A Trança, de Laetitia Colombani: Histórias que se amarram no “ser mulher”

Resenha por Mariana Makluf
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A trança é uma história – quase uma poesia – lançada em 2021 por Laetitia Colombani, que já vendeu mais de 1,4 milhões de exemplares. Conta a história de três mulheres, de três culturas diferentes, que passam por três problemas diferentes, de acordo com o “ser, aqui, agora” de cada uma. Cada uma dessas mulheres representa uma mecha, cuidadosamente apresentada, tratada e trançada durante a narrativa, que, no fim, vão se juntar em um ponto de amarração, união. Essa trança, formada por meio da história das protagonistas, envolve cada uma de nós, leitoras.

“Estranho bailado esse, dos meus dedos. Escreve uma história de tranças e entrelaços; Essa história é a minha história. Embora não me pertença.”

A narrativa impecável trançada por Laetitia é composta por um pouco da vida de Smita, de Giulia e de Sarah. Smita é uma mulher da Aldeia de Badlapur, Uttar Pradesh, na Índia. Uma dalit, uma intocável, uma espécie julgada impura pelos demais, que acorda todos os dias, desde criança, para exercer o único trabalho da qual é considerada digna pelas outras classes: limpar a merda dos outros (no sentido mais literal e cruel do termo). Mas Smita também é mãe, e para sua filha de seis anos, Lalita, não quer o mesmo destino. Assim, ela se arrisca para que a menina tenha o básico, algo que a própria Smita nunca teve: a oportunidade de frequentar a escola.

Em paralelo a essa história, temos Giulia, uma jovem residente de Palermo, Sicília, cujo oficio e tradição familiar é tratar e vender cabelos italianos. Seu pai é sua inspiração e os negócios da família, seu legado. Mas a vida não é simples, e Giulia vê seu pai, e seu ateliê, entre a vida e a morte. Assim, entre a tradição e as inovações, a menina precisa tomar uma decisão que irá mudar o rumo de sua vida.

Por fim, temos Sarah, uma advogada de sucesso de Montreal, no Canadá. Sarah sempre se dedicou ao trabalho, e quer ser uma das poucas mulheres que atingem o ápice profissional. Mas sendo mulher, Sarah enfrenta desafios que em geral os homens não precisam encarar, porque a gravidez e os filhos não costumam ser um obstáculo para eles. E, quando enfim se encontra tão perto do tão almejado cargo, Sarah é diagnosticada com câncer de mama, deixando de ser Sarah, para virar “o câncer”.

“Ela amaldiçoa essa sociedade que esmaga seus fracos, suas mulheres, suas crianças, todos aqueles que devia proteger.

À primeira vista, as histórias dessas mulheres têm pouco em comum. Todas elas são fortes, mas estão inseridas em uma sociedade machista, injusta e hipócrita. Todas elas travam suas batalhas, internas e externas, dia após dia, a fim de conseguir o que é seu por direito: uma vida digna, simples. A delicadeza com que as histórias são trançadas, e a forma como nós, mulheres, nos encaixamos entre esses fios, é o que faz dessa leitura, dessas poucas mais de 100 páginas, algo tão belo, tão válido e tão profundo.

“Que estranho, repara, a vida às vezes junta os momentos mais sombrios com os mais luminosos. Dá e tira ao mesmo tempo”.

Principais Impressões

Decidi ler A trança por pura curiosidade: – É uma leitura curta, aparentemente simples, por que não? – Mas o que eu não esperava era a tamanha identificação que senti com as três histórias, tão distintas entre si, e tão distintas da minha. É interessante perceber como a autora, capítulo após capítulo, de forma lenta e cuidadosa, costura as histórias, até que, no fim, elas se encontrem e se amarrem de forma sutil. O que mais me encantou nessa leitura foi a forma como Laetitia Colombani mostra que, em qualquer lugar do mundo, mulheres encontram dificuldades que são comuns a todas as outras mulheres. O desafio de levantar sua voz diante de uma sociedade patriarcal, a luta para alcançar o sucesso profissional, a luta por direitos que deveriam ser básicos… Enfim, a luta diária que enfrentamos por sermos mulheres: para sobreviver, crescer, ser. E, mesmo que as personagens não saibam da existência umas das outras, suas histórias ainda se encontram, sem que elas percebam, assim como, de alguma forma, se encontram com a minha e com tantas outras por aí. Uma frase que, para mim, define a leitura é: Não estamos sozinhas, somos únicas, e somos muitas, e somos juntas. E se tem um ponto que poderia ser considerado negativo (mas não é), é o gosto que senti no final, o de querer saber ainda mais sobre essas mulheres tão fortes, tão diferentes e que carregam um pouco de mim.

“Sou apenas um elo, um ponto de união irrisório, que segue firme na interseção de suas vidas, um fio tênue a uní-las, fino como fio de cabelo, invisível ao mundo e aos olhos…”

Nota

Avaliação: 9.5 de 10.
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