Poemas de amor: de Catulo para Lésbia e outros amantes

Texto por Gabriel Reis Martins
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catulo – escamandro

Caio Valério Catulo (c. 87-c. 54 a.C.) foi um poeta latino muito inventivo, apaixonado e de quem sabemos pouco. Dizem que nasceu em Verona e que viveu boa parte de sua vida em Roma, transitando entre personalidades importantes da política e da arte da época, em um período conturbado da história. Simultaneamente adolescente e maduro, Catulo amou a Clódia (sua Lésbia), uma mulher de família tradicional, com quem viveu encontros amorosos e a quem dedicou uma série de poemas de amor, mas também de escárnio, zombaria e de baixaria.

Como restaram apenas fragmentos da maior parte de seus antecessores e contemporâneos também poetas, alguns pesquisadores consideram que estes poemas escritos por Catulo para Lésbia e outros amores fazem parte da primeira obra consistente de poesia lírica latina – compõem o Liber Catulli (O livro de Catulo) –, que é uma possível antologia antiga, reunindo os poemas supostamente escritos pelo poeta de Verona.

Agora, fora toda essa lenga lenga histórica e contextual, para mim, Catulo é meu motivo latino, meu convite a conhecer sua língua (a da boca?) e uma de minhas paixões anacrônicas: é um poeta de meu cânone pessoal. Foi por esse motivo que decidi trazer um pequeno compilado com sete de seus poemas, especificamente aqueles em que o amor, às vezes debochado e violento, está em primeiro plano. As traduções são de João Angelo Oliva Neto, de sua versão integral da obra de Catulo: O livro de Catulo, publicado pela Edusp.

Espero que vocês aproveitem a leitura! ♥


5.

Vamos viver, minha Lésbia, e amar,
e aos rumores dos velhos mais severos,
a todos, voz nem vez daremos. Sóis
podem morrer ou renascer, mas nós quando breve morrer a nossa luz,
perpétua noite dormiremos, só.
Dá mil beijos, depois outros cem, dá
muitos mil, depois outros sem fim, dá
mais mil ainda e enfim mais cem – então
quando beijos beijarmos (aos milhares!)
vamos perder a conta, confundir,
p’ra que infeliz nenhum possa invejar,
se de tantos souber, tão longos beijos.
7.

Perguntas, Lésbia, quantos beijos teus
bastam p'ra mim, e quantos são demais.
Quantos sejam os grãos de areia Líbica
a jazer em Círene, em láser fértil,
entre o templo de Júpiter ardente
e de Bato vetusto o sacro túmulo;
quantas estrelas dos homens testemunham
(furtivos), tantos beijos tu beijares
basta a Catulo, insano, e é demais.
Assim os curiosos não consigam 
computar nem más línguas pôr quebranto.
87.

Mulher alguma pode se dizer bastante 
amada quanto amada é por mim Lésbia.
Em pacto algum jamais houve tanta confiança
quanto a que em mim se viu em teu amor.
109.

Minha Vida!, me dizes que este nosso amor
será feliz aos dois, será eterno.
Deuses grandes, fazei que prometa a verdade,
que sincera e de coração o diga
e que nos seja dado, a vida inteira, sempre
este pacto viver de amor sagrado.
14b.

Se acaso vós leitores sois
das minhas inépcias e as mãos
não vos repugnar ao tocar-nos, 
AFASTAI A SEVERIDADE
POIS VERSOS VIRÃO MAIS PICANTES

⚠️ Os poemas abaixo possuem linguagem sexual e obscena ⚠️

15.

A ti eu me confio e meus amores,
Aurélio, e de pudor eu peço vênia
pois se já desejaste algo em teu ânimo
que mantivesses casto e inteirinho, 
preserves em pudor este menino,
não digo das pessoas – delas nada
temo a passar na praça aqui e ali
com suas próprias coisas ocupadas.
Minha paúra és tu, e é o teu pau, 
fatal aos bons, fatal aos maus meninos;
por onde queiras, como queiras, leva-o,
quando saíres, pronto para tudo.
Só ele excluo, sim, pudicamente,
pois se uma ideia má ou louca fúria 
te impelir, pérfido, a tamanho crime 
de contra ele investir, outro eu,
então, ah!, infeliz e malfadado, 
pelos pés arrastado, por teu rabo
aberto vão passar mugens e rábãos.
32.

Peço minha, boa, doce Hipsitila, 
minhas delícias, meus encantos, pede 
que eu vá dormir a sesta junto a ti.
E se pedires cuida disto: que outro
não introduza entraves na portinha
nem queiras tu sair por aí fora.
Mas fica em casa e vai te preparando
para umas nove contínuas trepadas.
E se é que vais chamar-me, chama logo,
que almoçado, deitado, e satisfeito,
tanto a túnica eu furo quanto o manto.

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