Laços, de Domenico Starnone: vidas derramadas, laços que as retém

Resenha por Mariana Makluf
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Laços é um romance de Domenico Starnone, escrito em 2014, vencedor do Bridge Prize de 2015. É uma obra curta e simples – mas, ao mesmo tempo, de uma complexidade extraordinária –, que retrata os dramas de uma família comum em meio a encontros, desencontros, contenções e pulsões, segredos e revelações.

Casados há mais de meio século, Aldo e Vanda vivem juntos carregando o peso do passado, que é refletido em sua relação a todo momento. Aldo pisa em ovos, Vanda é muito rígida, os filhos já não estão presentes em casa e o passado precisa descarregar no presente suas tensões. Ao chegarem de uma viagem de férias, o casal encontra sua casa revirada: tudo destruído, nada roubado, um gato desaparecido, as paranoias se formando e, em meio à bagunça, o “pecado” escancarado. Agora, Aldo está frente a frente com os danos que sua paixão por outra mulher causou em si e em sua família, com as dores escondidas nas profundezas da relação latentes outra vez – ou pela primeira vez.

Você me matou há tempos, e não no meu papel de esposa, mas como ser humano que estava em seu momento mais pleno e sincero.

A história é dividida em três partes: na primeira, temos acesso às cartas que Vanda escreve para Aldo quando ela e os filhos são abandonados; já na segunda, a história é contada por Aldo, em viagens entre o presente e o passado; por fim, a terceira parte traz a liberação de todas as mágoas que Anna e Sandro, filhos do casal, guardam dentro de si. E assim, com uma narrativa não linear e contada com perspectivas muito distintas, conhecemos sobre os dramas internos e externos que consomem cada um dos personagens.

Você disse para si mesmo desde o início: preciso recuperar minha vida, ainda que isso os destrua.

Minhas impressões

Meu primeiro contato com a obra foi muito feliz: gostei da forma como conhecemos tão profundamente Aldo e Vanda, de como os julgamentos se dissolvem e solidificam a todo momento, de sentir as imperfeições inevitáveis na esfera familiar. É uma obra que conta muito em poucas páginas, que esconde segredos por todos os cantos, e nós leitores nos tornamos a caixa onde tudo é despejado e, depois, trancado. Também me agradou a forma como somos apresentados aos filhos de Aldo e Vanda: Anna e Sandro, agora crescidos e munidos dos traumas causados pela relação conflituosa de seus pais.

Nossos pais nos destruíram. Os dois se instalaram em nossas cabeças, não importa o que a gente diga ou faça, continuamos obedecendo a eles.

Outro ponto que achei surpreendente foi o final. Não o final previsível de uma família disfuncional que permanece unida por laços que sufocam, mas o fim do mistério que envolve a destruição da casa que desencadeia todos os conflitos novamente.

Laços é uma obra que esconde muitas informações, prontas para serem interpretadas pelo leitor atento e curioso. Remete às matrioscas (bonecas russas que se “escondem” umas dentro das outras), com um segredo revelando um sentimento, que revela um fato, que revela suposições e, quando o ciclo se esgota, tudo é guardado novamente, uma coisa dentro da outra, contidas e prontas para serem reveladas em outro momento.

Em toda casa há uma ordem aparente e uma desordem real.

Nota

Avaliação: 7.5 de 10.

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