Quatro dicas de publicação para autores independentes

Texto por Gabriel Reis Martins
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Em um mundo como o nosso, de mercado digital e baseado em cliques, assistimos a um volume gigantesco e diário de publicações literárias e não-literárias, que inclusive não para de crescer. Isso está relacionado, entre outras coisas, ao fato de que, nos últimos anos, publicar um livro de maneira individual tem se tornado uma tarefa cada vez mais simples e acessível. Porém, graças aos planos e companhias editoriais e a esse volume tão grande de informação circulando, é natural que a maior parte dos livros independentes acabe ficando parado nas prateleiras ou preso para sempre em catálogos da internet.

Foi pensando nisso que decidi fazer essa publicação, pois, como pesquisador e aspirante no mercado editorial brasileira, acredito que existem alguns detalhes que a maior parte dos autores independentes deixa escapar na hora de publicar suas obras. Então, vamos descobrir quais são!?

O básico do básico

Se o seu desejo é publicar um livro e ser lido, é bom que você já tenha cumprido com alguns tópicos bem básicos com relação à edição do texto. Um leitor, seja de qual tipo for, espera sempre que o livro que tem diante dos olhos está bem escrito, terminado e que ofereça alguma perspectiva ou direção narrativa (no caso do volume ser parte de uma série, por exemplo). Então, com relação à sua escrita, é bom você se perguntar:

  1. Minha obra já está pronta?
  2. O meu texto já foi revisado?
  3. Alguém já fez uma leitura beta de meu texto?

É muito importante que estas três perguntas recebam resposta afirmativa, mesmo se você está fazendo uma publicação periódica na forma de blog, de série digital ou de podcast. E, mais importante, não tenha pressa quanto a esta etapa: terminar uma obra é uma tarefa difícil; e uma boa revisão pode levar meses, até anos; fora que, quanto à leitores beta, é importante que não sejam seus parentes e amigos (estamos falando aqui de um leitor distante, se possível, profissional).

No caso de você não ter cacife para pagar revisão ou uma leitura crítica de originais, direcione a leitura de seus amigos e familiares. Entregue a obra para eles, mas não para saber “o que acharam?” ou se “está bom?”, peça para marcarem os trechos que acharam tediosos ou muito divertidos, os pequenos erros que acabaram passando e que eles encontraram – em outras palavras, direcione a leitura deles! Essa direção fica ainda mais fácil quando você tem em mente os seus objetivos com a publicação. Então…

Quais são seus objetivos?

Pense muito bem neles! Saiba o que você espera enquanto escritor e o que o seu leitor vai receber durante a experiência de leitura. O que você quer é ensinar alguém alguma coisa? Pode ser. Mas talvez você queira apenas recuperar alguns contos de fada tradicionais, ou, quem sabe, traduzir algum texto perdido há séculos, que nunca ganhou tradução em português…! Você precisar conhecer o motivo que leva você a querer publicar, e, no caso de uma publicação real, não pode se reduzir simplesmente a “eu gosto de escrever, este é meu motivo”. Não vai funcionar muito bem, porque é só sabendo exatamente o que você quer coma publicação que você poderá definir outros detalhes, como o tipo de leitor que você espera e também o nicho no qual seu livro se enquadra.

Agora, uma coisa muito importante aqui, seja honesta na resposta: você está fazendo isso pelo dinheiro? Se o retorno financeiro é seu objetivo principal, aqui vai uma dica: não entre de cabeça na publicação. Seja, antes de tudo, humilde. Não é que o setor de livros não dê dinheiro, mas, para uma/um iniciante – sem contatos, sem qualquer marca ou ponte no mercado –, é extremamente difícil e perigoso contar com um ganho explosivo já na sua primeira publicação. Isto quer dizer que, se você não é escritor famoso, um influencer de sucesso, com público já estabelecido, ou se seu livro não é de autoajuda, tome muito cuidado na hora de publicar! Faça tiragens menores, que atendam a suas expectativas e necessidades reais, e deixe o sucesso financeiro para o futuro.

(É claro que isso não significa que é impossível conseguir dinheiro de primeira, e também não deve ser motivo para você desanimar, caso seja este o seu objetivo, a grana. Hoje em dia, com tantas formas distintas, existem alguns caminhos um pouco mais seguros do que contar com a sorte de cair nas graças do mercado. Você pode, por exemplo, arriscar um financiamento coletivo. Com ela o sucesso costuma ser proporcional ao trabalho, então, logicamente, você precisará se dedicar bastante no marketing e no envolvimento das pessoas com a publicação. Mas, a partir de um bom planejamento, você pode publicar seu livro e ainda receber uma boa quantia pelo seu trabalho! Inclusive, andam por aí alguns autores e editoras – já consagrados – que sobrevivem desses financiamentos [um dos casos é a Editora Wish]. Possível é, apesar de trabalhoso.)

Quem é o seu leitor?

Tão importante quanto o seu objetivo é você conhecer quem é seu leitor. A pergunta básica é: quem vai querer ler sua história ou seus poemas? Para quem você enviaria seu livro? Pode parecer um tanto quanto simples essa questão, mas costuma acontecer frequentemente de um escritor produzir uma obra sem pensar em para quem ele está escrevendo, e, no fim das contas, a tarefa de descobrir o público alvo cai no colo de uma equipe de vendas da editora que publicou o livro. Mas você, independente, não tem como contar com o trabalho precioso dessa equipe de vendas, e mesmo assim precisa saber quem vai querer ter seu livro sob os olhos.

Para sua felicidade, não existe livro sem leitor, porque o mercado editorial vive um estado de bibliodiversidade. Se parece bastante com uma regra da internet: todo conteúdo publicado vai encontrar um nicho ou um leitor correspondente (nem que seja o primeiro a inventá-los). Essa palavra mágica, bibliodiversidade, ajuda a definir uma das características principais que marca as dinâmicas de publicação, diretamente ligada aos leitores ideais e ao nicho da obra escrita e publicada. A bibliodiversidade é sua amiga e, ao mesmo tempo, sua inimiga, porque é a qualidade que torna o mercado de publicações um campo expansivo, multifacetado e (quiçá) infinito. Essa liberdade quanto à variedade de temas e questões é uma maravilha que pode rapidamente se transformar em uma armadilha para autores inexperientes, que ficam perdido sem saber a quem direcionar seu livro.

A dica aqui é especificidade! Quanto mais específico e detalhado for seu leitor ideial, melhor você conseguirá direcionar sua obra no universo expansivo de publicação, para que chegue às mãos dele. Então, bom, eu estou escrevendo um quadrinho feito para jovens mulheres, entre dezesseis e dezenove anos, que gostam de videogames indie, animes e fantasia espacial. Ótimo, consegui delimitar meu público, tudo certo, então, não é?! Já posso publicar e… Bem, é aqui que o gato dá um pulo, pois existe uma contradição um tanto quanto complicada: públicos restritos demais têm números muito baixos. Assim, se você estabelecer um leitor-super-mega-hiper-ideal, o mais provável é que seu livro seja lido por, digamos, ninguém. Não adianta escrever e conhecer seu leitor quando ele é um jovem negro, que vive na zona sul de Paris, filho de Argelinos, com uma pinta enorme na bochecha e que tem uma gata chamada Sophie, que é cega, manhosa e muito inteligente. Talvez seja um ótimo personagem para uma de suas histórias, mas não vai funcionar bem como seu leitor ideal.

Seja específico na escolha, mas nem tanto. Jovens mulheres que gostam de videogames e animes pode ser um nicho adequado. Mas, para alcançar essas leitoras, você precisará de um plano e de um perfil para sua publicação.

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Qual é o perfil do seu livro?

Você sabe seu objetivo e conhece o seu leitor, e esses são os primeiros passos para estabelecer o perfil do texto. O perfil é uma espécie de curadoria, é a sua concepção/ideia da obra, é o que diz a área, o estilo e o tipo de livro que você vai fazer, fora os traços que melhor o definem. Com o perfil, uma editora tem mais facilidade para elencar os profissionais com quem quer trabalhar (o tradutor, o ilustrador, o designer para a capa etc.).

Talvez por isso, traçar o perfil de sua obra é uma das tarefas mais difíceis para um autor independente, porque, como um produtor solitário, você é responsável por todas as tarefas, como um “sujeito aberto”, desatento às questões sobre gêneros ou estilos específicos, com a diagramação, a forma e a recepção de suas narrativas, poemas ou relatos. Por um lado, tudo bem, é até bom que você abuse dessa tal liberdade, mas, na hora de tirar o livro da cabeça para colocá-lo em papel ou em tela, a coisa não funciona dessa maneira. É preciso que ele tenha um perfil bem definido, para sua publicação funcionar e o livro não ficar encalhado.

A dificuldade é encontrar uma suposta “essência”, a “forma adequada do livro”, em um mundo sem fronteiras ou limites determinados, como é o do mercado editorial. As editoras e corporações editoriais costumam usar métodos complexos para delimitar o perfil de uma obra, que envolvem direção/produção editorial, trabalho com texto e conteúdo, produção gráfica, marketing etc. Mas esse não é o nosso caso, não é, autor independente?! Então como você pode, sozinha(o) dar conta de estabelecer o perfil do seu livro.

Bem, o que você, autor e autora, pode fazer é observar sua própria estante, digital e física, e tentar identificar os livros que mais se parecem com o seu. Você tem o hábito de ler livros desse tipo? Eles são de quais editoras? Quais deles chamam mais a sua atenção? Arrisque se perguntar em qual das editoras você acha que seu livro se enquadraria, qual delas você acha que toparia fazer sua publicação? Observando essa relação entre o seu texto e outros, você consegue traçar um quadro geral e descobrir um perfil adequado para sua obra (inspirado em um livro que você gosta). Observe como ele é feito: o papel, os detalhes da diagramação, a fonte, os textos de suporte, as notas, se teve brindes durante a venda etc. tudo que puder dar mais carne e osso à sua ideia é bem-vindo. Feito isto, você tem um tipo de perfil, e o perfil é sua porta de entrada para o mercado.

Dica extra

Para encerrar, deixo aqui um esquema menos como dica e mais como uma provocação. Se você quer mesmo publicar seu livro, é bom que vá se familiarizando com o mercado do qual você vai fazer parte, tanto para não se frustrar, quanto para tentar encontrar alternativas que ajudem você na divulgação e disseminação da sua obra. Por isso, destaquei aqui as cinco concorrentes mais difíceis de cada uma das categorias mais procuradas em livrarias. Essa relação leva em conta o número de aparições de uma editora na lista de livros mais vendidos para o mês de outubro de 2021, e pode ser usada como uma fonte de inspiração, para você encontrar seu nicho ou até mesmo uma editora que inspire você.

Geral

  • Grupo Companhia das Letras – 19 vezes;
  • Grupo Editorial Record – 18 vezes;
  • Panini – 16 vezes;
  • Alta Books – 14 vezes; e
  • Sextante – 13 vezes.

Ficção 

  • Panini – 16 vezes;
  • Grupo Editorial Record – 6 vezes;
  • Intrínseca – 5 vezes;
  • Grupo Editorial Companhia das Letras – 3 vezes; e
  • Leya – 2 vezes.

Não ficção

  • Grupo Editorial Companhia das Letras – 6 vezes;
  • Citadel Grupo Editorial – 3 vezes;
  • Alta Books – 2 vezes;
  • DarkSide – 2 vezes; e
  • Globo – 2 vezes.

Autoajuda

  • Grupo Editorial Record – 5 vezes;
  • Sextante – 5 vezes;
  • Alta Books – 4 vezes;
  • Citadel Grupo Editorial – 3 vezes; e
  • Gente – 2 vezes.

Infantojuvenil

  • Grupo Editorial Companhia das Letras – 8 vezes;
  • Grupo Editorial Record  5 vezes;
  • Planeta – 3 vezes;
  • Rocco – 2 vezes; e
  • Intrínseca – 2 vezes.

Negócios

  • Gente – 7 vezes
  • Citadel – 5 vezes
  • Sexta – 5 vezes
  • Alta Books – 4 vezes
  • HarperCollins Brasil – 3 vezes

Perceba como algumas editoras não saem do hall da fama e aparecem diversas vezes. Isso significa que, além de serem gigantes do mercado, com uma capacidade de distribuição enorme, elas possuem um esquema de produção editorial muito bem consolidado e que pode ser um ótimo alvo para as suas pesquisas de publicação. Conheça o tipo de trabalho da editora alvo e tente pegar uma carona com ela.

Se você quiser fazer uma nova pesquisa, acompanhando resultados semanais, mensais e anuais dessa lista, deixo aqui o link para acessar o site em que ela está. Também, vou deixar um botão que leva para um pequeno catálogo, em que estão algumas editoras médias e pequenas, com trabalhos incríveis e que também podem inspirar sua jornada de publicação independente.

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