Conto – “Brincadeirinha”, de Anton Tchékhov

Brincadeirinha

Meio-dia claro de inverno… O frio forte fustiga. Os cachos e a penugenzinha sobre o lábio de Nádienka*, agarrada ao meu braço, cobrem-se com a geada prateada. Estamos no alto da colina. Estende-se, dos nossos pés até lá embaixo, uma superfície íngreme na qual o sol se reflete como num espelho. Perto de nós, pequenos trenós ornados com tecido vermelho brilhante.

— Vamos descer, Nadiejda Petrovna! — suplico. — Só uma vezinha! Eu garanto que ficaremos sãos e salvos.

Mas Nádienka tem medo. Toda a extensão, das suas pequeninas galochas até o final da colina gelada, parece-lhe um abismo assustador, terrivelmente profundo. Sua alma desfalece e ela perde o ar só de olhar para baixo, só de eu lhe dizer que se sente no trenó, mas o que é que acontecerá se ela arriscar voar no abismo?! Ela vai morrer, vai ficar louca.

— Eu lhe suplico! — digo. — Não precisa ter medo! Saiba que isso é falta de coragem, covardia!

Nádienka finalmente cede, e eu vejo no seu rosto que ela cede temendo pela própria vida. Eu a acomodo, pálida, trêmula, no trenó, envolvo-a nos meus braços e, juntos, despencamos despenhadeiro abaixo.

O trenó voa como uma bala. O vento cortante bate no rosto, ruge, assobia nos ouvidos, machuca, pinica doído com raiva, tenta arrancar a cabeça dos ombros. Por causa da pressão do ar, não há forças para respirar. Parece que o próprio diabo nos abraçou com suas garras e com um rugido nos arrasta para o inferno. Os objetos ao redor se confundem numa única, longa faixa borrada pelo movimento rápido… Só mais um pouquinho e parece que vamos morrer!

— Eu amo você, Nádia! — digo em meia voz.

O trenó começa a deslizar mais e mais lentamente, o gemido do vento e o ranger das lâminas já não são tão assustadores, o fôlego deixa de faltar e finalmente estamos lá embaixo. Nádienka não está nem viva nem morta. Está pálida, mal respira… Eu a ajudo a descer.

— Não vou de novo por nada, — ela diz, me encarando com os olhos arregalados, repletos de medo. — Por nada nesse mundo! Eu quase morri!

Pouco tempo depois ela volta a si e já me encara interrogativamente nos olhos: teria eu dito aquelas quatro palavras, ou elas apenas se fizeram ouvir no barulho do turbilhão? Enquanto eu, de pé diante dela, fumo e examino atentamente a minha luva.

Ela me toma pelo braço e nós passeamos longamente perto da colina. O mistério visivelmente não lhe dá paz. As palavras foram ou não foram ditas? Sim ou não? Sim ou não? Essa é uma pergunta de amor-próprio, de honra, de vida, de boa-sorte, uma pergunta muito importante, a mais importante no mundo.

Nádienka observa o meu rosto, impaciente e melancólica, com o olhar penetrante, responde desconcertada, aguarda, será que vou falar? Ah! Quanta confusão naquele rosto adorável, quanta confusão! Eu vejo, ela confronta a si mesma, precisa dizer algo, perguntar alguma coisa, mas não alcança as palavras, sem-jeito, assustada, impossibilitada pela alegria…

— Quer saber? — diz, sem me olhar.

— O quê? — pergunto.

— Vamos de novo… escorregar.

Nós subimos a colina pelas escadas. E de novo eu sento uma Nádienka pálida e trêmula no trenó, de novo nós voamos pelo abismo assustador, de novo o vento ruge e chiam as lâminas e, de novo, na curva mais fechada e barulhenta eu falo em meia voz.

— Eu amo você, Nádienka!

Quando o trenó para, Nádienka lança o olhar para a colina pela qual nós há pouco escorregamos, e depois observa longamente o meu rosto, atenta à minha voz indiferente e fria, e toda, toda — até mesmo o seu regalo e o capuz — toda a sua figura demonstra extrema surpresa. E em seu rosto está escrito:

“Qual é o problema? Quem disse estas palavras? Ele, ou só ouvi demais?”

Esta incerteza a inquieta, tira sua paciência.

A pobre menina não responde à pergunta, franze a testa, pronta pra cair no choro.

— Não deveríamos voltar para casa? — pergunto.

— Mas eu… eu estou gostando do passeio, — ela responde, corando. — Não podemos ir de novo?

Ela “gosta” do passeio mas, ao mesmo tempo, ao sentar-se no trenó está, como nas outras vezes, pálida, quase não respira de medo, treme.

Nós descemos pela terceira vez e vejo como ela olha o meu rosto, vigiando os meus lábios. Mas eu aproximo o lenço dos lábios, tusso e, quando alcançamos a metade da colina, tenho tempo de declarar:

— Eu amo você, Nádia!

E o mistério permanece um mistério! Nádienka se cala, pensa em alguma coisa…. Eu a acompanho da pista até em casa, ela se esforça para seguir em silêncio, segura os passos e a todo momento aguarda, será que lhe direi aquelas palavras? E eu vejo como lhe padece a alma, como ela se força para não dizer:

— Não acredito que foi o vento que disse! Eu não quero que tenha sido o vento!

Na manhã seguinte, recebo um recadinho: “Se você for hoje na pista de patinação, passe pela minha casa. N.” Desde aquele dia, começo a passear de trenó com Nádienka diariamente e, voando colina abaixo, todas as vezes digo com meia voz aquelas mesmas palavras:

— Eu amo você, Nádia!

Logo Nádienka se apega a essa frase, como ao vinho ou à morfina. Já não pode viver sem ela. É verdade que voar da montanha ainda assusta, mas agora até o medo e o perigo dão um charme especial às palavras de amor, palavras que ainda mascaram o mistério e atormentam a alma. Somos ambos suspeitos: o vento e eu… Qual dos dois lhe faz juras de amor ela não sabe, mas pelo visto tanto faz; não importa de que garrafa beba, conquanto fique bêbada.

Certa vez, ao meio-dia, fui sozinho à pista; misturando-me à multidão, vejo como Nádienka se aproxima da colina, como me procura com os olhos… Em seguida sobe timidamente pelas escadas… Que assustador é ir sozinha, oh, que assustador! Ela está pálida como a neve, treme, caminha como quem vai para sua execução, mas vai, vai sem olhar pra trás, decidida. Parece que, enfim, ela decidiu provar: será que aquelas maravilhosas, doces palavras serão ouvidas se eu não estiver lá? Vejo como ela, pálida, com a boca aberta de pavor, senta-se no trenó, fecha os olhos e, dando para sempre adeus à terra, toma impulso… “Shhhh” — chiam as lâminas. Se Nádienka teria escutado ou não aquelas palavras eu não sei… Vejo apenas como ela desce do trenó extremamente exausta, fraca. E é visível em seu rosto que nem mesmo ela sabe se ouviu ou não ouviu alguma coisa. O medo, enquanto ela descia, roubara-lhe a habilidade de ouvir, de diferenciar os sons, de entender.

Mas eis que começa março, o mês da primavera… O sol se torna mais amigável. A nossa colina gelada escurece, perde seu brilho e finalmente derrete. Todos paramos de escorregar. A pobrezinha da Nádienka não tem mais onde ouvir aquelas palavras, nem ninguém que as diga, assim como vento nenhum pode ser ouvido, e eu me mudarei para Petersburgo — por bastante tempo, talvez para sempre.

Certa vez ao entardecer, uns dois dias antes da partida, sento-me no jardim, e o pátio da casa de Nádienka separa-se deste jardim por uma cerca alta com pregos… Ainda faz bastante frio, sob o estrume ainda há neve, as florestas estão mortas, mas já se sente o cheiro da primavera e, retirando-se ao cair da noite, corvos grasnam ruidosamente. Eu me aproximo da cerca e fico por muito tempo espiando pelo vão. Eu vejo quando Nádienka sai para a varanda e volta o olhar tristonho e ansioso para o céu… O vento da primavera sopra diretamente em seu rosto pálido e sem graça… Ele a lembra daquele outro, que então rugia para nós na colina, quando ela ouvira aquelas quatro palavras, e o seu rosto se torna triste, triste, uma lágrima escorre por sua bochecha… E a pobrezinha da menina estende ambas as mãos, como se pedindo a este vento que lhe traga uma vez mais aquelas palavras. E eu, esperando o vento, digo em meia voz:

— Eu amo você, Nádia!

Meu Deus, o que se passa então com Nádienka! Ela grita, sorri com todo o rosto e estende as mãos em direção ao vento, feliz, alegre, tão bonita.

E eu me recolho…

Isso foi já há muito tempo. Agora Nádienka já está casada; deram-na em casamento ou ela escolheu sozinha — para uma nobre tanto faz, e agora ela já tem três filhos. Mas, a forma como uma vez passeamos de trenó e como o vento lhe soprou as palavras “Eu amo você, Nádienka”, não foi esquecida. Para ela essa ainda é a mais alegre, mais tocante e bela lembrança da vida…

E agora que fiquei mais velho, já não sei por que disse aquelas palavras, por que brinquei…

ШУТОЧКА

Ясный, зимний полдень… Мороз крепок, трещит, и у Наденьки, которая держит меня под руку, покрываются серебристым инеем кудри на висках и пушок над верхней губой. Мы стоим на высокой горе. От наших ног до самой земли тянется покатая плоскость, в которую солнце глядится, как в зеркало. Возле нас маленькие санки, обитые ярко-красным сукном.

— Съедемте вниз, Надежда Петровна! — умоляю я. — Один только раз! Уверяю вас, мы останемся целы и невредимы.

Но Наденька боится. Всё пространство от ее маленьких калош до конца ледяной горы кажется ей страшной, неизмеримо глубокой пропастью. У нее замирает дух и прерывается дыхание, когда она глядит вниз, когда я только предлагаю сесть в санки, но что же будет, если она рискнет полететь в пропасть! Она умрет, сойдет с ума.

— Умоляю вас! — говорю я. — Не надо бояться! Поймите же, это малодушие, трусость!

Наденька наконец уступает, и я по лицу вижу, что она уступает с опасностью для жизни. Я сажаю ее, бледную, дрожащую, в санки, обхватываю рукой и вместе с нею низвергаюсь в бездну.

Санки летят как пуля. Рассекаемый воздух бьет в лицо, ревет, свистит в ушах, рвет, больно щиплет от злости, хочет сорвать с плеч голову. От напора ветра нет сил дышать. Кажется, сам дьявол обхватил нас лапами и с ревом тащит в ад.

Окружающие предметы сливаются в одну длинную, стремительно бегущую полосу… Вот-вот еще мгновение, и кажется — мы погибнем!

— Я люблю вас, Надя! — говорю я вполголоса.

Санки начинают бежать всё тише и тише, рев ветра и жужжанье полозьев не так уже страшны, дыхание перестает замирать, и мы наконец внизу. Наденька ни жива ни мертва. Она бледна, едва дышит… Я помогаю ей подняться.

— Ни за что в другой раз не поеду, — говорит она, глядя на меня широкими, полными ужаса глазами. — Ни за что на свете! Я едва не умерла!
Немного погодя она приходит в себя и уже вопросительно заглядывает мне в глаза: я ли сказал те четыре слова, или же они только послышались ей в шуме вихря? А я стою возле нее, курю и внимательно рассматриваю свою перчатку.

Она берет меня под руку, и мы долго гуляем около горы. Загадка, видимо, не дает ей покою. Были сказаны те слова или нет? Да или нет? Да или нет? Это вопрос самолюбия, чести, жизни, счастья, вопрос очень важный, самый важный на свете. Наденька нетерпеливо, грустно,

проникающим взором заглядывает мне в лицо, отвечает невпопад, ждет, не заговорю ли я. О, какая игра на этом милом лице, какая игра! Я вижу, она борется с собой, ей нужно что-то сказать, о чем-то спросить, но она не находит слов, ей неловко, страшно, мешает радость…

— Знаете что? — говорит она, не глядя на меня.

— Что? — спрашиваю я.

— Давайте еще раз… прокатим.

Мы взбираемся по лестнице на гору. Опять я сажаю бледную, дрожащую Наденьку в санки, опять мы летим в страшную пропасть, опять ревет ветер и жужжат полозья, и опять при самом сильном и шумном разлете санок я говорю вполголоса.

— Я люблю вас, Наденька!

Когда санки останавливаются, Наденька окидывает взглядом гору, по которой мы только что катили, потом долго всматривается в мое лицо, вслушивается в мой голос, равнодушный и бесстрастный, и вся, вся, даже муфта и башлык ее, вся ее фигурка выражают крайнее недоумение. И на лице у нее написано:

«В чем же дело? Кто произнес те слова? Он, или мне только послышалось?»

Эта неизвестность беспокоит ее, выводит из терпения. Бедная девочка не отвечает на вопросы, хмурится, готова заплакать.

— Не пойти ли нам домой? — спрашиваю я.

— А мне… мне нравится это катанье, — говорит она, краснея. — Не проехаться ли нам еще раз?
Ей «нравится» это катанье, а между тем, садясь в санки, она, как и в те разы, бледна, еле дышит от страха, дрожит.

Мы спускаемся в третий раз, и я вижу, как она смотрит мне в лицо, следит за моими губами. Но я прикладываю к губам платок, кашляю и, когда достигаем середины горы, успеваю вымолвить:

— Я люблю вас, Надя!

И загадка остается загадкой! Наденька молчит, о чем-то думает… Я провожаю ее с катка домой, она старается идти тише, замедляет шаги и всё ждет, не скажу ли я ей тех слов. И я вижу, как страдает ее душа, как она делает усилия над собой, чтобы не сказать:

— Не может же быть, чтоб их говорил ветер! И я не хочу, чтобы это говорил ветер!

На другой день утром я получаю записочку: «Если пойдете сегодня на каток, то заходите за мной. Н.» И с этого дня я с Наденькой начинаю каждый день ходить на каток и, слетая вниз на санках, я всякий раз произношу вполголоса одни и те же слова:

— Я люблю вас, Надя!

Скоро Наденька привыкает к этой фразе, как к вину или морфию. Она жить без нее не может. Правда, лететь с горы по-прежнему страшно, но теперь уже страх и опасность придают особое очарование словам о любви, словам, которые по-прежнему составляют загадку и томят душу. Подозреваются всё те же двое: я и ветер… Кто из двух признается ей в любви, она не знает, но ей, по-видимому, уже всё равно; из какого сосуда ни пить — всё равно, лишь бы быть пьяным.

Как-то в полдень я отправился на каток один; смешавшись с толпой, я вижу, как к горе подходит Наденька, как ищет глазами меня… Затем она робко идет вверх по лесенке… Страшно ехать одной, о, как страшно! Она бледна, как снег, дрожит, она идет точно на казнь, но идет, идет без оглядки, решительно. Она, очевидно, решила, наконец, попробовать: будут ли слышны те изумительные сладкие слова, когда меня нет? Я вижу, как она, бледная, с раскрытым от ужаса ртом, садится в санки, закрывает глаза и, простившись навеки с землей, трогается с места… «Жжжж…» — жужжат полозья.

Слышит ли Наденька те слова, я не знаю… Я вижу только, как она поднимается из саней изнеможенная, слабая. И видно по ее лицу, она и сама не знает, слышала она что-нибудь или нет. Страх, пока она катила вниз, отнял у нее способность слышать, различать звуки, понимать…

Но вот наступает весенний месяц март… Солнце становится ласковее. Наша ледяная гора темнеет, теряет свой блеск и тает наконец. Мы перестаем кататься. Бедной Наденьке больше уж негде слышать тех слов, да и некому произносить их, так как ветра не слышно, а я собираюсь в Петербург — надолго, должно быть, навсегда.

Как-то перед отъездом, дня за два, в сумерки сижу я в садике, а от двора, в котором живет Наденька, садик этот отделен высоким забором с гвоздями… Еще достаточно холодно, под навозом еще снег, деревья мертвы, но уже пахнет весной и, укладываясь на ночлег, шумно кричат грачи. Я подхожу к забору и долго смотрю в щель. Я вижу, как Наденька выходит на крылечко и устремляет печальный, тоскующий взор на небо… Весенний ветер дует ей прямо в бледное, унылое лицо… Он напоминает ей о том ветре, который ревел нам тогда на горе, когда она слышала те четыре слова, и лицо у нее становится грустным, грустным, по щеке ползет слеза… И бедная девочка протягивает обе руки, как бы прося этот ветер принести ей еще раз те слова. И я, дождавшись ветра, говорю вполголоса:

— Я люблю вас, Надя!

Боже мой, что делается с Наденькой! Она вскрикивает, улыбается во всё лицо и протягивает навстречу ветру руки, радостная, счастливая, такая красивая.
А я иду укладываться…

Это было уже давно. Теперь Наденька уже замужем; ее выдали, или она сама вышла — это всё равно, за секретаря дворянской опеки, и теперь у нее уже трое детей. То, как мы вместе когда-то ходили на каток и как ветер доносил до нее слова «Я вас люблю, Наденька», не забыто; для нее теперь это самое счастливое, самое трогательное и прекрасное воспоминание в жизни…

А мне теперь, когда я стал старше, уже непонятно, зачем я говорил те слова, для чего шутил…

Notas

  1. Diminutivo carinhoso de Nadejda, que, por sua vez, significa ‘esperança’. Em português poderíamos traduzir por “Nadiazinha”. É importante que o leitor faça atenção à importância do significado do nome no contexto do conto. Nádienka, esperançazinha, torna-se assim não só o nome da personagem, mas também, potencialmente, uma de suas qualidades.
  2. A муфта (mufta), em português denominado como regalo, designa um acessório da moda comum aos países frios: trata-se de um cilindro forrado com peles ou outro tecido quente no qual o usuário pode enfiar as mãos, mantendo-as aquecidas. Muito utilizado por homens e mulheres, passa a ser acessório exclusivamente feminino no século XVIII e XIX, quando cai de moda e tem o uso abandonado.
  3. O башлык (bachlyk), aqui traduzido por capuz, é uma vestimenta típica de povos eslavos, tártaros, etc. caracterizado por um capuz em forma de cone com pontas longas que podem ser usadas como cachecol para envolver o pescoço e o rosto.
  4. O verbo темнеть (escurecer) faz referência ao processo de derretimento da neve. Do branco incólume da neve nova, passa-se gradualmente a um amarelado sujo que pouco a pouco se transforma em uma mistura marrom ou preta e lamacenta, mas ainda gelada.

Sobre esta tradução

Iniciada como um pequeno exercício didático há mais de um ano, a tradução se estendeu paralela à uma retomada vigorosa dos meus estudos da língua russa. Se em um primeiro momento me parecia impossível avançar as primeiras linhas, culpa da gramática particularmente complexa desse idioma eslavo, um ano depois foi com grato contentamento que me vi capaz de finalizá-la. A versão em português aqui presente é inteiramente original, uma vez que não foi consultada outra tradução (algo que não constitui em si nenhum orgulho, mas que cumpriu um papel no meu próprio processo de aprendizagem) e feita a partir do original russo (retirado do site da Biblioteca Komarov, excelente repositório de textos literários e capaz de fazer a alegria de qualquer russófilo).

Algumas notas pontuais se mostraram necessárias para esclarecer pequenas passagens e facilitar a experiência do leitor contemporâneo (o jovem de 2020 que, em plena pandemia, dificilmente conhece alguns detalhes do vestuário russo de inverno). Minha intenção principal, durante a tradução, foi recuperar dois aspectos marcantes do original: a sonoridade e a delicadeza. E por delicadeza eu quero me referir à fofura mesmo, pois o original russo é extremamente fofo e, por isso mesmo, deixa toda a aventura de Nadejda (Esperança, cujo apelidinho – eles! tão presentes em todo texto russo – é Nádiazinha!) ainda mais apaixonante.

A tradução é apresentada ao lado do texto original, no alfabeto cirílico, e isso por uma razão: não acredito que todos tenhamos, frequentemente, acesso ao cirílico e acredito que seja enriquecedor passar pela experiência de encarar o texto em um alfabeto que não é o seu.

Para além disso, uma expectativa: que qualquer leitor, ainda que diante de uma tradução, consiga experimentar junto de mim o êxtase que foi e é ler, ler literatura russa e ler literatura russa em russo.

Agradeço à minha professora, Paula Vaz Almeida, ela mesma tradutora (de um tipo mais profissional e mais publicado que o meu!) por todas as correções, dicas, conselhos e leituras ao longo de nossas aulas, e por me iluminar tantos pontos mais obscuros da prosa de Tchékov e do idioma dos meus amores.

Breve análise de “Brincadeirinha”

Шуточка (transliterado em “Chútotchka”: “brincadeirinha”, “piadinha” ou ainda “joguinho”) apresenta ao leitor vários aspectos da genialidade de seu autor, que dominou como poucos a arte das histórias curtas. Sua concisão já se mostra evidente no número de páginas, não mais que quatro ou cinco, o que só aumenta o assombro diante da potência e beleza do pequeno texto.

Deixando a narrativa ao encargo de um narrador pretensamente imparcial, mas, na verdade, profundamente implicado nos acontecimentos, vemos as ações se desenrolarem como num filme em que cada detalhe importa, o que faz da textura textual um elemento importante e altamente participativo da formação de sentido (algo evidente nas assonâncias que mimetizam as imagens e os movimentos). Inicialmente levado pela delicadeza e doçura das colocações do narrador, a tentação de conceder-lhe total confiança e acreditar na veracidade do que diz é simplesmente irresistível. Tchékov alcança assim o ápice de sua capacidade de manipulação dos princípios miméticos e joga com genialidade com os ideais realistas. Nossa jovem heroína Nadejda resta, assim, até o final da narrativa, uma espécie de enigma insondável, cujas parcelas ínfimas são iluminadas apenas pela vontade dúbia de nosso narrador. Reduzida à visão dele, só a alcançamos de forma indireta e através de uma visão passional e marcada pelo desejo.

Ao ler o conto vale sempre lembrar que, por mais que as imagens desfilem, aparentemente nítidas, como num filme, há sempre alguém que manipula a câmera e ilumina os elementos que lhe parecem mais relevantes, ou imprime-lhes as emoções que lhe parecem mais verdadeiras.

Conto – “Um homem célebre”, de Machado de Assis

– Ah! o senhor é que é o Pestana? perguntou Sinhazinha Mota, fazendo um largo gesto admirativo. E logo depois, corrigindo a familiaridade: – Desculpe meu modo, mas… é mesmo o senhor?

Vexado, aborrecido, Pestana respondeu que sim, que era ele. Vinha do piano, enxugando a testa com o lenço, e ia a chegar à janela, quando a moça o fez parar. Não era baile; apenas um sarau íntimo, pouca gente, vinte pessoas ao todo, que tinham ido jantar com a viúva Camargo, rua do Areal, naquele dia dos anos dela, cinco de novembro de 1875… Boa e patusca viúva! Amava o riso e a folga, apesar dos sessenta anos em que entrava, e foi a última vez que folgou e riu, pois faleceu nos primeiros dias de 1876. Boa e patusca viúva! Com que alma e diligência arranjou ali umas danças, logo depois do jantar, pedindo ao Pestana que tocasse uma quadrilha! Nem foi preciso acabar o pedido; Pestana curvou-se gentilmente, e correu ao piano. Finda a quadrilha, mal teriam descansado uns dez minutos, a viúva correu novamente ao Pestana para um obséquio mui particular.

– Diga, minha senhora.
– É que nos toque agora aquela sua polca Não bula comigo, nhonhô.

Pestana fez uma careta, mas dissimulou depressa, inclinou-se calado, sem gentileza, e foi para o piano, sem entusiasmo. Ouvidos os primeiros compassos, derramou-se pela sala uma alegria nova, os cavalheiros correram às damas, e os pares entraram a saracotear a polca da moda. Da moda; tinha sido publicada vinte dias antes, e já não havia recanto da cidade em que não fosse conhecida. Ia chegando à consagração do assobio e da cantarola noturna.

Sinhazinha Mota estava longe de supor que aquele Pestana que ela vira à mesa de jantar e depois ao piano, metido numa sobrecasaca cor de rapé, cabelo negro, longo e cacheado, olhos cuidosos, queixo rapado, era o mesmo Pestana compositor; foi uma amiga que lho disse quando o viu vir do piano, acabada a polca. Daí a pergunta admirativa. Vimos que ele respondeu aborrecido e vexado. Nem assim as duas moças lhe pouparam finezas, tais e tantas, que a mais modesta vaidade se contentaria de as ouvir; ele recebeu-as cada vez mais enfadado, até que alegando dor de cabeça pediu licença para sair. Nem elas, nem a dona da casa, ninguém logrou retê-lo. Ofereceram-lhe remédios caseiros, algum repouso, não aceitou nada, teimou em sair e saiu.

Rua fora, caminhou depressa, com medo de que ainda o chamassem; só afrouxou depois que dobrou a esquina da rua Formosa. Mas aí mesmo esperava-o a sua grande polca festiva. De uma casa modesta, à direita, a poucos metros de distância, saíam as notas da composição do dia, sopradas em clarinete. Dançava-se. Pestana parou alguns instantes, pensou em arrepiar caminho, mas dispôs-se a andar, estugou o passo, atravessou a rua, e seguiu pelo lado oposto ao da casa do baile. As notas foram-se perdendo, ao longe, e o nosso homem entrou na rua do Aterrado, onde morava. Já perto de casa viu vir dois homens; um deles, passando rentezinho com o Pestana, começou a assobiar a mesma polca, rijamente, com brio, e o outro pegou a tempo na música, e aí foram os dois abaixo, ruidosos e alegres, enquanto o autor da peça, desesperado, corria a meter-se em casa.

Em casa, respirou. Casa velha, escada velha, um preto velho que o servia, e que veio saber se ele queria cear.

– Não quero nada, bradou o Pestana; faça-me café e vá dormir.

Despiu-se, enfiou uma camisola, e foi para a sala dos fundos. Quando o preto acendeu o gás da sala, Pestana sorriu e, dentro d’alma, cumprimentou uns dez retratos que pendiam da parede. Um só era a óleo, o de um padre, que o educara, que lhe ensinara latim e música, e que, segundo os ociosos, era o próprio pai do Pestana. Certo é que lhe deixou em herança aquela casa velha, e os velhos trastes, ainda do tempo de Pedro I. Compusera alguns motetes o padre, era doido por música, sacra ou profana, cujo gosto incutiu no moço, ou também lhe transmitiu no sangue, se é que tinham razão as bocas vadias, coisa de que se não ocupa a minha história, como ides ver.

Os demais retratos eram de compositores clássicos, Cimarosa, Mozart, Beethoven, Gluck, Bach, Schumann, e ainda uns três, alguns gravados, outros litografados, todos mal encaixilhados e de diferente tamanho, mas postos ali como santos de uma igreja. O piano era o altar; o evangelho da noite lá estava aberto: era uma sonata de Beethoven.

Veio o café; Pestana engoliu a primeira xícara, e sentou-se ao piano. Olhou para o retrato de Beethoven, e começou a executar a sonata, sem saber de si, desvairado ou absorto, mas com grande perfeição. Repetiu a peça; depois parou alguns instantes, levantou-se e foi a uma das janelas. Tornou ao piano; era a vez de Mozart, pegou de um trecho, e executou-o do mesmo modo, com a alma alhures. Haydn levou-o à meia-noite e à segunda xícara de café.

Entre meia-noite e uma hora, Pestana pouco mais fez que estar à janela e olhar para as estrelas, entrar e olhar para os retratos. De quando em quando ia ao piano, e, de pé, dava uns golpes soltos no teclado, como se procurasse algum pensamento; mas o pensamento não aparecia e ele voltava a encostar-se à janela. As estrelas pareciam-lhe outras tantas notas musicais fixadas no céu à espera de alguém que as fosse descolar; tempo viria em que o céu tinha de ficar vazio, mas então a terra seria uma constelação de partituras. Nenhuma imagem, desvario ou reflexão trazia uma lembrança qualquer de Sinhazinha Mota, que entretanto, a essa mesma hora, adormecia pensando nele, famoso autor de tantas polcas amadas. Talvez a idéia conjugal tirou à moça alguns momentos de sono. Que tinha? Ela ia em vinte anos, ele em trinta, boa conta. A moça dormia ao som da polca, ouvida de cor, enquanto o autor desta não cuidava nem da polca nem da moça, mas das velhas obras clássicas, interrogando o céu e a noite, rogando aos anjos, em último caso ao diabo. Por que não faria ele uma só que fosse daquelas páginas imortais?

Às vezes, como que ia surgir das profundezas do inconsciente uma aurora de idéia; ele corria ao piano, para aventá-la inteira, traduzi-la em sons, mas era em vão; a idéia esvaía-se. Outras vezes, sentado ao piano, deixava os dedos correrem, à aventura, a ver se as fantasias brotavam deles, como dos de Mozart; mas nada, nada, a inspiração não vinha, a imaginação deixava-se estar dormindo. Se acaso uma idéia aparecia, definida e bela, era eco apenas de alguma peça alheia, que a memória repetia, e que ele supunha inventar. Então, irritado, erguia-se, jurava abandonar a arte, ir plantar café ou puxar carroça; mas daí a dez minutos, ei-lo outra vez, com os olhos em Mozart, a imitá-lo ao piano.

Duas, três, quatro horas. Depois das quatro foi dormir; estava cansado, desanimado, morto; tinha que dar lições no dia seguinte. Pouco dormiu; acordou às sete horas. Vestiu-se e almoçou.

– Meu senhor quer a bengala ou o chapéu-de-sol? perguntou o preto, segundo as ordens que tinha, porque as distrações do senhor eram freqüentes.

– A bengala.
– Mas parece que hoje chove.
– Chove, repetiu Pestana maquinalmente.
– Parece que sim, senhor, o céu está meio escuro.

Pestana olhava para o preto, vago, preocupado. De repente:

– Espera aí.

Correu à sala dos retratos, abriu o piano, sentou-se e espalmou as mãos no teclado. Começou a tocar alguma coisa própria, uma inspiração real e pronta, uma polca, uma polca buliçosa, como dizem os anúncios. Nenhuma repulsa da parte do compositor; os dedos iam arrancando as notas, ligando-as, meneando-as; dir-se-ia que a musa compunha e bailava a um tempo. Pestana esquecera as discípulas, esquecera o preto, que o esperava com a bengala e o guarda-chuva, esquecera até os retratos que pendiam gravemente da parede. Compunha só, teclando ou escrevendo, sem os vãos esforços da véspera, sem exasperação, sem nada pedir ao céu, sem interrogar os olhos de Mozart. Nenhum tédio. Vida, graça, novidade, escorriam-lhe da alma como de uma fonte perene.

Em pouco tempo estava a polca feita. Corrigiu ainda alguns pontos, quando voltou para jantar; mas já a cantarolava, andando, na rua. Gostou dela; na composição recente e inédita circulava o sangue da paternidade e da vocação. Dois dias depois, foi levá-la ao editor das outras polcas suas, que andariam já por umas trinta. O editor achou-a linda.

– Vai fazer grande efeito.

Veio a questão do título. Pestana, quando compôs a primeira polca, em 1871, quis dar-lhe um titulo poético, escolheu este: Pingos de sol. O editor abanou a cabeça, e disse-lhe que os títulos deviam ser, já de si, destinados à popularidade, – ou por alusão a algum sucesso do dia, – ou pela graça das palavras; indicou-lhe dois: A lei de 28 de Setembro, ou Candongas não fazem festa.

– Mas que quer dizer Candongas não fazem festa? perguntou o autor.
– Não quer dizer nada, mas populariza-se logo.

Pestana, ainda donzel inédito, recusou qualquer das denominações e guardou a polca; mas não tardou que compusesse outra, e a comichão da publicidade levou-o a imprimir as duas, com os títulos que ao editor parecessem mais atraentes ou apropriados. Assim se regulou pelo tempo adiante.

Agora, quando Pestana entregou a nova polca, e passaram ao título, o editor acudiu que trazia um, desde muitos dias, para a primeira obra que ele lhe apresentasse, título de espavento, longo e meneado. Era este: Senhora dona, guarde o seu balaio.

– E para a vez seguinte, acrescentou, já trago outro de cor.

Exposta à venda, esgotou-se logo a primeira edição. A fama do compositor bastava à procura; mas a obra em si mesma era adequada ao gênero, original, convidava a dançá-la e decorava-se depressa. Em oito dias, estava célebre. Pestana, durante os primeiros, andou deveras namorado da composição, gostava de a cantarolar baixinho, detinha-se na rua, para ouvi-la tocar em alguma casa, e zangava-se quando não a tocavam bem. Desde logo, as orquestras de teatro a executaram, e ele lá foi a um deles. Não desgostou também de a ouvir assobiada, uma noite, por um vulto que descia a rua do Aterrado.

Essa lua-de-mel durou apenas um quarto de lua. Como das outras vezes, e mais depressa ainda, os velhos mestres retratados o fizeram sangrar de remorsos. Vexado e enfastiado, Pestana arremeteu contra aquela que o viera consolar tantas vezes, musa de olhos marotos e gestos arredondados, fácil e graciosa. E aí voltaram as náuseas de si mesmo, o ódio a quem lhe pedia a nova polca da moda, e juntamente o esforço de compor alguma coisa ao sabor clássico, uma página que fosse, uma só, mas tal que pudesse ser encadernada entre Bach e Schumann. Vão estudo, inútil esforço. Mergulhava naquele Jordão sem sair batizado. Noites e noites, gastou-as assim, confiado e teimoso, certo de que a vontade era tudo, e que, uma vez que abrisse mão da música fácil…

– As polcas que vão para o inferno fazer dançar o diabo, disse ele um dia, de madrugada, ao deitar-se.

Mas as polcas não quiseram ir tão fundo. Vinham à casa de Pestana, à própria sala dos retratos, irrompiam tão prontas, que ele não tinha mais que o tempo de as compor, imprimi-las depois, gostá-las alguns dias, aborrecê-las, e tornar às velhas fontes, donde lhe não manava nada. Nessa alternativa viveu até casar, e depois de casar.

– Casar com quem? perguntou Sinhazinha Mota ao tio escrivão que lhe deu aquela notícia.
– Vai casar com uma viúva.
– Velha?
– Vinte e sete anos.
– Bonita?
– Não, nem feia, assim, assim. Ouvi dizer que ele se enamorou dela, porque a ouviu cantar na última festa de São Francisco de Paula. Mas ouvi também que ela possui outra prenda, que não é rara, mas vale menos: está tísica.

Os escrivães não deviam ter espírito, – mau espírito quero dizer. A sobrinha deste sentiu no fim um pingo de bálsamo, que lhe curou a dentadinha da inveja. Era tudo verdade. Pestana casou daí a dias com uma viúva de vinte e sete anos, boa cantora e tísica. Recebeu-a como a esposa espiritual do seu gênio. O celibato era, sem dúvida, a causa da esterilidade e do transvio, dizia ele consigo; artisticamente considerava-se um arruador de horas mortas; tinha as polcas por aventuras de petimetres. Agora, sim, é que ia engendrar uma família de obras sérias, profundas, inspiradas e trabalhadas.

Essa esperança abotoou desde as primeiras horas do amor, e desabrochou à primeira aurora do casamento. Maria, balbuciou a alma dele, dá-me o que não achei na solidão das noites, nem no tumulto dos dias.

Desde logo, para comemorar o consórcio, teve idéia de compor um noturno. Chamar-lhe-ia Ave, Maria. A felicidade como que lhe trouxe um princípio de inspiração; não querendo dizer nada à mulher, antes de pronto, trabalhava às escondidas; coisa difícil, porque Maria, que amava igualmente a arte, vinha tocar com ele, ou ouvi-lo somente, horas e horas, na sala dos retratos. Chegaram a fazer alguns concertos semanais, com três artistas, amigos do Pestana. Um domingo, porém, não se pôde ter o marido, e chamou a mulher para tocar um trecho do noturno; não lhe disse o que era nem de quem era. De repente, parando, interrogou-a com os olhos.

– Acaba, disse Maria; não é Chopin?

Pestana empalideceu, fitou os olhos no ar, repetiu um ou dois trechos e ergueu-se. Maria assentou-se ao piano, e, depois de algum esforço de memória, executou a peça de Chopin. A idéia, o motivo eram os mesmos; Pestana achara-os em algum daqueles becos escuros da memória, velha cidade de traições. Triste, desesperado, saiu de casa, e dirigiu-se para o lado da ponte, caminho de São Cristóvão.

– Para que lutar? dizia ele. Vou com as polcas… Viva a polca!

Homens que passavam por ele, e ouviam isto, ficavam olhando, como para um doido. E ele ia andando, alucinado, mortificado, eterna peteca entre a ambição e a vocação… Passou o velho matadouro; ao chegar à porteira da estrada de ferro, teve idéia de ir pelo trilho acima e esperar o primeiro trem que viesse e o esmagasse. O guarda fê-lo recuar. Voltou a si e tornou a casa.

Poucos dias depois, – uma clara e fresca manhã de maio de 1876, – eram seis horas, Pestana sentiu nos dedos um frêmito particular e conhecido. Ergueu-se devagarinho, para não acordar Maria, que tossira toda a noite, e agora dormia profundamente. Foi para a sala dos retratos, abriu o piano, e, o mais surdamente que pôde, extraiu uma polca. Fê-la publicar com um pseudônimo; nos dois meses seguintes compôs e publicou mais duas. Maria não soube nada; ia tossindo e morrendo, até que expirou, uma noite, nos braços do marido, apavorado e desesperado.

Era noite de Natal. A dor do Pestana teve um acréscimo, porque na vizinhança havia um baile, em que se tocaram várias de suas melhores polcas. Já o baile era duro de sofrer; as suas composições davam-lhe um ar de ironia e perversidade. Ele sentia a cadência dos passos, adivinhava os movimentos, porventura lúbricos, a que obrigava alguma daquelas composições; tudo isso ao pé do cadáver pálido, um molho de ossos, estendido na cama… Todas as horas da noite passaram assim, vagarosas ou rápidas, úmidas de lágrimas e de suor, de águas da Colônia e de Labarraque, saltando sem parar, como ao som da polca de um grande Pestana invisível.

Enterrada a mulher, o viúvo teve uma única preocupação: deixar a música, depois de compor um Réquiem, que faria executar no primeiro aniversário da morte de Maria. Escolheria outro emprego, escrevente, carteiro, mascate, qualquer coisa que lhe fizesse esquecer a arte assassina e surda.

Começou a obra; empregou tudo, arrojo, paciência, meditação e até os caprichos do acaso, como fizera outrora, imitando Mozart. Releu e estudou o Réquiem deste autor. Passaram-se semanas e meses. A obra, célere a princípio, afrouxou o andar. Pestana tinha altos e baixos. Ora achava-a incompleta, não lhe sentia a alma sacra, nem idéia, nem inspiração, nem método; ora elevava-se-lhe o coração e trabalhava com vigor. Oito meses, nove, dez, onze, e o Réquiem não estava concluído. Redobrou de esforços esqueceu lições e amizades. Tinha refeito muitas vezes a obra; mas agora queria concluí-la, fosse como fosse. Quinze dias, oito, cinco… A aurora do aniversário veio achá-lo trabalhando.

Contentou-se da missa rezada e simples, para ele só. Não se pode dizer se todas as lágrimas que lhe vieram sorrateiramente aos olhos foram do marido, ou se algumas eram do compositor. Certo é que nunca mais tornou ao Réquiem.

– Para quê? dizia ele a si mesmo.

Correu ainda um ano. No princípio de 1878, apareceu-lhe o editor.

– Lá vão dois anos, disse este, que nos não dá um ar da sua graça. Toda a gente pergunta se o senhor perdeu o talento. Que tem feito?
– Nada.
– Bem sei o golpe que o feriu; mas lá vão dois anos. Venho propor-lhe um contrato; vinte polcas durante doze meses; o preço antigo, e uma porcentagem maior na venda. Depois, acabado o ano, podemos renovar.

Pestana assentiu com um gesto. Poucas lições tinha, vendera a casa para saldar dívidas, e as necessidades iam comendo o resto, que era assaz escasso. Aceitou o contrato.

– Mas a primeira polca há de ser já, explicou o editor. É urgente. Viu a carta do imperador ao Caxias? Os liberais foram chamados ao poder; vão fazer a reforma eleitoral. A polca há de chamar-se: Bravos à eleição direta! Não é política; é um bom título de ocasião.

Pestana compôs a primeira obra do contrato. Apesar do longo tempo de silêncio, não perdera a originalidade nem a inspiração. Trazia a mesma nota genial. As outras polcas vieram vindo, regularmente. Conservara os retratos e os repertórios; mas fugia de gastar todas as noites ao piano, para não cair em novas tentativas. Já agora pedia uma entrada de graça, sempre que havia alguma boa ópera ou concerto de artista, ia, metia-se a um canto, gozando aquela porção de coisas que nunca lhe haviam de brotar do cérebro. Uma ou outra vez, ao tornar para casa, cheio de música, despertava nele o maestro inédito; então, sentava-se ao piano, e, sem idéia, tirava algumas notas, até que ia dormir, vinte ou trinta minutos depois.

Assim foram passando os anos, até 1885. A fama do Pestana dera-lhe definitivamente o primeiro lugar entre os compositores de polcas; mas o primeiro lugar da aldeia não contentava a este César, que continuava a preferir-lhe, não o segundo, mas o centésimo em Roma. Tinha ainda as alternativas de outro tempo, acerca de suas composições; a diferença é que eram menos violentas. Nem entusiasmo nas primeiras horas, nem horror depois da primeira semana; algum prazer e certo fastio.

Naquele ano, apanhou uma febre de nada, que em poucos dias cresceu, até virar perniciosa. Já estava em perigo, quando lhe apareceu o editor, que não sabia da doença, e ia dar-lhe notícia da subida dos conservadores, e pedir-lhe uma polca de ocasião. O enfermeiro, pobre clarinete de teatro, referiu-lhe o estado do Pestana, de modo que o editor entendeu calar-se. O doente é que instou para que lhe dissesse o que era; o editor obedeceu.

– Mas há de ser quando estiver bom de todo, concluiu.
– Logo que a febre decline um pouco, disse o Pestana.

Seguiu-se uma pausa de alguns segundos. O clarinete foi pé ante pé preparar o remédio; o editor levantou-se e despediu-se.

– Adeus.
– Olhe, disse o Pestana, como é provável que eu morra por estes dias, faço-lhe logo duas polcas; a outra servirá para quando subirem os liberais.

Foi a única pilhéria que disse em toda a vida, e era tempo, porque expirou na madrugada seguinte, às quatro horas e cinco minutos, bem com os homens e mal consigo mesmo.

Referência

ASSIS, Machado de. Um homem célebre. In: Várias Histórias. W. M. Jackson Inc Editores, 1946.

* Este célebre conto de um de nossos maiores autores é utilizado frequentemente por pesquisadores que associam a história da literatura com a história da canção brasileira. O texto que talvez mais se detenha sobre esse relação é Machado Maxixe, de José Miguel Wisnik, que estuda o “caso Pestana”.

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