Resenha – “Uma vida pequena”, de Hanya Yanagihara

Resenha do livro "Uma vida pequena", de Hanya Yanagihara, escrita por Mariana Makluf.

Quando os demônios internos reduzem uma vida inteira a nada

“Setembro Amarelo” é um dos movimentos de saúde mental mais conhecidos no Brasil, que vem se fazendo cada vez mais presente em um contexto no qual, anualmente, vemos os índices de depressão, ansiedade e suicídio aumentarem. Mas apesar de ser muito conhecido e divulgado (e talvez até por isso mesmo) seja também um período que levanta discussões um tanto quanto perigosas. Minha impressão geral é que compartimentamos um tema de extrema complexidade em apenas trinta dias, sendo que, em todos os outros dias do ano, ignoramos o fato de não temos meios definitivos para lidar com pessoas em crise suicida. Nosso país não possui serviços de qualidade destinados às pessoas suicidas e, para piorar, muito leigos abrem suas caixas de mensagem, na tentativa de ajudar essas pessoas em situação de risco, arriscando piorar o quadro que por si só já é grave.

Mas o que isso tem a ver com o livro de Hanya Yanagihara? Bem, Uma vida pequena foi lançado em 2016, e decidi falar sobre essa leitura como uma forma de alertar as pessoas para a complexidade e a gravidade envolvida nos transtornos mentais. Além disso, já deixo o aviso de que não recomendo essa leitura para qualquer pessoa, por se tratar de um livro que detalha “situações-gatilho” para quem se encontra em uma situação de vulnerabilidade emocional, trazendo temas como abuso sexual, uso de drogas, automutilação, tentativas de suicídio e relacionamentos abusivos. Considero, portanto, um livro perigoso, mas, ao mesmo tempo, importante para que possamos compreender a complexidade do ser humano.

Se eu fosse outro tipo de pessoa, poderia dizer que todo esse incidente é uma metáfora da vida em geral: as coisas se quebram, às vezes podem ser consertadas, e, na maioria dos casos, você percebe que independentemente do que é danificado, a vida se rearranja para compensar sua perda, às vezes de forma maravilhosa.

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Uma vida pequena nos conta a história de quatro amigos ao longo de décadas, iniciando quando eles tem aproximadamente dezessete anos, e se estendendo até  aproximadamente os cinquenta e poucos anos. Willem é ator, JB é artista, Malcom é arquiteto e Jude é advogado. Eles são muito diferentes entre si, e todos são movidos pelo ideal social de busca por felicidade, prazer e sucesso. Mas apesar de a história falar dos quatro amigos e de suas relações, o foco da narrativa é em Jude: no início do livro, sabemos dele o mesmo tanto que seus amigos, ou seja, de que não tem pais, de que é um sujeito calado e reservado, e que seu passado é um mistério. E, a medida em que a verdade é revelada a alguns personagens do livro, é apresentada também a nós, leitoras e leitores (e o pensamento em comum entre os personagens e nós mesmos é, muitas vezes: – Eu preferiria não saber).

Jude era um otimista. A cada mês, a cada semana, escolhia abrir os olhos e viver mais um dia no mundo.

O passado de Jude é cruel e, para ele, é ainda muito presente. É algo que frequentemente o impede de assumir sua própria vida, de confiar nas pessoas e de se enxergar como alguém que merece o amor e a felicidade. As marcas que ele carrega em seu corpo são lembretes diários do ser asqueroso que ele acredita ser, mesmo que o mundo lhe diga o contrário. Jude foi presenteado pela vida: tem pessoas que o amam incondicionalmente, uma carreira de sucesso e a chance de se reinventar… Mas sua dor é grande demais, real demais, para que ele se perdoe por um crime que, na realidade, não foi ele quem cometeu. Assim, ao longo do livro, das décadas de vida de Jude e de seus amigos, somos apresentados a um homem vulnerável, ao “pós-homem”, às suas estratégias para sobreviver, às nuances da vida, ao poder da amizade e também à dor, ao sofrimento extremo, às lembranças intrusivas e ao sentimento de impotência.

“Amizade era testemunhar o lento gotejar de tristezas, as longas crises de tédio e os triunfos ocasionais do outro. Era sentir-se honrado pelo privilégio de estar presente durante os momentos mais sombrios de outra pessoa e saber que você também podia ter seus momentos sombrios perto dela.”

PRINCIPAIS IMPRESSÕES

Esta obra de Hanya Yanagihara foi uma das leituras mais difíceis que já tive e, por isso mesmo, uma das melhores. A narrativa é detalhada, os personagens se tornaram reais para mim e o sofrimento deles era tangível. Mas também foi tangível o amor, a amizade, a esperança e a fé que todos depositavam em Jude. Acredito que, apesar de ser um livro que foca muito nos transtornos mentais (temos sinais de depressão, de transtorno do estresse pós traumático (TSPT), de transtorno do pânico (TP) e vemos o abuso de substâncias entorpecentes, por exemplo), é sobretudo um relato de empatia, amor e de força. Jude escolhia, dia após dia, viver; escolhia confiar, amar e ser amado; escolhia, também, abandonar seu passado para seguir em frente. E isso, para mim, é força: esse constante movimento de vida em meio ao desejo intenso de morte.

A vida é tão triste, pensava nesses momentos. É tão triste, e, ainda assim, todos vivemos. Todos nos agarramos a ela; todos procuramos algo que nos console.

O livro me trouxe diversas reflexões – e uma delas é a seguinte: até que ponto podemos ajudar alguém que está tão vulnerável? Até que ponto esse desejo de salvar o outro é “amor” e em que momento se torna um desejo egoísta? Uma possível resposta para essa reflexão foi dada por Harold – um dos personagens que mais amou e lutou por Jude –, no último capítulo do livro.

Esse livro se tornou meu favorito da vida, por conta de toda sua complexidade, pela construção impecável dos personagens, por mesclar sentimentos tão ambíguos com tamanha perfeição e por apresentar a vida de uma forma tão real. Me vi transportada para o universo da obra e senti intensamente, quis a todo momento abraçar Jude e dizer que o amava também (um pouco bobo de minha parte, talvez, mas inevitável). Mas essas conclusões só se fizeram presentes ao final da obra, após desabar com a icônica frase de Harold que tornou a experiência muito real para mim (assustadoramente real):

Por isso tento ser amável com tudo o que vejo, e em tudo que vejo, eu vejo ele.

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