Ode ao humor

Fascinante experiência é ver-se através de um espelho! A produção virtual de uma realidade, na qual se reflete de forma mais ou menos precisa a imagem própria do indivíduo, sem dúvidas lhe provoca alguma espécie de inquietação. Essa ocorrência — que por vezes se dá nas mais fugazes das circunstâncias, como que numa espera dentro de um elevador para atingir o andar do prédio em que se trabalha ou do apartamento em que se mora, ou até mesmo no breve reflexo produzido pelas janelas de um ônibus que passa à frente, enquanto se espera a luz verde do sinal de pedestres para atravessar avenida — é o estalo de narciso mais ou menos duradouro que habita a todos nós.

A experiência narcísica não se reduz somente a uma admiração própria ou a uma fixação contemplativa inelutável rumo à imagem própria. Não. Ela se mistura a uma certa agonia, um amálgama entre a recusa e o desejo de si. Divididos numa fração de segundo, essas duas metades inseparáveis agora se encaram na indissolúvel contradição entre atração e repulsa de nós para conosco — a segurança apaziguadora do que em cada um é unidade agora fragmenta-se em duplo.

Dir-se-ia que há uma vontade hesitante do espírito em se reconhecer nesta unidade que representa o corpo, mas a consciência de nossa multiplicidade interior rapidamente a desconfigura. É angustiante e, por vezes, até mesmo revoltante quando somos resumidos a um estereótipo; a definição redutora que rotineiramente nos é atribuída como arquétipos de somente uma das faces do prisma que compõe a nossa natureza provoca a reação quase que instantânea de erro — não somos limitados ou definidos (somente) por isso.

Encarar a imagem própria coloca em conflito, então, essas várias facetas de um mesmo “eu”, agora dividido no confronto com seu reflexo — este estranho familiar que passa a representar o “outro”. Eu e outro frente a frente, reprimindo-se, julgando-se, reconciliando-se na medida do possível, pois que guardam diferenças fundamentais entre si. A parte em mim que concentra todo o espírito de completude, de estabilidade, de equilíbrio, impõe represálias àquela outra em cujo desejo inebriante de retorno ao instintivo, à aventura, à solidão e à embriaguez se aflora.

Passado o veículo coletivo, aberta a porta do elevador, essas duas metades tornam a se tensionar dentro dessa aparente unidade física que é o nosso corpo. Condenados a viver neste eterno pêndulo de luz e sombra que nos habita a essência desde o reconhecimento inicial do pensamento. Reduzimo-nos àqueles bons dias em que se cumprem todas as obrigações e o retorno à casa se dá pacificamente para o descanso merecido após algumas horas de dedicação. Esses dias que se nos apresentam sem maiores êxtases, sem maiores dores. Cada vez mais frequentes — invisíveis.

O reflexo já se foi, não nos resta mais brigar, mas alguma coisa ainda carece, ainda estamos em dívida com nosso outro interior. A dívida é eterna, e sábio é aquele que vê a divisão primordial como ironia de si, e a transforma numa grande peça de humor.

20 de Abril de 2021.

Imagem da capa: O espelho falso (1928) – René Magritte


Devaneios de um viajante solitário

Em tempos de isolamento, a conexão pela palavra é a potência. Crônicas com as quais se possa identificar e a partir das quais se possa refletir, parar tirar de si aquilo que há de latente e encarar de frente, nunca mais desistir. Vamos juntos pelas ruas tortas desse mundo, de mãos dadas.

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