Resenha – “Toradora”, de Yuyuko Takemiya

Traído pela nostalgia

Terminei de ler recentemente a nostálgica light novel de Toradora, escrita por Yuyuko Takemiya, obra de 10 volumes, que me deixou com sentimentos conflitantes.

Um curiosidade divertida é que, para quem não sabe, a história foca em um menino, Ryuuji, e em uma menina, Taiga. E o nome da obra vem da brincadeira com estes nomes: Taiga se pronuncia da mesma forma que “tigre” em inglês – Tiger – então é utilizado o nome “tigre” em japonês – TORA (虎). Ryuu (竜), de Ryuuji, significa Dragão e vem da pronúncia de Dragon, do inglês: no japonês é Do-ra-gon – de onde se tirou o DORA. Então é daí que veio o nome: TORADORA! (とらドラ!).

Enfim, o livro é a fonte em que o anime se baseou, então sempre tive muita vontade de ler essa belezinha, por ter tanto carinho pelo anime. Pois bem… não sei se minha memória me engana, ou se meus gostos mudaram, ou se foi o livro mesmo que não me agradou tanto quanto o anime. De qualquer forma, deixo aqui as minhas impressões.

Abaixo, coloquei a segunda abertura do anime para vocês curtirem enquanto leem!

Segunda abertura do anime Toradora!

Personagens e gatilho da narrativa

A narrativa é uma comédia romântica que envolve os dois personagens mencionados. Ryuuji é filho de uma mãe solteira e jovem. Não se sabe o paradeiro de seu pai (apenas que teria algo relacionado à Yakuza?), mas ele possuía características amedrontadoras, que Ryuuji acabou herdando, como seus “olhos furiosos”. Para a infelicidade do filho, esses olhos causaram (e causam) vários mal entendidos. 

Já Taiga é filha de pais divorciados e ricos, mas não possui uma boa relação com nenhum dos dois. Ambos os pais davam tudo que a filha queria para que ela vivesse por conta própria, negligenciando os sentimentos da garota e no fundo buscando apenas a própria felicidade. Por isso, Taiga é uma garota atrapalhada e solitária, mas também é forte e se esforça para ser independente. Por ser muito baixinha, feroz e pela pronúncia de seu nome (tigre em inglês, como eu expliquei), ela é temida e apelidada pelos colegas como “tigresa de bolso”.

A história dos dois começa e se desenvolve quando, em um acidente, Ryuuji descobre que Taiga é apaixonada pelo seu melhor amigo. Ao mesmo tempo, Taiga percebe que Ryuuji está apaixonado por sua melhor e única amiga. Depois de algumas confusões e disputas iniciais, eles combinam de fazer uma trégua para se ajudarem, um ao outro, na conquista de suas respectivas paixões. E é claro que a partir daí muitas desavenças e descobertas acontecem e colocam a trama para caminhar e nos divertir.

O sorriso do dragão

Olha, o que eu achei positivo é que a trama é realmente divertida em alguns momentos e é bem legal ver o relacionamento dos personagens crescendo ao longo da história. Além disso, tem a nostalgia e o carinho do anime, que retornam em certas cenas, e isso foi reconfortante durante a leitura. Também, é ótimo ter muito mais detalhes sobre toda a obra – cenários, personagens, detalhes etc. – em comparação com a adaptação para o anime.

A lágrima do tigre

Mas acho que tive mais desconfortos do que alegria, e, por se tratar de um texto escrito, muita coisa acaba podendo ser mal interpretada ou confusa.

Eu normalmente gosto muito de toda a dublagem, da trilha sonora e da animação, e a falta dela fez com que as cenas que eram para ser supostamente engraçadas ou não fazem muito sentido ou são demasiadamente violentas. Por exemplo, em um episódio em que Taiga bate em Ryuuji, uma cena típica de comédia na mídia japonesa, a escrita é tão detalhada, fria e direta que ela parece estar até matando o coitado do personagem. Temos também a dificuldade de perceber o famoso lado tsundere de Taiga, que quase se perdeu no livro pela falta de dublagem. Ela quase sempre aparenta ser um completo demônio, agindo de um jeito perverso e cruel. Eu, que antes adorava a Taiga e que a tinha na memória como fofa e bonita, quanto mais caminhava a narrativa e ela aparecia, mais irritado ficava com ela.

Outra coisa, os personagens acabam não sendo tão distintos em seus trejeitos de fala, o que acaba tornando certos diálogos confusos, sem a gente saber quem é que está falando o quê. Às vezes, detalhar demais um problema ou uma situação só deixa ela mais confusa do que a esclarece. Fora que alguns detalhes parecem mais querer encher a página do que de fato enriquecer a cena.

O encontro com a fera do passado

Tudo que senti, no final, foi traição em relação à minha própria nostalgia. Tenho até medo de tentar reassistir Toradora e desgostar profundamente dele, uma vez que é uma obra muito querida, mas querida na infância. De qualquer forma, volto a dizer: apesar de a leitura parecer bastante chata em dados momentos e ter traído minhas lembranças, é muito legal ver o relacionamento dos personagens se desenvolvendo. Foi uma boa experiência a leitura? É, de alguma maneira. Mas, por conta dos pontos que citei, recomendo muito mais que você veja o anime, caso tenha interesse, ao invés de ler a light novel. Dez volumes é bastante coisa e acredito que o anime de Toradora trará uma ótima experiência, até porque adaptou muito bem o livro que o inspira.

Resenha – “A vegetariana”, de Han Kang

Para colher dos outros frutos

Desde 2018, quando decidi morar com minha companheira e noiva, estou em contato (imerso, eu diria) com o discurso vegetariano/vegano e também com os hábitos que o compõem. Talvez tenha sido daí que surgiu o interesse em ler o livro da sul-coreana Han Kang: A vegetariana, publicado pela editora Todavia, em 2020, que, desde o título, parece tocar na questão dos direitos dos animais.

Mas, ao contrário do que sugere esse título, não se trata de uma narrativa que tem como centro do debate a animalidade e o vegetarianismo, e ao invés de colher pêssegos no pessegueiro de Han Kang, colhi algumas maçãs. Esse é um ponto que me causou, ao mesmo tempo, certa decepção e certa alegria durante a leitura, e espero que, nessa resenha, eu consiga esclarecer o porquê.

Trama

A vegetariana conta a história, mas principalmente o enigma, das consecutivas decisões da personagem Yeonghye: uma artista gráfica que – aos olhos do marido Cheong e de seus familiares – é completamente normal, mediana e, de certa maneira, cumpridora de suas obrigações.

Tudo começa com a narração de Cheong, revelando que a esposa, depois de ter um sonho, decide se tornar vegetariana/vegana, repudiando qualquer coisa que esteja relacionada à exploração animal, da carne aos sapatos de couro. A decisão dela se transforma em um empecilho para a dinâmica familiar que tanto agradava o marido, e seus desdobramentos são um crescente que move a narrativa e se desdobra em novos capítulos.

No livro, teremos três deslocamentos de narrador, passando primeiro pelo marido, depois pelo cunhado de Yeonghye e finalmente por sua irmã mais velha. Cada um dos três precisa lidar com o mistério da personagem central, que, assim como o Bartleby, de Herman Melville, entra em um processo contínuo de recusas absurdas: não comer, não se lavar, não se vestir, não falar (e não viver, talvez?).

Pêssegos e maçãs

Han Kang não fez um romance amador ou de primeira viagem: A vegetariana é, na verdade, afiadíssimo, tanto na construção de paralelos cênicos internos, bem como na brincadeira com as vozes narrativas, que, ainda que próximas, nunca alcançam ou entendem as intenções da personagem central da trama. Além disso, a áspera crítica a uma política ditatorial contra o corpo e contra o indivíduo, procurando encontrar uma outra relação consigo e com o outro, não perde de vista a força literária e evita, na maior parte do tempo, o didatismo e a auto explicação tão comuns em romances contemporâneos.

Agora, um ponto que também acho importante comentar é a maneira como se articulam no texto, intencionalmente ou não, o carnismo e o machismo (bem como outras formas de violência). Ainda que não apareça como ponto central, a barbaridade humana contra os animais aparece no livro como um sinédoque da relação que um “homem normal” – como se auto intitulam Cheong e o pai de Yeonghye – estabelece com uma mulher, uma vegetariana. Mas também poderia ser com um estrangeiro, com um negro, um gay etc. O que quero dizer é Han Kang acaba demonstrando que sempre haverá, segundo nossa cultura excessivamente capitalista, um descompasso que resulta em violência contra o que é diferente, ainda que ela seja insistentemente mascarada.

Frutas podres

A primeira impressão que tive do livro foi extremamente negativa e me sinto até um pouco estranho já que, agora, mal consigo pensar em algo de que não gostei na trama e no estilo da autora. Acho que, fora minha decepção momentânea com o fato de o vegetarianismo não estar no centro do debate, apenas o terceiro capítulo (“Árvores em chamas”) me causou uma má impressão, já que, nele, frequentemente, as metáforas são explicadas e desmontadas pelo narrador e pelos olhos da irmã de Yeonghye.

Fora esse fruto estranho e um tanto azedo para meu paladar, não colhi nada que não fossem boas maçãs do pessegueiro plantado por Han Kang. Talvez fosse o caso de subir outra vez à escada e retomar a obra, à procura de outros frutos, mesmo daqueles que contêm as larvas, quase invisíveis, por baixo da casca.

semear

É sempre muito bom poder ler um livro que sai do nosso ciclo tradicional, da cultura ocidental/acidental, para enveredar rumo a essas literaturas diferentes e, diga-se de passagem, de muita qualidade. A vegetariana é, com toda certeza, uma das melhores obras que li neste ano de 2021, e me deixou motivado a procurar outros textos de Han Kang e de seus conterrâneos.

Aos que querem ler uma obra pequena, mas poderosa e impressionante, e aos que têm curiosidade pelo fato de se tratar de um texto para lá de estrangeiro: cedeis à vossa curiosidade. A leitura, se não indispensável em tempos como os nossos, é extremamente frutífera. Acredito que não haverá arrependimentos.

Resenha – “O exército de um homem só”, de Moacyr Scliar

Um delírio, uma realidade

Confesso que meu interesse pela obra O exército de um homem só (1974), de Moacyr Scliar, surgiu por conta da canção homônima, presente no álbum O papa é pop (1990), da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii. Sendo um dos meus discos favoritos dessa banda, fui logo convidado à leitura com altas expectativas quanto ao conteúdo do livro, como se o compositor e vocalista, Humberto Gessinger, estivesse dialogando diretamente com a obra do escritor judeu, radicado em Porto Alegre, em suas composições.

Ao fim da leitura, consegui estabelecer de fato algumas relações entre canções e texto, mas são pontos que não vão muito longe e que talvez merecessem um texto mais longo e demorado. De qualquer modo, aos que não conhecem, deixo abaixo a música do(s) Engenheiros do Hawaii.

https://durasletras.com/wp-content/uploads/2022/07/01.-o-exercito-de-um-homem-so.mp3
Primeira faixa do álbum O papa é pop (1990) – Engenheiros do Hawaii

Resumo

Na história, acompanhamos alguns dos anos de vida de Mayer Guinzburg, um judeu de origem russa, excêntrico, que, vivendo no bairro do Bom Fim, em Porto Alegre, pretende criar “uma nova sociedade”, a Nova Birobidjan: uma comuna judaico-comunista em terras brasileiras e que é inspirada na Birobidjan russa, terra de judeus do antigo país soviético.

Tendo por parâmetro o socialismo de Stalin, mas tomando atitudes grotescas e muitas vezes antipopulares, nós assistimos Mayer fracassar diversas vezes, passeando entre ascensões econômicas e falências abruptas, alucinações e confrontos verdadeiros com as autoridades locais, a família, as amantes e os amigos.

O livro começa e termina no ano de 1970, com a suposta internação e morte do “Capitão Birobidjan”, apelido pelo qual Mayer é conhecido.

Bônus

Trata-se de um livro curto e muito dinâmico, ou seja, a leitura avança com velocidade e os problemas vencidos pelo personagem central vão rapidamente dando lugar a novos problemas e renovando nosso interesse pela narrativa. Além disso, é incrível estar em contato com aspectos da cultura judaica, tão presente no país, mas desconhecida por muitos. Por fim, acho interessantíssima a forma narrativa escolhida por Scliar, construída a partir de fragmentos intertextuais e múltiplos narradores, compondo, de fato, um exército de um homem só.

Ônus

Mas não são só flores esse exército! O aspecto fragmentário e as inúmeras maluquices do Capitão Birobidjan deixam algumas partes da obra muito confusas, exigindo que o leitor retome o fio da meada páginas atrás, sem saber quem está falando ou sobre o quê, ou que aceite a confusão toda da personagem e da forma narrativa. Existem também alguns trechos tediosamente longos dentro das alucinações de Guinzburg, que muitas vezes me pareceu um personagem antipático e insensível.

Comentário Final

Foi a primeira obra de Moacyr Scliar lida por mim e, em linhas gerais, eu gostei bastante. Como não tinha grandes expectativas quanto ao que encontraria em termos especificamente literários, já que minha leitura estava guiada pela canção do Engenheiros do Hawaii, topar com um estilo tão “pós-moderno” e com uma literatura de cultura judaico-brasileira foi gratificante. Aos que não sentem muita dificuldade com textos fragmentários, e que ao mesmo tempo se interessam por questões históricas ligadas ao socialismo e pela história de uma parcela do povo judeu no Brasil, recomendo fortemente a leitura de O exército de um homem só.

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