Três poemas de Rui Knopfli

Foto tirada por Jorge Neves, em 1981, na casa de Eugénio Lisboa, em Londres. Rui Knopfli está à direita.

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Texto por Gabriel Reis Martins

Acho que já deu para perceber que eu adoro aqueles autores que não são tão frequentes no mercado editorial brasileiro e que acabam sendo pérolas perdidas no vasto oceano das livrarias e sebos pelo país afora. Já comentei por aqui sobre o caso de Robert Frost, um pouco sobre Angela Carter, também sobre Jorge de Sena, e deve ter algum outro escritor de que estou me esquecendo agora, mas que já subiu ao palco aqui no Duras Letras.

Bom, a bola da vez é Rui Knopfli (1932-1997) – poeta moderno, lusófono e moçambicano –, que até agora só encontrou uma única edição no Brasil: o livro Antologia Poética, organizado por Eugênio Lisboa e publicado pela Editora UFMG, em 2010. Por mais que seja um poeta do século XX, só mais recentemente Knopfli tem sido publicado e divulgado, ainda com pouquíssima substância em terras brasileiras. Digo isso, porque enquanto contamos apenas com a exclusiva antologia da UFMG, só nas duas décadas passadas, o autor recebeu duas boas antologias em Portugal – Nada Tem Já Encanto, da editora Tinta-da-China, e Uso particular, do selo editorial Do Lado – como também teve sua obra reunida e publicada na íntegra, em 2003.

Aqui no Brasil, assim como acontece com outros poetas conterrâneos, Knopfli compõe o hall de desconhecidos da imapeável lírica moçambicana e, por conseguinte, africana. Porém, o autor tem certa particularidade em relação a outros escritores, pois a dificuldade de reprodução de sua obra pode estar diretamente ligada a certas polêmicas envolvendo seu nome.

Sendo um lírico ensimesmado, que deixou Moçambique, em 1975, Rui Knopfli é considerado um expátrida por uma parcela da crítica, não só por ter saído de sua terra natal pra nunca mais voltar, mas também por seu confuso e complexo posicionamento quanto às muitas revoluções africanas que aconteceram após a Segunda Guerra Mundial, sobretudo a moçambicana. Esse detalhe pode parecer besta, mas acaba interferindo em sua recepção, chegando ao ponto de alguns considerarem sua poesia como de difícil saída, porque é desterrada, não sendo nem moçambicana e nem portuguesa (ou de outra luso-identidade).

Mas não há porque se deixar afetar por essa questão crítica, pelo menos não antes de ir aos poemas de Knopfli, ponto principal desta publicação. Os poemas “Ginástica aplicada”, “Fim da tarde no café” e “Aeroporto” foram destacados da obra do poeta, e foram escolhidos aqui, como de costume, tendo por parâmetro o puro e simples gosto pessoal do redator. Ainda assim, eles demonstram como que, em termos de escrita, o autor – entendido ou não como africano – é um poeta de quilate, que merecia maior reconhecimento e mais circulação.

Espero que vocês aproveitem a leitura, e que esta seja uma porta de entrada para a lírica deste grande poeta lusófono!


GINÁSTICA APLICADA

Poema de Mangas verdes com sal (1969)

Meu verso cínico é minha terapêutica
e minha ginástica. Nele me penduro
e ergo, em sua precisão de barra fixa.
Nele me exercito em pino flexível,
sílaba a sílaba, movimento controlado
de pulso, e me volteio aparatoso 
na pirueta lograda, no lance bem ritmado. 

Há um sorriso discreto em minha segurança.

Porém, se às vezes me estatelo, folha seca
(o verso é difícil e escorregadio), meu verso,
como de vós, ri-se de mim em ar de troça.

FIM DE TARDE NO CAFÉ

Poema de Reino Submarino (1962)

Na tarde cor de azebre
falávamos de coisas amargas.
Ali, na mesa triste do café
com moscas adejando 
sobre restos de açúcar
e um copo de água
morna de esquecida,
falávamos da amargura das coisas,
entre rostos graníticos e enxovalhados,
entre estranhos e estranhos
de estranhos e os que,
nada tendo de estranhos,
cuidam de cuidar 
o que se passa entre estranhos.
Na tarde comprida e silenciosa 
tecíamos gestos inúteis
e palavras entre dentes,
mergulhados na paisagem geométrica
do café. Do café tão cheio de gente
e fumo e moscas e caras tristes
e afinal tão profundamente,
tão desesperadamente vazio.

AEROPORTO

Poema de O monhé das cobras (1997)

É o fatídico mês de Março, estou
no piso superior a contemplar o vazio.
Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon
e olha-me, obliquamente, nos olhos:
Não voltas mais? Digo-lhe só que não.

Não voltarei, mas ficarei sempre,
algures em pequenos sinais ilegíveis,
a salvo de todas as futurologias indiscretas,
preservado apenas na exclusividade da memória
privada. Não quero lembrar-me de nada,

só me importa esquecer e esquecer 
o impossível de esquecer. Nunca
se esquece, tudo se lembra ocultamente.
Desmantela-se a estátua do Almirante,
peça a peça, o quilómetro cem durando

orgulhoso no cimo da palmeira esquiva.
Desmembrado, o Almirante dorme no museu,
o sono do bronze na morte obscura das estátuas
inúteis. Desmantelado, eu sobreviverei
apenas no precário registo das palavras.

Apesar de ter dito três poemas, acho interessante trazer mais este, no qual Rui Knopfli imagina, singelamente, um lugar para sua obra no futuro.

POSTERIDADE

Poema de Mangas verdes com sal (1969)

Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido. 

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