Resenha – Sobre os ossos dos mortos, de Olga Tokarczuk

Na premiação de 2018, o comitê do Prêmio Nobel de Literatura decidiu entregar a distinção à polonesa Olga Tokarczuk (e a Peter Handke), autora de uma vasta obra literária na qual se encontra o romance Sobre os ossos dos mortos, que chegou ao Brasil em 2019 pela editora Todavia, traduzido por Olga Baginska-Shinzato. Hoje, vamos falar um pouquinho sobre esse encanto de livro!

O romance, com cerca de 250 páginas, é narrado pela protagonista Janina Dusheiko, uma engenheira e professora aposentada que se dedica a ajudar os animais e protegê-los contra os caçadores do seu pequeno vilarejo, na fronteira entre a Polônia e a República Tcheca, enquanto realiza suas investigações sobre os mistérios da astrologia e ajuda seu amigo Dísio a traduzir os versos de Blake.

No momento em que a história começa, somente Janina e outros dois moradores, Esquisito e Pé Grande, estão no Lufcug, o vilarejo, pois a maioria de seus habitantes vai para a cidade quando chega o inverno, deixando a região praticamente deserta — com apenas três das sete casas que compõem a paisagem habitadas. E logo no primeiro capítulo, Esquisito bate à porte de Janina, em plena madrugada, para ajudar a arrumar o corpo de Pé Grande, que acabava de morrer.

Pé Grande, caçador inveterado, morrera num suposto acidente, engasgado com um osso que perfurara sua garganta, após haver matado e esquartejado uma corça que viera para a região há pouco tempo. Após ter trocado sua roupa e o deixado mais apresentável, Janina procura a data de nascimento de Pé Grande para observar a posição dos astros em relação à sua data de morte. Ela está segura de que, assim como haveria algumas relações entre o mapa astral de uma pessoa e os eventos de sua vida, a data e a causa da morte também poderiam ser encontrados nos planetas. Sua sensibilidade, exibida em doses homeopáticas ao longo de toda a narrativa, inclui uma perspectiva melancólica sobre o universo, a vida e a solidão. Em uma dessas passagens, ela pensa:

Fico comovida ao ver imagens de satélite e da curvatura da Terra. É verdade, então, que vivemos na superfície de um globo, expostos ao olhar dos planetas, abandonados num enorme vazio, onde, após a queda, a luz se aglutinou em pequenos fragmentos e arrebentou? É verdade. Deveríamos ser recordados disso todos os dias, porque nos esquecemos.

Quando a polícia finalmente chega, na manhã seguinte, começam as investigações sobre a morte de Pé Grande, que, ao contrário do que Janina e Esquisito haviam pensado, talvez não se tratasse de um acidente — e, sim, de um assassinato. Mas quem poderia tê-lo cometido?

Janina concebe uma teoria, na qual ninguém acredita, de que os animais resolveram se vingar de todos os anos de maus tratos, armadilhas, púlpitos de caça e crueldades dos seres humanos. Talvez agora eles estivessem, enfim, reagindo à nossa desumanidade. Janina, que é vegetariana e protetora dos animais, expressa seus pensamentos a respeito dessa relação, entre seres humanos e outros animais, em diversos momentos, urgindo a todos — vizinhos, caçadores, policiais — que deixem os animais em paz:

— Os animais mostram a verdade sobre um país — eu disse. — A atitude em relação aos animais. Se as pessoas tratarem os animais com crueldade, não adiantará de nada a democracia ou qualquer outra coisa.

Outras mortes de seres humanos cruéis com animais voltam a acontecer, aumentando o clima de suspense que assombra a história. E outros assassinatos de animais continuam a ocorrer, sem que ninguém, além de Janina, lhes dê a devida importância. Seus apelos, constantemente ignorados, fazem com que as pessoas ao redor acreditem que ela se importa mais com os animais que com os seres humanos (alô, especistas! deixem disso!), o que a coloca na condição de suspeita. Quem mais teria tantos motivos para querer essas pessoas fora do seu caminho?

Novos personagens vão se juntando à narrativa: o entomólogo, “Boros”, a moça do brechó, “Boas Novas”, o velho dono do Poodle que frequenta o brechó, e os outros vizinhos que de vez em quando aparecem na narrativa. Há também alguns momentos em que a narradora tem sonhos (visões?) com a mãe e a avó já falecidas, mas sem grande impacto no curso da história. Assim, a lista de personagens suspeitos aumenta, criando novas conexões ligadas também ao cenário dos assassinatos e ao clima de mistério.

Uma coisa interessante na escolha desses nomes — que, como devem ter notado, são apelidos — é pensar na estratégia usada muito sagazmente pela autora, para facilitar talvez a vida de seu público internacional, que teria dificuldades de guardar os nomes em polonês como o de Esquisito: Świerszczyński.

Principais impressões

Num tom de thriller e relato existencial, o romance nos deixa com a pulga atrás da orelha, em meio a visões de mundo que talvez, para muitos, sejam a porta de entrada para o debate entre o bem estar animal, a ética e a nossa própria humanidade, que vem sendo anestesiada pela nossa apatia e falta de compaixão, como profere a narradora em um de seus discursos:

O ato de se matar se tornou impune. E por ser impune, ninguém o percebe mais. E já que ninguém percebe, não existe. Quando passam pelas vitrines dos açougues onde grandes pedaços vermelhos de corpos esquartejados estão pendurados em exposição, acham que aquilo é o quê? Não refletem sobre isso, não é? Ou quando pedem um espetinho ou um bife, o que recebem, então? Nada disso assusta mais. O assassinato passou a ser considerado algo normal, virou uma atividade banal. Todos o cometem. Assim seria o mundo se os campos de concentração se tornassem algo normal. Ninguém veria nada de errado neles.

Além de ser muito envolvente, como se espera de um suspense escrito por uma vencedora do Prêmio Nobel, o livro abre oportunidades para que o leitor reflita sobre seus hábitos, sobre a ideologia carnista e nossa condição durante esse breve trajeto que é a vida. Além disso, as epígrafes e referências aos Provérbios do Inferno (de onde vem o título do livro!), Augúrios da Inocência e O Viajante Mental, que estão no corpo do romance direta ou indiretamente, abrem o diálogo intertexual com a obra de William Blake, cujos versos fazem parte do seu repertório cultural e ideológico. Um dos versos que mais me chama a atenção, presente na epígrafe do capítulo 7, parece estabelecer a comunicação em linha direta com a aposta do romance, se fosse possível resumi-lo em uma frase: um cavalo maltratado no caminho clama ao céu pedindo sangue humano.

Os únicos pontos negativos que, para mim, cabe apontar, são: (a) a construção da imagem da mulher vegetariana e amante dos animais como mística e esotérica, que pode fazer com que se tenha a impressão de que o tratamento ético dos animais é uma questão de crença, como a astrologia e as religiões, e não um ponto de vista muito racional e repleto de argumentos sólidos a seu favor, e (b) a escolha da personagem pelo vegetarianismo e não pelo veganismo, fazendo diversas menções a leite, ovos e queijos de seu consumo, o que é inconsistente com a visão de mundo de defesa dos direitos e liberdades dos animais. De qualquer forma, me parece que o livro pode ser muito útil nessa luta, que precisa — fora do mundo literário — urgentemente ser vencida.

Nota

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Resenha – “As bucólicas”, de Virgílio

As bucólicas: Narrativa da poesia, da terra e do amor

VIRGÍLIO. Bucólicas: edição bilíngue. Trad. Raimundo Carvalho. Belo Horizonte: Crisálida, 2005.

Para a presente resenha, foi escolhido o livro “Bucólicas: edição bilíngue” de Virgílio, elaborado pela editora Crisálida com a tradução de Raimundo Carvalho. Expõem-se abaixo, sinteticamente, os resumos das éclogas I a X presentes no livro, bem como trechos ilustrativos das passagens em questão.

Écloga I: Melibeu e Títiro conversam; este toca a flauta, sentado na relva sob a sombra de uma faia… Conversam sobre os amores e sobre os campos, que sofreram reviravoltas por força das guerras. Os cantos finais revelam que Títiro pôde conservar os seus, enquanto os de Melibeu lhes são destituídos, como evidencia o trecho abaixo:

Algum dia, depois de longo tempo, a pátria
e meu pobre casebre entre a relva revendo,
com espanto verei no meu reino uma espiga?
Um ímpio militar possuirá estas glebas?
Um bárbaro a seara? Onde a guerra lançou
míseros cidadãos! Para outros semeamos!

(I, 67-72)

Écloga II: Córidon, um pastor, reflete sobre seu amor não correspondido pelo seu servo, Aléxis. Argue com relação às suas posses e a sua beleza física, aludindo além disso às suas aptidões musicais, comparando-se ao fundador mítico de Tebas:

Canto o que, ao guiar seu gado, cantava
Anfion, o dirceu, em ático Aracinto.

(II, 23-24)

Aléxis, contudo, não corresponde aos seus clamores, e o repele definitivamente, dizendo:

Aléxis não quer teus dons, ó Córidon rústico,
nem Iolas cederá, mesmo se deres muitos.

(II, 56-57)

Écloga III: Menalcas e Dametas, dois pastores, trocam insultos e decidem medir-se com seus cantos, numa competição pela superioridade em suas artes, mediados pelo amigo Palêmon. Invocam, na justa, os nomes de muitos de seus deuses, Júpiter, Febo e Vênus como exemplo, falando também do amor e do gado. Não é eleito, contudo, nenhum vencedor.

Écloga IV: Uma das mais exemplares no que diz respeito à fortuna crítica, a quarta écloga apresenta a vinda de um menino, previsão messiânica que porá fim à idade de ferro para acolher a idade de ouro, o que levou muitos a compreender o poema como profecia da história cristã:

Nasce agora uma grande ordem de novos séculos.
Já a Virgem retorna, e o reino de Saturno;
já nova geração vem vindo do alto céu.
E do menino, sob o qual, raça de ferro
sumindo, surgirá uma de ouro no mundo,
casta Lucina, cuida: o teu Apolo reina.

(IV, 5-10)

Écloga V: Menalcas e Mopso unem-se para com suas flautas honrar Dáfnis (amigo destes e exímio poeta, que deixou a todos desconsolados com sua morte), ofertando a ele, além de cantos, votos e louvores em seu nome, oferendas anuais de azeite, leite fresco e vinho. Ao final, os poetas trocam suas flautas, e Menalcas propõe-se a ensinar a Mopso os cantos das éclogas II e III:

Mopso:

Morto Dáfnis, cruel fim as Ninfas choravam
(vós, rios e avelãs, vistes a dor das Ninfas),
quando, ao corpo do filho infeliz abraçada,
a mãe chama cruéis deuses e também astros.

(V, 20-24)

Menalcas:

Nem o lobo tocaia o gado ou redes cervos
almejam: ama a paz o benéfico Dáfnis.
Aos céus sobem a voz, com alegria, os montes
intocados, até as grutas e os arbustos
entoam: “Ele é deus, o nosso deus, Menalcas!”

(V, 60-64)

Écloga VI: Mnasilo e Crômis avistam Sileno, um cantor, dormindo em uma gruta, embriagado, e o atam, seguidos logo por Egle, descrita como “Naiadum pulcherrima”, isto é, Náiade muito bela. Para convencê-los a soltá-lo, se propõe a cantar-lhes versos, e começa por cantar a origem do mundo:

Nem tanto alegra Febo as pedras do Parnaso,
nem a Orfeu admira, o Ísmaro ou o Ródope.
Ele cantava, pois, como, no grande vácuo,
sementes de água e ar, de terra e fogo fluido
se fundiram; daí, originando tudo,
como também a tenra abóbada do mundo;
o solo endureceu, fechou Nereu no mar
e aos poucos foi tomando o formato das coisas;
a terra admira um sol novo sempre a brilhar,
e as chuvas a cair de nuvens muito altas,
enquanto selvas vão surgindo e animais
vagam dispersos sobre esses montes ignotos.

(VI, 29-40)

Narra  também os grandes feitos da mitologia antiga, aproximando-se de uma estética do épico, como a paixão de Pasífae, o roubo de Prometeu, as maçãs das Hespérides, o mito de Cila e outros mais, enquanto faunos e feras dançam balançando as copas dos carvalhos.

Écloga VII: Tírsis e Córidon medem seus versos, retomando a estrutura da terceira écloga. São mediados pelo pastor Melibeu, e o segundo é conclamado vencedor, ainda que a razão para isso não seja colocada em evidência.

Écloga VIII: Dámon e Alfesibeu cantam seus amores – este, por Dáfnis, para fazê-lo retornar da cidade magicamente, através de um ritual; aquele, por uma mulher, Nisa, que foi dada a Mopso. Alfesibeu, feliz, tem ao final o retorno de Dáfnis; Dámon, por outro lado, finaliza o canto com uma sugestão de suicídio.

Dámon:

Nasce, prenunciando um belo dia, ó Lúcifer!
Logrado pelo vil amor da noiva Nisa,
queixo-me aos deuses (vãs testemunhas embora),
nesta hora suprema em que estou morrendo.

(VIII, 17-20)

Dámon:

Modula, minha flauta, estes versos do Ménalo.
Muda-se tudo em mar alto. Selvas, adeus:
O abismo saltarei do topo de um rochedo;
às ondas; toma o dom extremo de quem morre.

(VIII, 58-61)

Alfesibeu:

Traze água e cinge o altar com fita maleável
queima grassa verbena e um incenso forte,
pois, com um ritual, perverter o juízo
do amado tentarei. Só me faltam encantos.
Encantos meus, trazei da cidade o meu Dáfnis.

(VIII, 65-69)

Alfesibeu:

É verdade? Ou quem ama inventa os próprios sonhos?
Chega de encantos já, vem da cidade Dáfnis.

(VIII, 109-110)

Écloga IX: Lícidas e Méris conversam. O primeiro elogia os versos do segundo, sendo representado como um poeta muito humilde. Novamente se assoma a questão da terra, retomando a temática da primeira bucólica.

Méris:

Vivemos para ouvir, Lícidas, um intruso
(nunca pensei), senhor de nossos parcos campos,
afirmar: “Isto é meu; migrai, velhos colonos”.
Tristes, vencidos, já a sorte tudo inverte,
lhe mandamos (que o mal lhe tragam!) uns cabritos.

(IX, 2-6)

Écloga X: Galo, um poeta, canta seu amor a Licóris, que fugiu com outro pelo Reno. Sua formulação o apresenta como altamente sentimental e “patético” – no sentido originário de afetado pelo pathos. A bucólica não apresenta solução para a questão, mas sugere um final trágico.

“De onde vem tal amor?”, perguntam. Veio Apolo:
“Que insânia, Galo?”, diz; “tua cara Licóris,
foi com outro a quartel erguido em meio à neve”.

(X, 21-23)

Tu (pudera eu não crer), tão distante da pátria,
vês, dos Alpes, a neve e a neblina do Reno,
tão sozinha e sem mim. Que isso não te maltrate!
Ah, não fira teus pés tenros o gelo áspero!

(X, 46-49)

Com a análise das dez éclogas, saltam aos olhos algumas temáticas e recursos recorrentes na poética virgiliana: o pathos nas invocações amorosas (éclogas II, IV, VIII e X), a questão da terra, associada frequentemente a possível incidente biográfico (éclogas I e IX), a competição entre poetas para medir seus versos (éclogas III e VII), e a própria reverência às aptidões poético-musicais (éclogas V e VI).

Possivelmente, entre todas, a bucólica que mais se afasta da composição estética da antologia é a sexta, por narrar grandes feitos épicos, a criação do mundo e os grandes heróis da mitologia clássica, ao contrário das demais, que se atém às questões do campo, do amor, da habilidade, da rejeição, do sofrimento, etc., isto é, aos assuntos mais imediatos e tangíveis da experiência humana.

O conjunto também apresenta como traço comum a auto-referenciação, retomando personagens ou trechos de uma écloga em outras, como Córidon ou Melibeu, que aparecem mais de uma vez “em cena”; Dáfnis, que está morto na quinta écloga, motivo pelo qual os poetas choram, mas que conversa com Melibeu na sétima; ou a proposta de Menalcas de ensinar a Mopso as éclogas II e III; entre outros exemplos de trechos que conformariam, em união, um universo mítico.

Além disso, pode-se notar uma grande presença de elementos dramáticos, como a fala em tempo presente, a própria rubrica entre parênteses e a indicação cênica (sentado sob a faia… etc.) É intuitivo perceber a influência dos gêneros dramáticos na composição lírica de Virgílio.

Logicamente, também são muito frequentes os elementos da “cor local” árcade-bucólica, isto é, os rebanhos, as ovelhas, a flauta, a relva, as criaturas místicas dos bosques como faunos e náiades, etc. que orientam o ouvinte em relação ao locus amoenus, posteriormente assimilado pelos poetas árcades, como no grande exemplo de Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga, assim como em universos musicais modernos, em especial na tradição do campo, como alguns nichos da música sertaneja.

Nesse sentido, apenas por criar uma tradição, a obra de Virgílio já poderia ser considerada grandiosa, mas não apenas possui esse mérito como também tem sempre relembrado em sua crítica o seu perfeccionismo em relação à métrica. As Bucólicas configuram, portanto, material rico para análise de elementos semânticos e formais, além de fornecerem fragmentos de uma cultura de que nos restam poucos registros, orientando o leitor em relação à compreensão da sociedade clássica, sua ética e seus costumes.

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