Poeira espacial, por Liliane Alves – Parte 3

Este conto integra a coletânea de narrativas desenvolvidas para o projeto “Em um mês, um conto” e sua publicação no Duras Letras foi autorizada pela autora.

Minha lata de sardinha não era páreo para um buraco negro, então não adiantava eu tentar remar contra corrente. Nunca desisti de nada na vida, agora não poderia ser diferente. Lutei com a ponta dos dedos nos botões e alavancas, mas de nada adiantou. Por um momento a força parou e se equilibrou, senti que eu e meu casulo espacial estávamos finalmente vencendo. Mas não era nem eu nem a nave e sim uma outra força oposta ao buraco negro sugando a Silmarillion. Algo além do domínio da nave e da fúria daquele canudo grotesco à minha frente. Algo mais forte do que a vontade de viver.

Eu estava ali, sendo a corda numa brincadeira de cabo de guerra. De um lado um buraco negro me puxava, do outro… bem, do outro lado não vi nada além do planetão roxo. Mas esse segundo impulso vencia, e a corda – ou melhor, eu – pendia para longe do buraco negro. Senti um alívio instantâneo, mas por pouco tempo. Silmarillion já não obedecia aos meus comandos. Tive a sensação de estar em queda livre. Como se pulasse de um penhasco e o fundo ainda estivesse longe. Pelo vidro, refletiam feixes de luz e de fumaça. Ou talvez fossem nuvens. Silmarillion se desesperava pedindo socorro, apitando e piscando todos os seus botões antes de se desfazer sobre meus pés, como se ela virasse partículas de poeira. Depois fui eu. Senti a mão formigar e olhei para meus dedos. Pude vê–los sendo soprados como cinzas ao vento em direção à essa misteriosa fonte gravitacional. Girei sobre meu peso, sugado por tal gravidade e percebi que tinha caído na Terra2. Ela me puxou e me dissolveu em sua atmosfera. Não pude fazer nada. Virei poeira.

Por alguma razão, eu ainda tinha alguma consciência, e continuava vendo tudo ao meu redor. Vi tudo girar e se desintegrar na atmosfera do planeta azul, e então vi uma fagulha de luz, provavelmente também caindo. Ela se aproximou de mim, cobriu minha visão, ofuscou tudo e não vi mais nada. O branco excessivo me doía os olhos, se eu ainda tivesse olhos. Eu não enxergava, mas ouvia minha respiração. Irônico, pois aparentemente, nem corpo me restara pra poder respirar. E por falar em ironia, meus sentidos anunciavam tudo tão intensamente, como nunca jamais sentira. Um zumbido agudo incessante me causou dor de cabeça e náuseas. Fiquei zonzo, e senti algo me tocar onde antes havia um ombro. Subitamente, voltei a enxergar e vi que eu passava por um túnel de luz. Tudo parecia uma televisão mal sintonizada. Listras na horizontal e na vertical subindo e descendo. Coisas se mexiam nos entremeios, e meus olhos não conseguiam compreender o que eu enxergava.

As listras de luz me tocavam, eu podia senti–las na pele, se eu ainda tivesse pele. Eu estava dentro de algum tipo de dimensão paralela. Os olhos humanos só conseguem enxergar em três dimensões, então meu cérebro rejeitava as imagens, pois aquilo tinha muito mais que apenas três. Encontrei algo familiar, algo que meus olhos aceitavam entender. Vi pelo reflexo de uma das listras que haviam milhares de portas espelhadas, como num caleidoscópio. As portas formavam vários elementos parecidos com mandalas feitas de luz. Na visão do todo, eu poderia ser o centro de uma das mandalas, a maior delas com outras menores ao redor. Pensei em me aproximar e meu pensamento fez a ação. A porta se abriu, e todas as outras espelhadas também se abriram.

As versões de realidades alternativas que eu imaginei anteriormente, se repetiram. Como se houvessem bifurcações em cada decisão que já tomei na minha vida. Se eu escolhesse maçã ao invés de banana no café da manhã, me aconteceria alguma coisa. Se eu dormisse cinco minutos a mais no sábado, me aconteceria outra diferente. Se eu pudesse dar um nome para esse lugar, eu chamaria de: O grande salão do “se”. Divaguei sobre a possibilidade de entrar em alguma dessas portas, sonhando poder voltar no tempo para alguma daquelas bifurcações. Vi minha morte e a morte de minha esposa várias vezes e de infinitas maneiras. O futuro de meu filho foi o que mais me chamou a atenção. Abri uma porta da mandala que seria a vida dele se ela dependesse de escolhas minhas.

O que eu sou hoje e se estou onde estou é devido a todas as minhas escolhas, oportunidades, decisões, aprendizados, erros e acertos. Mas a vida de uma criança requer decisões dos pais no início, até que sejam capazes de tomar decisões sozinhos. Então tudo o que eu e Eva fizemos em nossas vidas desde que o Neil nasceu impactou diretamente na vida dele. O que der certo ou errado pra ele pode ser responsabilidade nossa. O que eu assistia ali, diante de tantas portas abertas, espelhadas, mostrando todas as possibilidades de realidade da vida do meu filho me assombrou.

Eu jamais voltaria para casa. Ou eu estava morto, ou estava morrendo bem longe de casa. Meu filho cresceria sozinho trocando de lares adotivos, e ver que, na grande maioria de suas possíveis versões de realidade, ele estava ou preso, ou internado em alguma instituição (as que ele ainda estava vivo), me deprimiu. Em todas as outras, meu filho morria. Em algumas das portas, ele morria ainda criança. Me desesperei por nunca imaginar uma vida assim para meu próprio filho, sempre desejei o melhor pra ele, assim como todos os pais supostamente fazem. Eu ali no espaço, sem saber se eu mesmo estava vivo ou morto, procurei por alguma porta boa, ou por algo que eu pudesse ter feito de diferente, procurando onde foi que eu errei.

Encontrei algumas portas fechadas, que a força do meu pensamento era incapaz de abrir. Talvez fossem ali que estavam escondidas as respostas, ou talvez aquelas portas fossem versões que dependessem de sua mãe, Eva, e não abririam para mim. Uma porta escondida num canto estava aberta, mas mostrava um imenso vazio. Tudo branco. Tudo luz. Compreendi que essa seria a porta do seu nascimento. Se ele nunca nascesse, talvez não passaria por nada disso. Mas eu não poderia imaginar a possibilidade de que alguém que eu amava tanto simplesmente deixasse de existir. 

Não consegui imaginar minha vida sem ele. Todo o amor que eu sentia por meu filho fez meu suposto coração bater descompassado. Se eu tivesse braços, eles estariam se debatendo e esmurrando cada porta. Desejei genuinamente que a vida dele fosse melhor. Melhor do que a minha, até. Nesse momento, se eu pudesse dar a minha vida e tudo de bom que já quis pra mim, daria tudo a ele. Fui eu quem estragou tudo, ele não merecia passar por nada disso. Me senti derrotado. Se eu tivesse olhos, estaria chorando. De súbito, uma ideia rondou minha mente. E se fosse eu que não nascesse? E se EU nunca tivesse existido? Esse pensamento fez todas as portas instantaneamente se fecharem violenta e ruidosamente. As listras passaram de gentil a agressivas, passaram por mim e me sacudiram bruscamente. Perdi completamente os sentidos. Tudo sumiu. Desapareceu. Finalmente consegui abrir os olhos. Agora eu tinha olhos. Vi o interior limpo e organizado de Silmarillion, até a urna com as cinzas de Eva, em um dispenser. Estava de volta à nave, recuperando aos poucos os sentidos. Luzes piscando, estrondosos alarmes e agora vozes ao longe inundavam o ambiente de desespero.

– Despressurização e contaminação de cabine. – Uma voz disse aterrorizada num chiado.

– Abortar missão! Repetindo: abortar missão! – Gritou outra voz, agora feminina, também mal sintonizada.

– Atenção Silmarillion, aqui é o controle da missão. – Reconheci a voz. Era Doutor Jung falando diretamente do controle da missão na base  lunar.

A voz me trouxe à consciência como um choque que perpassou por todas as minhas veias e artérias. Senti o sangue correr por todo o meu corpo, pelo rosto até a raiz do cabelo. Senti as pontas dos dedos formigando. Pude ouvir e sentir minha respiração tentando não embaçar o visor do capacete. Olhei para minhas mãos e meus dedos estavam inteiros recheando as luvas. Nunca saí do lugar, afinal. Essa opção não apareceu nas portas do grande salão do “se”. Nunca houve versão em que eu não saía da base lunar em direção ao buraco de minhoca criado próximo à Saturno. Se eu tivesse visto essa porta, teria entrado nela sem hesitar. No entanto eu estava ali, vivo e segurando um manete.

– Silmarillion, está na escuta? – Ele cobrou novamente minha atenção. – Comandante Zion, abortar missão.

– Po, po, positivo controle. – Respondi sentindo minha voz falhando. Agora eu tinha voz. O cheiro no ar me sufocava e fazia meus olhos arderem. Escorreram algumas lágrimas espontâneas, lentamente, devido à baixa gravidade lunar. – Aqui é o comandante Zion. Nave Silmarillion desligando os motores.

Soube, depois, que eu desmaiei, assim que os motores de propulsão foram ligados, pois meu oxigênio foi contaminado com tetróxido de nitrogênio. Algo básico, que qualquer um teria notado ao fazer o primeiro checklist, logo na construção do reservatório de oxigênio e de combustível da nave. Talvez fosse sabotagem, ou então, aquelas listras de luz foram com a minha cara e me fizeram voltar. A missão foi adiada. Tive que ficar na Lua, esperando a decisão dos coordenadores sobre ir em busca do desconhecido, mas que talvez eu já conhecesse. Enquanto isso, decidi despejar as cinzas de Eva ali mesmo, em solo Lunar, e me demitir da missão Silmarillion. Existe uma força gravitacional maior me chamando, e não posso desobedecer. Agora, me restava esperar uma carona de volta para a Terra. Preciso voltar para casa. Preciso voltar para meu filho.

Fim

Confira as partes anteriores

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Sobre a autora

Liliane Alves é formada em Pedagogia e tem especialização em Neuropedagogia e em Psicanálise. É também escritora, tendo publicado o livro infantil A girafa e a melancia (Editora Uiclap), o romance Pérolas Amarelas (Editora Modo) e ter trabalhos lançados na antologia Cartas de Amor (Editora Panóplia). É amante de todos os tipos de arte, da ciência, da natureza, da vida, do universo e tudo mais; apaixonada por astronomia e pelos estudos do universo como um todo, até mesmo daqueles mais particulares, que habitam cada mente. Por meio de sua escrita, ela tenta criar novos universos, onde outras mentes possam habitar.

Outros títulos do Em um mês, um conto

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8 Comments

  1. “O que eu sou hoje e se estou onde estou é devido a todas as minhas escolhas, oportunidades, decisões, aprendizados, erros e acertos. Mas a vida de uma criança requer decisões dos pais no início, até que sejam capazes de tomar decisões sozinhos. Então tudo o que eu e Eva fizemos em nossas vidas desde que o Neil nasceu impactou diretamente na vida dele. O que der certo ou errado pra ele pode ser responsabilidade nossa. O que eu assistia ali, diante de tantas portas abertas, espelhadas, mostrando todas as possibilidades de realidade da vida do meu filho me assombrou.”

    Adorei tudo no seu conto, mas esse trecho me tocou o coração! de verdade!
    O desfecho foi perfeito e foi o que esperei do protagonista!
    Obrigada pelas lindas palavras.
    Parabéns pelo conto!!!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Genial! Eu particularmente adoro essa temática de todas as possibilidades, de vidas diferentes que dependem apenas de uma escolha. Se pudéssemos simplesmente não escolher, não carregaríamos o fardo que as tomadas de decisão carregam. Mas não tem jeito… Realmente, tudo o que fazemos nos leva a um caminho diferente. Acho que essa é a força que move o mundo. Achei muito bacana o jeito que você trabalhou tudo isso no seu conto!

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