tudo o que vê, além de livros poeirentos, são máquinas antiquadas com engrenagens gastas. Permanece em silêncio, pega o volume um do Tratado.

– Posso ver?

– Sim, só tome cuidado, algumas páginas estão quebradiças e a encadernação está bem gasta.

Folheia e encontra uma porção de equações inescrutáveis.

– Onde ocorrem as reuniões de vocês?

– No grande oráculo: um lugar à vista de todos, é conhecido como “Cine Ópera”.

– O cinema pornô? – Tereu não consegue esconder um sorriso discretamente sarcástico.

– É natural que se imagine que o Cine Ópera seja apenas um lugar que proporciona encontros sexuais fortuitos, e, de fato, estando lá, pode ser difícil evitá-los. Entretanto, você nunca se perguntou de que maneira ele sobreviveu como o único cinema de rua da cidade, enquanto todos os outros se converteram em igrejas, farmácias, lojas de departamento, residenciais, etc.?

– Por ser ponto de prostituição, talvez.

– Evidentemente não é só por isso. Claro, essa clientela ajuda a pagar as contas, mas o Ópera existe por um propósito maior. Seu dono e fundador veio do Peru e foi um dos primeiros difusores das teorias de D. Alejandro Quispe no Brasil. Comprou o terreno em um lugar escolhido criteriosamente, com base nos mais escrupulosos cálculos, para que seu maquinário funcionasse, ali, como uma poderosa ferramenta de contato.

– Ferramenta de contato?

– Um oráculo. Tenho uma proposta para você. Creio que a curiosidade é natural da sua profissão. Por que não aparece hoje à noite no Ópera? Reunirmo-nos lá. Poderá ver com seus próprios olhos o que fazemos. Certamente será uma experiência inesquecível, além de poder render uma matéria para o seu site.

 Prontamente, Tereu responde:

– Claro. Será muito proveitoso.

Fim

Confira as partes anteriores

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Sobre o autor

Francisco Ewerton dos Santos nasceu em Belém, Pará, em 1986, onde reside e leciona Língua portuguesa e Literatura. Além do romance O Irressuscitado (Kazuá, 2017), publicou contos em revistas e antologias literárias.

Outros títulos do Em um mês, um conto

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5 Comments

  1. Terminei de ler “Cinemancia”! Gostei bastante da construção das cenas e, principalmente, da linguagem utilizada. É muito bem escrito! Confesso que fiquei confuso na segunda parte, apesar de achar a metáfora do espelho belíssima. Enfim, esse “Epílogo à guisa de prólogo” (ou eprólogo hahaha) ajudou a esclarecer e amarrar minha impressões, e também a entender o mistério que fazia do Ópera um lugar tão tenso. É isso, obrigado pelo conto!

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    1. Gabriel, obrigado pelo comentário e por acolher meu conto nesse excelente blog. A metáfora do espelho foi inspirada por Borges, uma grande influência para mim, assim como Roberto Bolano (sobretudo, neste conto, o livro O Espírito da Ficção científica), Grant Morrison e David Linch. Daí também a tendência ao non Sense.
      Grande abraço.

      Curtido por 1 pessoa

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