Macromegacidade de São Paulo – A terra de ninguém, por Humberto Lima – Parte 3

Este conto integra a coletânea de narrativas desenvolvidas para o projeto “Em um mês, um conto” e sua publicação no Duras Letras foi autorizada pelo autor.

Ofegante ainda após lutar com seis oponentes ao mesmo tempo, Jack se espanta com a velocidade do homem.

Ele usa os longos cabelos brancos em dreadlocks com cheiro desagradável como roupa amarfanhada que molhou suja, seu rosto, de um branco quase etéreo, está metade pintado com sangue vermelho e os olhos verdes brilham em seu rosto de maneira maníaca, como duas esmeraldas malditas.

Ele leva nas mãos uma maça feita com a ponta de um poste de iluminação pública que deve pesar por si só uns cinquenta quilos. Jack duvida que ele consiga sequer manejar essa arma, quanto mais ataca–lo muitas vezes com a peça.

Para sua surpresa, o gigante baixa o material em velocidade impressionante que bate no asfalto antigo do solo perfurando–o e apenas seu preparo militar o salva da morte certa.

Jack salta e acerta Sigmund na epiglote.

O grande homem branco coloca a mão na garganta e arregala os olhos enquanto parece sufocar.

Jack quase sorri. Foi fácil demais.

Os olhos do líder dos Lobos do Submundo se estreita e apenas a leitura das microexpressões salva o soldado quando o poste é deslizado lateralmente, visando suas pernas. Por um segundo ele não é atingido.

A garganta do homem branco é preparada contra golpes e ele mal sentiu o golpe que seria mortal em qualquer humano.

Sigmund cospe no chão enquanto seus lacaios riem com gosto.

– Gostei de você! Se movimenta bem! É soldado? Eu também fui! Forças expedicionárias! Antes dessa porra toda ir pro espaço! Agora mando nessa área do Submundo! Qual seu nome?

O americano limpa o suor do rosto.

– Jack.

O brasileiro cibernético balança a cabeça enquanto sorri.

– Não brinca comigo, guerreiro! Quero teu nome de verdade!

O loiro nem precisa pensar antes de responder. Mostra a mão atrofiada e coberta de cicatrizes das cirurgias.

– Jack Eigth! Matei oito com uma mão.

Os homens em volta urram de maneira primal, apoiando o relato do soldado e Sigmund sorri com o canto da boca.

– Beleza! Me derruba e tu tá dentro!

Ele levanta o poste e o abaixa violentamente contra o americano que por um instante ia se desviar, mas algo nos olhos do grande homem branco, fazem com que não se mova.

Os homens com as armas de plasma apontadas arregalam os olhos. Jack terá a cabeça esmagada em um segundo se não reagir.

O loiro sorri e segura a barra do poste com a mão boa, puxando para frente e fazendo com que o brasileiro se desequilibre. Este, esperava que o soldado tentasse se desviar, quando usaria seus músculos hidráulicos para mudar a trajetória do poste, atingindo–o lateralmente e muito provavelmente aleijando o americano, não esperava ser surpreendido por um simples golpe de Win Chun que os recrutas mais relapsos usavam na academia.

Sigmund dá um passo para a frente, ancorando–se na perna dianteira, até ficar com apenas a ponta do pé no solo, seu corpo inteiro se elevou ao ser desequilibrado.

Aproveitando–se do desequilíbrio do oponente, Jack pula para a frente, atingindo o único pé que ainda segura o gigante ao solo.

O líder dos Lobos se estatela, batendo de cara no asfalto antigo.

Os dezesseis capangas arregalam os olhos. Nunca viram seu chefe ser derrubado enquanto Jack se levanta de um salto, seu rosto escorre o suor em profusão.

Sigmund urra e joga o poste longe. Levanta com os olhos tomados pela fúria.

Aperta no peito um tipo de botão abaixo da pele e seu corpo começa a crescer mais ainda ficando com quase quatro metros de altura. A pele esticada ao máximo mostra exatamente onde estão as junções das peças e ele retira um pequeno invólucro vermelho do colete de pele humana que usa.

Quebra o invólucro com o dente e o lugar se enche de um cheiro picante e sintético.

– Merda!

O homem acabou de tomar uma dose de C9H13NO3 sintética que junto com suas alterações biocibernéticas o tornam uma máquina de matar.

– Me derruba de novo! Americano Filho da Puta!

Corre na direção de Jack que usa a lona para se proteger do soco. Os nanotubos de grafeno seguram parte do impacto e os gravetos na superfície quebram quando ele sai rolando.

Os homens que estavam silenciosos, voltam a urrar apoiando seu chefe ao vê–lo golpear o americano repetidas vezes no chão enquanto este se cobre com uma lona velha.

O efeito do composto no organismo dura uns dois minutos e durante esse tempo Jack apanha violentamente de braços preparados para levantar carros.

Finalmente o gigante branco, ofegante, para de golpear e suspira.

– Ops! Acho que me descontrolei um pouco!

Os homens começam a gargalhar muito com a afirmação.

Sigmund vira de costas, deixando o trapo inerte no chão. Está certo que Jack jaz morto, mas o soldado, com o lábio inchado e vários hematomas pelo corpo abre a lona, aplicando–lhe um golpe de surpresa na dobra mecânica do joelho esquerdo, fazendo com que o brasileiro caia novamente.

Antes que Sigmund possa ter outro acesso de fúria e sob uma dezena de fuzis de plasma fazendo mira, corre para a frente do gigante branco perplexo.

– Senhor Sigmund! Serei seu servo mais fiel se me deixar viver!

A pálpebra de Sigmund treme por um momento e para surpresa de todos, seu corpo começa a murchar rapidamente, voltando aos três metros habituais.

Coloca as mãos enormes sobre os ombros de Jack, que está preparado para morrer. 

– Mas você é um grandessíssimo de um filha da puta! Qualquer homem que sobreviva a um ataque de fúria meu, merece estar na folha de pagamento! Rapazes! Tragam uma jaqueta pra ele!

O escoltam até um banquete e Sigmund come com gosto a coxa de uma mulher, quebrando com os dentes a pele crocante. Eles comem a carne de pessoas inocentes.

O senhor Sigmund come com gosto a coxa de uma mulher, lambuzando–se com a gordura humana e quebrando com os dentes a pele crocante.

Seus capangas também se refestelam na carne morta das pessoas inocentes.

O homem enorme, coberto de cicatrizes se levanta e aponta para Jack.

– Meus parabéns! Você passou em todos os testes e pode fazer parte do nosso grupo ariano agora! Está na Bíblia: Em verdade, em verdade vos digo, se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos! Agora escolhe teu pedaço! Estão frescos! Pegamos hoje pela manhã!

Com uma ponta de asco, Jack anda em frente à mesa, observando bem os cadáveres, até ver uma criança. Passa a mão no rosto, que mesmo assado, não perdeu suas características.

– Há há há! Jack Eight gosta de carne macia! Foi direto nas criancinhas! – ri o assistente pessoal do Senhor Sigmund.

Todos o olham, esperando para ver se ele come ou não as pessoas, facas começam a ser desembainhadas lentamente, preparados para tudo.

Percebendo o perigo que corre se não comer, com algum esforço, Jack arranca o braço esquerdo da criança na altura do ombro e quebra o osso do cadáver.

Todos os Guerreiros Brancos o observam.

– Vamos! Come! – ordena Sigmund apontando o revólver.

Jack morde a carne tostada, com ímpetos de vomitar, mas mastiga e engole até o final com grandes goles da cerveja artesanal feita pela gangue dos Lobos do Submundo.

– Coloca mais livros na fogueira! – manda um dos Guerreiros para as jovens moças nuas, que correm imediatamente para dentro da biblioteca.

Sigmundo relaxa e coloca a arma no coldre e todos voltam a rir e a beber suas cervejas, mastigando os nacos de carne humana.

Os olhos de Jack se enchem de lágrimas e Sigmund não deixa de notar.

– Por que chora Guerreiro?

Jack enxuga os olhos com as costas mão.

– Meu filho…

Sigmund se lembra.

– Ah, sim! Agora que é um de nós, já pode trazer teu filho para cá sem perigo! Ele será criado como um Guerreiro Branco!

Subitamente, Jack se levanta, correndo até a frente do líder daquela gangue de canibais.

– Ele já está aqui! – grita enfiando a aguda ponta do osso na jugular do homem enorme que engasga com o próprio sangue.

Assombrados, os outros Guerreiros Brancos só reagem quando ele tira um facão de dentro do tórax assado parcialmente devorado de um homem idoso assado sobre a mesa e começa a mata–los um a um. O assistente de Sigmund tem a cabeça decepada por um só golpe e estando todos bêbados, a gangue dos Lobos do Submundo são massacrados e seus restos deixados para apodrecer no subsolo de São Paulo.

As mulheres gritam e correm, perdendo–se pelo submundo da Macromegacidade de São Paulo enquanto o antigo soldado americano vomita copiosamente a carne humana ingerida. Coberto por um sangue que não é o seu, ele se obriga a sentar na frente da mesa onde os cadáveres canibalizados se encontrar e lentamente, cai de joelhos.

Depois de muito tempo chorando e com olhos baços, Jack retira da mesa do banquete, os restos assados de seu pequeno Bob e os enterra em frente ao número 201 da rua Ursa Maior no parque Invernada em Guarulhos onde viveram em um acampamento humano.

Fim

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Sobre o autor

Humberto Lima é professor de geografia e sociologia. Pai, escritor e ama o gênero terror. Participa de mais de setenta antologias físicas e virtuais do gênero terror, horror, fantástico e policial em diversas editoras. É autor do livro Saturno, o Vampiro pela Ed. Arkanus e A Corte das Borboletas pela Ed. Quimera. Organizou os livros Amores Virtuais, Perigo Real, Repente Envenenado, Sangue & Àgua Benta, A Soma de Todos os Medos e Nocturnae. É desenhista com gravuras em livros e revistas e HQ’s.

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